Estreante no mercado editorial, o jornalista Bruno de Castro lança livro no qual costura memórias e afetos, seus e dos seus. Obra tem prefácio assinado por Valter Hugo Mãe e posfácio de Socorro Acioli
O sertão onde se passa “E, no princípio, ela veio”, livro de estreia do jornalista cearense Bruno de Castro, é um cafundó pertencente a lugar nenhum. Ou qualquer lugar plantado na esperança de uma mulher para não ser mais uma beradêra, como se chama por aquelas bandas quem vive em casa de beira de estrada e por ela caminha na vida.
Tereza, a protagonista, sim, existe. É a mãe do autor, a quem Bruno dedica o livro. “As primeiras histórias que ouvi foram contadas por ela. As mais importantes, que mais me marcaram, também. Eu cresci ouvindo causos sobre um sertão cheio de mistérios que hoje em dia não existem mais. Que a gente não vive mais. Esse livro é um jeito de celebrar a saudade do futuro e do passado”, diz o escritor.
São 17 crônicas. Todas memorialísticas. Ora lembranças de Tereza, ora de Bruno. Ora dos dois, que se completam principalmente na terceira parte da obra – dedicada à velhice da mãe e narrada pela perspectiva do filho, hoje pai de quem o criou. As duas demais partes remontam episódios da infância e da fase adulta de Tereza.
Muitos textos flertam com o gênero conto, com enredos que vão da ingenuidade cômica do sertanejo que encheu os bolsos de sorvete para as filhas à morbidade da mulher que bradava aos ventos ser amiga da morte, ao ponto de a companheira tê-la confidenciado dia e hora que morreria.
“E, no princípio, ela veio” tem prefácio assinado pelo luso-africano Valter Hugo Mãe e posfácio de Socorro Acioli. Aclamado em diversos países do mundo, Valter ganhou o Prêmio Literário José Saramago e do Grande Prêmio Portugal Telecom de Literatura. E é apontado como forte candidato ao Nobel de Literatura.
“O que Bruno escreve é um encontro. Impossível ler sem sermos também convocados aos mais genuínos testes afetivos. Queremos abraçar as pessoas na rua depois de cada trecho. Bruno monumentalizou sua mãe, querida Dona Tereza, que fica erguida na Literatura para sempre”, sintetiza Valter.
Já a escritora cearense e também jornalista Socorro Acioli venceu o Jabuti, mais importante prêmio de literatura do Brasil. “Chorei várias vezes lendo as palavras do Bruno, o bordado que refez Tereza Brito sobre a Terra. Ela agora é mais forte, mais imensa, eterna e feita de letras. Este amor não é só deles, é nosso também. Morará para sempre em cada leitor.”
Na estreia, Bruno une sentimentos longos em narrativas curtas. A vontade de abraçar o mundo dentro de páginas bordadas por histórias que mais do que envelhecem com a protagonista. “E, no princípio, ela veio” é um livro sobre sertão, maternidade, amor e Amor.
“Esse projeto nasceu do amor de minha mãe por mim e agora retorna pra ele. Pra ela, como agradecimento. Compartilhar a nossa história com o mundo atravessando esse momento tão polarizado, tão cheio de ódio, cegueira e rancor é um jeito meu de dizer que, no fim, não importa quanto tempo isso o que estamos vivendo dure, o amor vence. Num simples olhar ele vence. Eu precisei exercitar o meu olhar pra enxergar muita coisa que desaprendi e esse livro nascer. Se as histórias fizerem algum afeto nascer em alguém, numa só pessoa que seja, já valeu tudo a pena”, finaliza Bruno.
Há na literatura brasileira uma valorização da temática sertaneja, mas, em geral, essas características são costumam ser associadas à crônica – considerada um gênero eminentemente urbano, nascido das pressões e necessidades da cidade.
Bruno de Castro, porém, é um cronista que busca trazer um pouco desse ambiente sertanejo, tanto no conteúdo como na linguagem, para as suas crônicas. É o que se lê em “E, no princípio ela veio: Crônicas de memória e amor” (Moinhos, 2020).
De fato, o cronista reúne um punhado de saudades sertanejas, com episódios do cotidiano de onde se tira uma espécie de filosofia do sertão. Há um visível trabalho de linguagem, destinado a captar, também na forma, a poesia desse ambiente.
O ritmo conta nessas crônicas, e às vezes até se impõe sobre o conteúdo. Parece haver certa inspiração em Guimarães Rosa, o que explicaria o uso de expressões como “ser pouco nas idades”, que o cronista utiliza para se referir a crianças.
Essas crônicas destacam principalmente as mulheres e, entre elas, sobretudo a sua mãe Tereza. Há momentos muito pungentes nesses textos, como quando o cronista fala da velhice e da necessidade de ele mesmo cuidar da sua mãe.
Há também tias e primos, e em tudo Bruno busca retratar as esperanças, os medos, as tristezas e os afetos de cada um. Chega-se a um resultado bastante poético, para o qual contribui até mesmo a diagramação peculiar, com recuo de parágrafos.
Um livro significativo, mais um que deveria ser mais conhecido.