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As Telefones

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As Telefones é uma homenagem ao género literário da diáspora, o telefonema.

“Um dia, ainda vamos ter férias de cruzeiros, filha, vais ver. Um dia, ainda vamos num desses barcos com piscina comer bolinhas de melão, beber champanhe, o mambo todo, nós duas pretas finas e uns criados de lacinho a encherem-nos as taças. A Mamã acredita, filha. Deus é fiel. Vai chegar a nossa vez. Férias mesmo já estão no fim, eh, filha. Passou rápido. Passa bem rápido. Não chora, não. Tempo corre, corre. Mas a Mamã sabe, filha. Um dia, vamos.”

96 pages, Paperback

First published May 29, 2020

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About the author

Djaimilia Pereira de Almeida

22 books193 followers
DJAIMILIA PEREIRA DE ALMEIDA nasceu em Luanda em 1982. É licenciada em Estudos Portugueses, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e Mestre em Teoria da Literatura (2006) e Doutorada em Estudos Literários (Teoria da Literatura) (2012), pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Em 2013, foi uma das vencedoras do Prémio de Ensaísmo serrote atribuído no Brasil pela revista serrote, do Instituto Moreira Salles. Fundou e dirige a Forma de Vida (www.formadevida.org). Trabalha na Fundação para a Ciência e a Tecnologia e é, desde março de 2021, consultora da Casa Civil do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

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Displaying 1 - 15 of 15 reviews
Profile Image for Paula Mota.
1,677 reviews572 followers
April 29, 2025
2,5*

Tinham saudades de ser verdadeiras, como se tem saudades de uma outra vida. Que fazer, se apenas de máscara aguentavam conversar ao telefone, rir-se juntas?

Pensei realmente que ia gostar muito deste livro pelo ponto de partida, “uma homenagem ao género literário da diáspora, o telefonema,” e pelo primeiro capítulo, onde temos um cemitério de cabinas telefónicas, uma estrutura obsoleta hoje em dia, mas ainda com alguma carga nostálgica para mim. Filomena, uma mãe angolana na penúria, vê-se obrigada a enviar a filha ainda pequena para casa da irmã em Portugal e, até se reencontrarem numas férias, já praticamente duas estranhas, é por telefone que mantêm o contacto. Da mãe, o que conhecemos são monólogos cheios de rezas e crendices, o que comigo, que sou profundamente céptica e sem uma ponta de misticismo não poderia de algum modo resultar.

Esses espíritos malignos começam a voar às 3 horas, e voam aí até às 5, voam, voam género marimbondos, à procura de uma janela aberta, sentem o cheiro do sangue, principalmente sangue fresco de meninas que já menstruam, então, vão atrás desses cheiro e, como são espíritos, penetram pelas janelas, por isso é que se deve fechar sempre tudo muito bem antes de ir para a cama, entram no quarto e levam as raparigas para serem mulheres deles no mundo das trevas.

A contrastar com este discurso demasiado próximo da oralidade para o meu gosto, temos as partes muito elaboradas da filha, quase prosa poética em fluxo de consciência, que às vezes me deixaram confusa.

Onde fica a estrada que nos leva para longe? A casa do futuro, onde já não somos nós que envelhecemos? A casa anterior à confusão onde, envelhecendo em descanso, ainda não nascemos? A estrada das coisas que a distância não resolve, onde, andando em frente, o meu chapéu voa, e eu não quero saber, não estou nem aí se fico ou não mais leve. Onde não fosse preciso lamentar a cobardia de não me atrever em nós, soubesse passear-me onde não me vejo, esquecesse que em qualquer estrada vazia estou lá eu. (...) Não será pedir-te de mais: que te feches comigo no amanhã que não foi ontem, onde ainda não te conheci?

Tentei perceber o título, “As Telefones”, por que razão o artigo não concorda com o nome em termos de género. Agradeço uma achega de alguém mais esclarecido.
A diversidade linguística e cultural desta obra irá decerto agradar a muita gente que não tenha as mesmas implicâncias que eu, mas a sensação de distanciamento e de chegar ao fim conhecendo as personagens tão mal como elas se conhecem uma à outra deixou-me bastante frustrada.
Profile Image for Joaquim Margarido.
299 reviews39 followers
August 2, 2020
Quando publicou “Esse Cabelo”, o seu romance de estreia, Djaimilia Pereira de Almeida referiu numa entrevista que “o ganho de procurar é procurar, interessando pouco ou nada o que se encontra”. E embora seja difícil contentarmo-nos com a incerteza quando procuramos saber quem somos, a resposta mais profícua, e a mais desconfortável, é chegar ao fim com uma pergunta, e outra, e outra. Seis anos volvidos, a escritora retoma a narrativa de “Esse Cabelo” naquilo que tem de busca da identidade, continuando a procurar e a achar mais perguntas do que respostas. Isso mesmo confirmamos em “As Telefones”, um livro que narra o viver e o sentir de Filomena e Solange, mãe e filha, seis mil quilómetros a separá-las, sensivelmente a distância que separa os subúrbios de Luanda dos subúrbios de Lisboa.

