Lira Neto produziu uma biografia de Getúlio Vargas em três volumes cronologicamente divididos entre acontecimentos pré 1930, de 1930 até o exílio e de 1945 até o suicídio. Pareceu-me perfeita a escolha da divisão da Era Vargas nesses três períodos.
O trabalho é minucioso e fartamente documentado com todas as citações e fatos suportados pelas inúmeras fontes e cadernos de imagens apresentadas ao longo dos três volumes. Um trabalho de historiador como deve ser toda biografia.
No primeiro volume Lira Neto nos apresenta o desenvolvimento e a formação de Getúlio desde sua infância e adolescência na pequena São Borja, que nos ajuda a entender muitos de seus atos na vida adulta e política. É sempre muito importante que o biógrafo apresente não só a vida pública que conduziu o biografado a ser de interesse de seus concidadãos, como também a sua formação de personalidade, desde a infância. Nesse volume acompanhamos o despertar de Getúlio para a política, inicialmente no âmbito da conturbada política local, sob as asas de Borges de Medeiros, o líder político do PRR. Acompanhamos sua participação no movimento federalista gaúcho de 1923, seu crescimento como político local até alcançar expressão nacional no governo Washington Luis culminando com a sua participação como líder civil da revolução de 30, a partir de sua posição como presidente do Rio Grande do Sul.
O segundo volume se inicia com Getúlio Vargas como presidente do Governo Provisório instalado pela revolução de 30, passando por todas as crises políticas pelos quais se equilibrou no poder como fruto do seu maestral malabarismo político. Desfilam aos nossos olhos de leitor os constantes conflitos com o tenentismo, que exigiam uma governo ditatorial sem influência dos políticos, exatamente contra os quais se fizera a revolução, a crise da Guerra Paulista em 32, a Constituinte e a Constituição de 34, A lei de segurança editada para contornar os controles de poder que a nova Constituição estabelecera ao presidente, os problemas com o comunismo em 35, o integralismo, o Estado Novo e a constituição polaca em 37, os problemas com a 2ª Guerra Mundial, a agonia do Estado Novo e a finalmente a deposição e consequente exílio de Vargas.
O terceiro volume se inicia com Getúlio, em São Borja, no exílio. Nesta fase aumenta o papel de sua filha Alzira Vargas que já começara a trabalhar ao lado de Getúlio desde 1932. Muitas cartas entre pai e filha ilustram os acontecimentos e o pensamento de Vargas, nesta fase em que Getúlio fingia-se de morto, mas estava muito vivo esperando a oportunidade de emergir. Vemos o crescimento de sua candidatura presidencial para 1950 e as artimanhas de seu aliados nas escaramuças para levá-lo novamente ao Catete pelo voto, o que finalmente acontece. Dai chegamos aos problemas com a UDN e Carlos Lacerda, o assassinato do Major Vaz e a crise grave com o subsequente suicídio.
Uma obra magistral, que apesar de mais de 1.600 páginas, devorei em vinte dias.
Lira Neto como todo bom historiador não adota uma linha ou ideologia. Se vale da documentação e das fontes da época para fazer um relato dos acontecimentos. Não adotou nenhuma posição pró ou a favor Getúlio limitou-se, na medida do possível e das fontes a que teve acesso, a analisar os documentos e depoimentos da época. Não procurou analisar se Getúlio foi bom ou ruim de uma forma absoluta e sim registrar um momento histórico. Certamente, Getúlio teve ações boas e más e julgar todo o seu período no governo não é tarefa das mais fáceis e sempre devemos ter em mente que a leitura de uma biografia não indica aprovação ou condenação de atos do biografado, mas simplesmente uma intenção de conhecê-lo.