"Um texto escrito de maneira visceral é capaz de transformar, mudar, aproximar, afetar. Na verdade, é o que para mim faz mais sentido. Caso contrário, vamos seguir escrevendo os mesmos textos de sempre, a partir do olhar e do ponto de vista de sempre. Vamos seguir fingindo que estamos conversando com o outro por meio das palavras quando, na verdade, não estamos interagindo com ninguém a não ser com a gente mesmo. É uma conversa solitária. Mas dá para mudar isso."
Neste livro, Ana Holanda conduz o leitor numa jornada sobre a descoberta da Escrita Afetuosa. Longe de querer ditar regras ou se basear em truques, o objetivo aqui é fazer com que cada um encontre a própria voz, identifique a melhor forma de colocá-la no papel e, por fim, perca o medo de compartilhar o resultado.
Tenho opiniões fortes sobre o livro -- quando estava em 50%, já estava com a resenha pronta. Mas como ele me moveu a escrever -- a resenha, pelo menos; e me encheu de afetos -- raiva, na maior parte das vezes; vou deixar as opiniões assentarem por alguns meses antes de rever a resenha e ousar publicá-la. Vale o aviso, no entanto, para quem caiu nele sem contexto (como eu), que: não ajuda muito a quem pensa em escrever ficção; é quase um manual de estilo da revista "Vida Simples" -- ao ponto de você se questionar se a autora não tem outro exemplo de escrita afetuosa que não tenha sido publicado sob seus cuidados; e que tem um quê de "boletos não fazem parte das minhas preocupações, vamos nos encontrar na escrita e ponderar sob a vida" que pode tirar do sério pessoas com demandas mais urgentes.
Essa citação resume bem o livro todo. O conceito de escrita afetuosa envolve ser capaz de ser vulnerável, de dividir experiências pessoais e humanizar as histórias. Sim, devemos nos preocupar em trazer um lado humano para o texto, afinal todas as histórias são sobre pessoas, mas aqui eu devo discordar da autora, acho que existe todo tipo de texto e nem sempre a gente precisa ler algo que envolva a vida de alguém, alguns textos só precisam ser informativos e sucintos, isso basta (se eu tiver que ler sobre a infância do autor toda vez que ler um texto...). São ideias para textos de não ficção, principalmente reportagens e afins, há vários exemplos assim no livro, mas ele se torna repetitivo depois de um tempo.
Amei demais esse livro! E para mim fez total sentido, pois me lembrei de todos os mini textos escritos por mim em redes sociais que renderam muitos comentários e até conversas em particular. Em todos eles há ou o meu olhar mais atento sobre alguma situação que presenciei ou a minha essência sobre algo que vivi e senti. Como a Ana Holanda bem aponta neste livro, quando a gente de fato se entrega e se coloca no texto, a verdadeira troca acontece.
A nota vem do deleite de compartilhar das dicas sobre escrita afetuosa, sobre escrever para si mesmo antes de qualquer coisa. Mas, no geral, esse livro é um pouco repetitivo e contém uma enxurrada de citações que ficam amontoadas em boa parte do texto, o que daria muito melhor nas palestras dela, num vídeo, mas aqui, acaba tirando uma pouco da essência da própria temática apresentada.
É em se perder e se reencontrar, e a ironia disso ter acontecido neste livro.
Esse livro que traz tanta verdade, não somente sobre a escrita, mas sobre nós mesmos e a vida. Nunca imaginei que através da escrita eu pudesse me reconhecer tanto e dar espaço ao sentimento de serenidade ao invés da ansiedade.