Entre a Barra da Tijuca e o balneário mexicano de Cancún, um comovente romance de formação, mergulho de rara sinceridade em temas como religião e paternidade.
Às portas da adolescência, Joel sente-se deslocado entre os amigos da escola e do prédio onde mora. O ano é 1998 e o mundo parece cada vez mais um lugar ameaçador. Ao mesmo tempo em que busca acolhimento num grupo de jovens de uma igreja evangélica, entra em colisão com o modo de vida do pai, que acaba de regressar ao Brasil após quatro misteriosos anos na cidade de Cancún. Décadas depois, com a morte do pai, longe da religião e prestes a ter um filho, Joel decide voltar, sozinho, ao balneário mexicano. Ao tentar repetir os passos paternos, uma viagem simples se torna complexa, e o que se evidencia são os caminhos que levaram Joel a ser quem é. Com uma prosa clara e irretocável, Miguel Del Castillo faz o retrato de uma classe forjada em condomínios fechados e paraísos fiscais, em colégios onde a violência é a regra e no brilho plástico dos fast-foods. Um dos romances mais surpreendentes da nova geração de autores brasileiros.
"Miguel Del Castillo conduz o leitor com firme serenidade por um relato impecavelmente estruturado, no qual a família é a expressão imperfeita e acolhedora dos mistérios da vida." — Daniel Galera
"Nesta jornada sutil de reconhecimento do pai, o que está em jogo, ao fim, são as zonas de sombra de todos nós." — Noemi Jaffe
Escritor, tradutor, editor e curador. Carioca radicado em São Paulo, é autor de Restinga (contos, 2015) e Cancún (romance, 2019), ambos pela Companhia das Letras. Foi um dos vinte autores selecionados para a edição "Os melhores jovens escritores brasileiros" (2012) da revista britânica Granta. Em 2018, foi escritor residente na Fondation Jan Michalski (Suíça), e, em 2019, um dos convidados da programação principal da Flip.
Traduziu do espanhol autores como Alejandro Zambra, Julián Herbert, e Inés Bortagaray. Foi também editor da Cosac Naify, do site da revista ZUM e atualmente é curador da Biblioteca de Fotografia do Instituto Moreira Salles.
Há dois tipos de narrativas sobre paternidade: aquelas escritas por filhos, e aquelas escritas por pais. "Cancún", novela de Miguel Del Castillo, tem algo destes dois tipos. Alternando capítulos em primeira e em terceira pessoa sobre o passado e o presente de Joel - um carioca abastado, fruto de um casal de pais separados -, o livro lança estes dois olhares em momentos aparentemente incorrespondentes. O que é curioso e inusitado é também bastante interessante.
Se, no passado, Joel é essencialmente filho (retratado entre a infância, pré-adolescência e puberdade), a visão do paterno já está impregnada ali, neste retrato em primeira pessoa - construído ulteriormente, pela memória do pai que ele está prestes a ser, já na idade adulta.
É a descoberta deste pai que domina o presente da narrativa. Uma descoberta que se dá pela recuperação do seu próprio pai - o que o coloca de novo no papel de filho: uma função que não conseguiu desempenhar plenamente na infância (incapaz de construir uma história de seu progenitor em meio a uma vida doméstica afastada dele e completamente autocentrada, típica de um filho único).
De um lado, impera um senso de tragédia iminente construído pelo trauma de ter presenciado o sequestro de seu pai (um homem rico e que satisfaz todos os seus caprichos, provavelmente com o dinheiro que ganha em negócios escusos). Do outro, a verdadeira tragédia: o tempo que começa a corroer as bases familiares e levar embora a saúde do pai e da mãe, empurrando-o a uma rotina dividida entre a redação de um jornal e as UTI's de hospitais.