Longe do exercício voyeurista de quem fica à escuta do lado de fora, aquilo que Djaimilia Pereira de Almeida convoca em “As Telefones” é a imersão plena no corpo e na mente destas duas mulheres à conversa à medida que crescem, sobreviventes aos seus próprios silêncios como duas campeãs de mergulho olímpico. Só o auscultador sujo de dedadas de gordura, as cortinas laranja de flanela suja, o perfume que teima em permanecer nas coisas e cinco dentes de leite guardados num pedacinho de algodão são verdadeiros. Tudo o mais é fingimento, as recordações que contam uma da outra decalcadas das suas próprias recordações, firmes no balanço pelo veneno dos equívocos, os sonhos contados à pressa em chamadas matinais, como casas de pedra e cal nas suas vidas. Uma espécie de pacto, onde o importante é preservar as máscaras e deixar cair aos poucos a certeza daquilo que a cada uma pertence.

Descobrindo-se nesse ponto híbrido que é, ao mesmo tempo, memória, ensaio e ficção, “As Telefones” encerra uma reflexão profunda sobre as causas e consequências do distanciamento físico. Paradoxalmente, um livro que é um desfiar de desvios, imprecisões e omissões, resulta gigante na verdade que dele se derrama. Djaimilia Pereira de Almeida é tocante de honestidade e generosidade na forma como expõe uma realidade de contornos marcadamente pessoais e solidamente ligada ao fenómeno da diáspora. Ao leitor cabe o trabalho de catar as migalhas sobre a mesa, esfareladas pela mão da memória. De perceber o quanto da sua própria vida estará guardado numa caixa de madeira. E de partir em busca de respostas, cada vez mais certo da inutilidade da sua demanda. “Quantas vezes pode morrer uma mãe? Quantas vezes pode nascer uma filha?”
Profile Image for Rute Durão.
210 reviews12 followers
October 14, 2025
Um livro curto, porém com uma leitura desafiante. Djaimilia Pereira de Almeida escreve de forma bastante criativa, uma prosa poética que me pareceu ficção autobiografica, com uns toques de ensaio. Não é um livro fácil. É intrincado, quebra estereótipos e foge ao romance convencional. Apesar da escrita bela, recheada de sentimentos, é uma escrita enganadora fluída. Tive que voltar atrás, por várias vezes, para reler passagens, porque a narrativa está fragmentada. Não é uma crítica negativa, pelo contrário, o livro resulta porque está sustentado nessa fragmentação.
Gostei muito e recomendo sem dúvida.
Profile Image for Paulo Teixeira.
921 reviews14 followers
January 20, 2023
(PT) Uma mãe e ilha, separadas pela distância de continentes, tentam manter-se em contacto através das chamadas telefónicas intercontinentais.

Uma mãe em Angola, uma filha em Portugal, separadas pela distância e pelos anos. E quando estão juntas, tentam encontrar-se para recuperar o tempo perdido e entender-se uma à outra. É a premissa de "As Telefones". E os "As" não é um erro ortográfico: é entender que aqui, só há protagonistas femininas, que contam uma à outra as suas vivências, mas em muitos aspetos, é a mãe a única narradora, a filha é uma mera ouvidora. Os quase monólogos da mãe servem como uma quase tentativa de recuperar o tempo perdido com as viagens, as recomendações, as vivências, quase pedindo que não se percam uma da outra.

