Numa gélida e pobre aldeia do interior vive Abílio, um garoto que ajuda, para sobreviver, o dono da taberna local. Um dia uma troupe de malabaristas de circo, que ganha a vida de terra em terra com as esmolas que recebe dos aldeãos, passa na aldeia. O Abílio apaixona-se pelo toque do cornetim que anuncia o circo, tocado por outro garoto mais ou menos da sua idade, e decide abandonar a aldeia e acompanhar o circo nas suas andanças. A obra percorre várias histórias da localidade e dos seus habitantes, até que o circo vai regressar à aldeia e Abílio pretende ficar na sua aldeia, mas tem vergonha, pois vem mais pobre do que quando partiu. A casa da malta é onde se vão acolher todos os vagabundos e desvalidos que passam por aquela aldeia. «Eis, então, que sobre o aceno da infância incidia agora uma luz crua e reveladora. Eis o povo. As realidades elementares, mas pungentes, cálidas e verídicas: o trabalho, a servidão, o amor, sentimentos e coisas apreendidos na carne, que resistiram à adulação das palavras.» Fernando Namora
FERNANDO NAMORA nasceu a 15 de Abril de 1919, em Condeixa-a-Nova. Licenciado pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (1942), exerceu clínica na sua terra natal, na Beira Baixa e no Alentejo e foi assistente no Instituto Português de Oncologia, em Lisboa. Estreou-se nas letras com o vol. de poemas Relevos (1933); o seu terceiro livro de poesia (Terra, 1941) iniciou a colecção “Novo Cancioneiro”, órgão do Neo-Realismo, do qual fazia parte nomes como Carlos de Oliveira, Mário Dionísio e Rui Feijó. Além de poesia e romances publicou contos, novelas, memórias, narrativas de viagem e biografias romanceadas, tendo a sua obra sido traduzida em várias línguas: As Sete Partidas do Mundo (1938), Fogo na Noite Escura (1943), Casa da Malta (1945); Minas de São Francisco (1946); Retalhos da Vida de Um Médico (1949-63), em dois vols.; A Noite e a Madrugada (1950); O Trigo e o Joio (1954); O Homem Disfarçado (1957); Cidade Solitária (1959); Domingo à Tarde (1961, Prémio José Lins do Rego); Diálogo em Setembro (1966), Os Clandestinos (1972); Cavalgada Cinzenta (1977); Resposta a Matilde (1980); Rio Triste (1982, Prémio D. Dinis); Nome para Uma Casa (1982); Sentados na Relva (1986). Em 1981, foi nomeado para o Prémio Nobel da Literatura pelo PEN Clube e pela Academia das Ciências de Lisboa. Foi condecorado pela Presidência da República com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, em 1988. Faleceu a 31 de Janeiro de 1989, em Lisboa.
Casa da Malta é, como não cessa de recordar-nos o longo e entediante prefácio, uma obra de tendência neo-realista na qual se retratam as vidas dos estratos mais pobres de uma aldeia beirã. A história centra-se em torno da Casa da Malta, uma espécie de abrigo informal onde se acolhiam os menos favorecidos, que não tinham uma casa a que pudessem chamar de sua. Forma-se então nesta casa um ambiente de solidariedade entre os múltiplos ocupantes, unidos pela desgraça comum, e relatam-se as estórias de uns e outros, dando a entender a sequência de eventos que ali os levou.
É um retrato pouco comum da sociedade esquecida de inícios do século XX, um exercício de empatia com uma espécie de ameaça subentendida mas nunca explicitamente afirmada: foram eles, mas poderias ter sido tu... Foi o meu primeiro livro de Fernando Namora, e impressionou-me. Seguramente lerei mais.
O prefácio é interessante. Mas o livro é vulgar; não compromete nem encanta. Namora inclina-se mais para a narrativa - em prejuízo da descrição naturalista - e dá-nos um neo-realismo heterodoxo. Só que este filho bastardo tem pouco pejo; pouco mais é que uma coleção de historietas sobre remediados. Para leitura de uma tarde, passa.