Este temor quase obsessivo pela desgraça é construído, primeiro, a partir de eventos públicos (como a queda do edifício Palace) e privados (omo sua introspecção na escola e as primeiras manifestações de uma sexualidade reprimida pela sua formação evangélica). A religião é outro detalhe que, por curioso e inusitado, torna-se interessante e até certo ponto original: só sob a perspectiva desta tradição cristã é que os temores de Joel conseguem boiar da superfície dos dramas burgueses de um "menino de apartamento", para usar a denominação menos pejorativa. Sem ela, dificilmente seus traumas escapariam de uma certa pieguice elitista que Del Castillo consegue contornar também mais tarde, quando seu protagonista abandona todas as suas responsabilidades no Brasil para viajar a Cancún, seguindo o rastro do seu pai e da mal-contada história do sequestro.
É quando os ingredientes desta breve narrativa, de mornos, atingem o seu ponto, confluindo para o belo (embora previsível) desfecho. Como bela (embora previsível) é a vida e seus vários ciclos, todos tão bem conhecidos e tão bem delineados, mas tão difíceis de se encarar e tão complicados de se reproduzir. Com esta obra, Miguel Del Castilho deixa tudo isso impresso em literatura. Não é à toa que a chamam de criação.
uma leitura sensível e honesta sobre ser filho, relações familiares e entender os nossos pais. gostei muito e os capítulos do Joel adolescente me lembraram muito de Se deus me chamar não vou.
outro empréstimo da biblioteca de sp <3. 3.5 pra baixo. quando eu li a sinopse imaginei um livro um pouco diferente mas mesmo assim gostei bastante da escrita e a história fluiu rapidamente. eu gostei bastante dos POVs alternados entre primeira e terceira pessoa pra adulto e adolescente, e acho que vários momentos do livro couberam na minha realidade, tanto como brasileira jovem quanto como as experiências em resorts mexicanos onde você está isolado na zona turística. acho que várias frases do livro foram super bonitas, as memórias são autênticas e no geral é tranquilo de ler. acho que algumas coisas são meio não respondidas ou introduzidas muito no final (como a questão da religião, que achei que seria central, mas aparece apenas depois da metade).
frases que achei lindas + relatable
"Todo ser humano é um resultado de pai e mãe. Pode-se não reconhecê-los, não amá-los, pode-se duvidar deles. Mas eles aí estão: seu rosto, suas atitudes, suas maneiras e manias, suas ilusões e esperanças, a forma de suas mãos e de seus dedos do pé, a cor dos olhos e dos cabelos, seu modo de falar, suas ideias, provavelmente a idade da sua morte, tudo isso passou pra nós". - J.M.G Le Clézio, O africano.
"Nesse instante, que dura segundos, tenta pensar que aquilo está acontecendo de verdade, que há uma menina bonita na frente dele, que gosta dele e quer beijá-lo. As vezes sente que não vive as situações, como se sua própria vida estivesse sendo vivida por outra pessoa, então tenta mentalizar que é ele mesmo que está ali, naquele momento." p. 63
"Penso nos meus pais, e nos pais em geral. Nas histórias sobre si que nos contam, nas que nunca contarão. E naquelas que nos revelam porque falamos algo, por vezes trivial, que os faz recordar determinada coisa. O conhecimento que temos deles aumenta a conta-gotas ao longo de nossa trajetória. Será que escolhem deliberadamente o que vão nos dizer, ou é algo aleatório? Nossa vida seria melhor se soubéssemos de tudo ou de quase tudo que aconteceu com eles quando crianças, adolescentes e jovens adultos, no período antes de nascermos e enquanto ainda éramos pequenos demais pra nos lembrar? Isso preencheria essa lacuna que temos, ou seria pior, como no seriado?"
Uma obra sobre amadurecimento. Como diz um dos comentários na orelha do livro, um romance discreto. Eis uma lição para nós: amadurecer de maneira discreta. Boa leitura.
Realmente, é um livro que flui com rapidez. Tendo crescido no Rio de Janeiro, me identifiquei com vários momentos do romance. Confesso que a conexão Rio-Cancún não me instigou tanto, mas acho que é uma obra que vale a pena checar.