Os diálogos são curtos, e lê-se num fôlego, mas as narrativas quebradas por vezes deixam-nos um pouco em dificuldade, e quem consegue acompanhar, fica-se com a sensação de que isto é mais um exercício experimental de escrita que uma tentativa de contar uma história.
Profile Image for Colin.
1,693 reviews1 follower
June 1, 2022
Este livro deu-me água pela barba**. É fino mas o vocabulário é difícil. Mas, apesar de ser uma leitura desafiante, não fiquei aborrecido porque a autora, Djaimilia Pereira de Almeida, sabe escrever. As frases fluem bem e há momentos de humor, tal como a conversa entre a mãe e a filha na qual a mãe explica que espíritos malignos começam a voar às três de manhã. Afirma que estes espíritos entram pelas janelas abertas e “aproveitam-se das mulheres que dormem sem cuecas”. Acrescenta que essas mulheres dão à luz (ou seja dão à escuridão) bebés que elas amamentam no mundo dos espíritos como amantes do diabo. Quando se acordam nem sequer percebem que já não são elas mesmas, mas estão a viver uma vida paralela no mundo das trevas. Sim senhora.
Mas além destas opiniões malucas da velha, há uma sensação comovente perante a relação entre mãe e filha que se conduz na série de conversas por telemóvel e pessoal.
Profile Image for Maísa.
80 reviews
November 20, 2025
As críticas negativas sobre a "fragmentação" deste livro são absolutamente tolas. Se é sobre duas mulheres fragmentadas este texto não podia estar feito de outra forma.

É fragmentado? Pois claro. Não o são também os telefonemas? A distância? A interrupção na relação mãe-filha? Quando uma morre também ficam na outra os fragmentos que, agora e para sempre, perderam toda e qualquer hipótese de colar. A reconexão que nunca acontece também fragmenta. Os planos, as promessas, os "um dia vamos", vocalizados ou não, tornam-se fragmentos do que vai permanecer, agora e sempre, como sonhos irrealizáveis. Acima de tudo, como a Djaimilia escreveu: os mistérios ficam sem solução. E sabem? Isso também fragmenta. São tudo fragmentos, retalhos, estilhaços.

A forma como está escrito? Blah blah destoante porque uma é muito coloquial e religiosa, a outra é prosa poética... Honestamente acho uma forma ótima de fazer evidenciar a distância entre elas. No entanto, pouco me importa. Tem muito sentimento e isso basta.

São tudo fragmentos e ainda bem.

Só comecei a ler este porque gostei de outra obra que li da Djaimilia. Não fazia a menor ideia de qual ia ser o tema. Que surpresa foi. Tenho a certeza absoluta que isto não teria tido tanto impacto em mim se o meu contexto fosse outro. Mas epah ganda cena mm.
Profile Image for Vicente.
128 reviews12 followers
October 19, 2021
A Djaimilia é fabulosa, não sabe escrever mal. Este é um pequeno livro que só perde(?) devido ao seu carácter fragmentário. De resto, está lá tudo: a escrita e o sentimento.
Profile Image for diario_de_um_leitor_pjv .
788 reviews146 followers
April 28, 2022
“As telefones” de Djaimilia Pereira de Almeida, Relógio D’Água, Lisboa, 2020

Se temos um objecto deste século XXI, esse objecto é o telefone. Ou melhor, aquelas coisas que trazemos sempre agarradas às mãos. Este livro parte da premissa da importância destes objectos para as histórias, no feminino, da imigração. E assim, Djalimilia Pereira de Almeida nos presenteia com um intrincado livro cuja leitura - pouco a pouco - se revelou uma paixão.
Tal como em outros momentos estes comentários são apenas desabafos de um leitor e não se enquadram em qualquer tipo de crítica literária. E sim este livro é uma daquelas leituras que nos põe a pensar. É uma leituras sobre as mulheres negras e imigrantes que se cruzam comigo todos dias. É uma leitura sobre viver numa sociedade desigual. É uma leitura sobre a saudade de casa, sobre a família que fica longe. Sobre mães e sobre filhas.

“Apenas os barulhos do teu corpo poderiam relevar aos outros o melhor da semana: o telefonema. Haveriam de morrer no meu ouvido. Também tu morrias no fim da chamada até ao meu coração voltar ao devido lugar, o clarão esmorecer e nos sentarmos à mesa para jantar, nem o telefone acordara nem eu engolira uma porção da tua juventude triste e alegre. Não sei como é a tua cara. Não conheço o teu corpo. Não conheço o meu corpo.”
Profile Image for Catarina Stichini .
51 reviews5 followers
January 2, 2021
Em As Telefones Djaimilia Pereira de Almeida dá a conhecer Filomena e Solange, mãe e filha, e a vida que vão construindo ao telefone entre Angola e Portugal, à custa dos sonhos e desencantamentos de uma e de outra.

Uma relação marcada pela distância, pela memória, pelo desejo de pertença, pelo amor e pela perca. Perca dos pequenos momentos da vida conjunta. A diáspora numa história comovente e ainda dolorosamente próxima dos nossos dias.

