Vicente, morador em Alfama e carteiro de profissão, teve uma infância difícil - o pai, polícia, acabou por se enforcar depois de ter morto a mãe por causa de… futebol.
Não é por isso de estranhar que, em adulto, Vicente sofra de alguns traumas e apresente um desdobramento de personalidade que faz com que, durante a noite, tenha necessidade de deixar emergir o seu eu inconsciente transformando-se no Corvo.
Defendendo que o "destino de um homem depende das suas crenças e dos seus fantasmas", o Corvo tenta superar a timidez de Vicente e vestir a pele de super-herói.
É assim que, assumindo o papel de justiceiro, o Vicente/Corvo vai neste livro tentar fazer frente ao que considera serem os (grandes) problemas da cidade de Lisboa: o Combustão (ou o Fanã?!), as pílulas do senhor reitor, as trotinetas ou… os pombos Kamikaze. E tudo isto, como não podia deixar de ser, na companhia de Robim, o seu inseparável companheiro.
Inconsciência Tranquila, é o quarto e mais recente volume das aventuras do célebre Corvo, o anti-herói português criado por Luís Louro em 1994, e assinala a estreia da Ala dos Livros na publicação de obras de autores portugueses.
Quarto volume com o herói urbano - O CORVO. Um vilão incendiário, o COMBUSTÃO, também chamado de "Faísca", faz de tudo para que o Corvo e o seu side-kick, a bicicleta Robim, não tenham sucesso na luta contra os crimes, as trotinetes e os pombos citadinos. Um estranho convento e um grupo de irmãs que, pelos vistos, andam cheias de dores-de-cabeça, são outros "assuntos" com que o Corvo tem de lidar. Um herói que tem uma abordagem diferente ao crime e uma cidade que não é aquilo que parece. Uma BD bastante interessante, uma arte gráfica muito segura, com traços fortes e cores arrojadas. Uma edição de grande qualidade da Ala dos Livros.
Já decorreu mais de uma década desde o primeiro volume de O Corvo, série de Luís Louro publicada inicialmente pela Asa. A edição agora é da Ala dos Livros e a série ficou, sem dúvida, a ganhar com a mudança. Mas não foi só a editora que mudou para melhor. Este Inconsciência Tranquila destaca-se pela grande evolução no desenho e na narrativa e decerto marcará o mercado português de 2020.
Todo o herói precisa de um vilão. O Corvo não é excepção. Neste volume surge o seu… Némequê… Mêne… Némesis! De nome combustão, este vilão irascível está sempre prestes a entrar em chamas, não fosse esquecer-se, por vezes, do fósforo!
Entre os efeitos da sua kryptonite (chamuças) e a tentativa de devolver comprimidos a um convento, o Corvo continua a realizar uma interpretação peculiar dos acontecimentos – decerto influenciada pela educação excessivamente tradicional e conservadora.
Mas enquanto o Corvo se tenta manter afastado de pensamentos pecaminosos, o mesmo não se pode dizer do que o rodeia. A vida da noite está carregada de perversidade, tráfico e muita loucura – uma visão que estaria acessível a quem ocupa os telhados, mas que nem sempre é atingível pelo Corvo.
Esta oposição de perversidade com conservadorismo é algo que caracteriza a série, mas que tomou uma nova dimensão neste volume. O Corvo encontra-se entre a caricatura do tradicional português e a do super herói honrado, a quem foi dada uma certa dose de distracção ou ingenuidade. O humor é peculiar. Por vezes corrosivo. As piadas e as situações constrangedoras são constantes, resultando numa leitura bem disposta e divertida.
Em termos visuais, este volume de Corvo é muito arrojado. Mantendo Lisboa como palco da acção (com o herói que vigia a cidade do topo dos detalhados) e um enquadramento escuro (ou não estivéssemos de noite), encontramos traficantes, vilões, máfias e dominadoras de chicote.
As personagens apresentam posses e expressões exageradas em desenhos com alguma profundidade e detalhe (q.b. numa história de grande acção). Apesar do tom escuro, o autor consegue um interessante (e estimulante) jogo de cores, destacado por uma disposição pouco tradicional das vinhetas.
A combinação de todos estes elementos visuais e narrativos resulta num volume que proporciona elevada diversão, não aconselhável a leitores sensíveis e conservadores. Os episódios mirabolantes (e perversos) sucedem-se! Divertido e moderno, este volume de Corvo ultrapassa todos os limites da moral e dos bons costumes!
O livro pode ser encomendado directamente na página da editora.
Já tinha lido outros livros do autor mas nunca tinha lido nenhum do Corvo. Gostei do humor, de pequenos pormenores que podem escapar aos desatentos e dos fantásticos desenhos.