Há na literatura brasileira uma valorização da temática sertaneja, mas, em geral, essas características são costumam ser associadas à crônica – considerada um gênero eminentemente urbano, nascido das pressões e necessidades da cidade.
Bruno de Castro, porém, é um cronista que busca trazer um pouco desse ambiente sertanejo, tanto no conteúdo como na linguagem, para as suas crônicas. É o que se lê em “E, no princípio ela veio: Crônicas de memória e amor” (Moinhos, 2020).
De fato, o cronista reúne um punhado de saudades sertanejas, com episódios do cotidiano de onde se tira uma espécie de filosofia do sertão. Há um visível trabalho de linguagem, destinado a captar, também na forma, a poesia desse ambiente.
O ritmo conta nessas crônicas, e às vezes até se impõe sobre o conteúdo. Parece haver certa inspiração em Guimarães Rosa, o que explicaria o uso de expressões como “ser pouco nas idades”, que o cronista utiliza para se referir a crianças.
Essas crônicas destacam principalmente as mulheres e, entre elas, sobretudo a sua mãe Tereza. Há momentos muito pungentes nesses textos, como quando o cronista fala da velhice e da necessidade de ele mesmo cuidar da sua mãe.
Há também tias e primos, e em tudo Bruno busca retratar as esperanças, os medos, as tristezas e os afetos de cada um. Chega-se a um resultado bastante poético, para o qual contribui até mesmo a diagramação peculiar, com recuo de parágrafos.
Um livro significativo, mais um que deveria ser mais conhecido.