“Enquanto nada disso acontecia, e não poderia jamais acontecer, Filomena e Solange folheavam revistas. Mentiam às amigas sobre o tanto que planeavam fazer juntas. Os seus telefonemas não eram palavras, mas um sonho em andamento, cujo avesso era tudo o que não contavam uma à outra: a filha sonhando com a vivenda onde a mãe vivia, que nunca visitara, a mãe sonhando com o apartamento onde a sua menina haveria de ser a dona da casa.”
Profile Image for Andreia Morais.
455 reviews33 followers
Read
August 15, 2024
TW: Referência a Doença Oncológica

A premissa de uma relação construída através de telefonemas é muito interessante, até porque implica uma série de reflexões: o impacto da ausência, o desejo de pertença, a noção de compromisso, a disponibilidade, o respeito pelo tempo do outro. Por outro lado, é curioso como contrasta a cumplicidade da chamada e a cerimónia no reencontro.

Gostei muito da ideia e do facto de nos fazer pensar sobre temas tão centrais como a imigração, as ligações familiares e as desigualdades, mas confesso que não me consegui relacionar com todas as partilhas feitas por esta mãe e por esta filha. Acho que encontraram um mecanismo de defesa na forma como se expressavam e naquilo que pretendiam contar uma à outra, mas queria ter chegado ao fim a sentir que cresci com elas, conhecendo-as melhor.
Profile Image for Joao DCosta.
349 reviews12 followers
June 15, 2025
Apesar de ser um livro curto, é um livro algo difícil de ler, mas que me deu um enorme prazer ao fazê-lo pois Djaimilia sabe escrever muito bem. E sabe despertar-nos sentimentos no meio de uma prosa poética, o que a mim me cativa imenso.

Neste livro, encontramos a relação à distância entre mãe e filha, em que a ligação é feita por telefone durante anos. Em meio à pobreza e ao sentimento de que o caminho é em frente, por muito difícil que seja, este livro faz uma reflexão sobre as causas e as consequências de um grande distanciamento físico.

Adorei este livro, e só veio consolidar a Djaimilia como uma das minhas autoras de eleição.
Profile Image for Adelina.
228 reviews1 follower
April 28, 2024
Numa busca incessante pela identidade, mãe e filha sonham para além da realidade. As transformações, a estranheza, o reconhecimento.
143 reviews3 followers
June 15, 2023
As Telefones foi encantamento às primeiras palavras, como já tinha acontecido com o anterior livro da Djaimilia, Luanda, Lisboa, Paraíso, e se ambos partilham a geografia, as relações familiares e a escrita poética, são no resto distintos. As Telefones é a história de uma mãe e uma filha, Filomena e Solange, que vivem separadas mas é também a despedida da mãe. A filha vive em Lisboa, primeiro com uma tia e depois sozinha, enquanto a mãe permanece em Angola. Falam por telefone, são elas próprias telefones (Os seus telefonemas não eram palavras, mas um sonho em andamento, cujo avesso era tudo que não contavam uma à outra ...). São ambas narradoras, alternando-se, marcando pelo estilo de letra a autoria.
A filha cresce sem saber exatamente – sem se recordar - como é a mãe, ignorando por isso como ela própria será. As transformações porque ambas passam, tornam-nas desconhecidas a cada reencontro. O reconhecimento ou a estranheza quando se encontram (Só te deixo entrar em minha casa porque o teu cheiro confirma a tua identidade.) e até a cerimónia que fazem é o oposto da cumplicidade de quando falam ao telefone.
“Tornámo-nos uma surpresa. Teremos envelhecido de auscultador na mão, amadurecendo aos poucos, ou mantido ao longo dos anos um pacto entre energias falantes, a que não corresponde matéria alguma? Sustivemo-nos num bordado de novidades que nunca é o que queríamos ouvir e no fim foi quem nos tornámos. Fomos, sem o sabermos, amor sem alguém que ame: uma corda que ressoa com monotonia sobre a última ida às compras, o jantar de ontem ou o de há trinta anos, sempre o mesmo.”
E depois enquanto falam ao telefone ou quando se encontram, entre conversas íntimas, intrometem-se acontecimentos que vão marcando as épocas, como a morte de Arafat, o suplício de Kadafi, as eleições americanas, a morte de Aretha Franklin e até um excerto do discurso de Theresa May aquando do ataque terrorista em Londres em 2017. Contudo, à distância ou quando se encontram, as conversas que mantêm, evidenciam a cumplicidade e a continuidade que existe entre mãe e filha. Entre mães e filhas.
Mas mais do que falar sobre As Telefones só posso sugerir que o leiam.
https://leiturasemclube.blogspot.com/...
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