Uma leitura bem conduzida salva de tudo, mesmo de nós próprios. E acima de tudo, lemos contra a morte.
Ao reler este livro passados 30 anos, exerci o direito nº 3 da lista de Direitos Inalienáveis do Leitor criada por Daniel Pennac, em que os meus preferidos são, inevitavelmente, o Direito de Não Acabar um Livro e o Direito de Saltar de Livro em Livro. Na altura, estava longe de ter filhos e, agora, já seria tarde de mais para seguir algum dos ensinamentos e sugestões de “Como num Romance” para ser bem-sucedida a transmitir-lhes a vontade de ler, mas nem assim julgo ter feito um mau trabalho, apesar de ambos passarem por fases em que optem pelo direito nº 1, o Direito de Não Ler.
Muito simplesmente seguia o seu ritmo, que não é necessariamente igual ao dos outros, e que não é necessariamente o ritmo uniforme de uma vida, o ritmo de aprendiz de leitor, que tem acelerações e regressões bruscas, períodos de bulimia e longas sestas digestivas, sede de progredir e medo de decepcionar… Acontece apenas que nós, os “pedagogos”, somos usurários apressados. Como detentores do Saber, emprestamo-lo a juros. É preciso que renda. E rapidamente!
“Como num Romance” é uma obra encantadora e divertida sobre a passagem de testemunho que é a paixão pela literatura, mas comecemos logo pelo elefante na sala: a escolha das obras de referência para passar a sua mensagem. Sendo Daniel Pennac um homem francês de uma certa geração, tem como cânone o habitual eixo França-Rússia, chegando, na loucura, à Espanha (Cervantes, naturalmente), EUA (Melville, obviamente) e Chéquia (Kakfa, claro). Mulheres? Duas, de passagem: Flannery O’Connor e Selma Lagerlöf. Se em adolescente me tivessem posto a ler “Guerra e Paz” ou um clássico em que as mulheres se suicidam por ser adúlteras, não sei se não me tornaria uma leitora relutante também.
Pennac aponta várias causas e soluções para a falta de interesse pelos livros na infância e na adolescência, começando pelo papel dos progenitores e focando-se bastante na tarefa da escola.
Os professores encarregados de ensinar as matérias são os iniciadores, e não se lhes pode exigir que louvem a gratuitidade da aprendizagem intelectual, quando tudo, absolutamente tudo na vida escolar – programas, notas, exames, classificações, orientações, secções – afirma a finalidade competitiva da instituição.
Além da imagem dos progenitores como romancistas dos próprios filhos ao deitar e do professor como casamenteiro que proporciona o encontro dos alunos com os livros apaixonantes, há aqui lugar para se discorrer sobre os leitores empedernidos…
E um leitor? Descrevam-me um leitor. (…) Outros traçam-me o retrato de um autista profundo, de tal modo absorvido pelos livros, que choca com todas as portas da vida. Outros ainda, fazem-me uma descrição pela negativa, referindo aquilo que um leitor não é: não é desportista, não vive, não é divertido, não gosta de patuscadas nem de vestimentas, nem de carros, nem de televisão, nem de música, nem de amigos…
…e sobretudo para uma questão que me é muito cara e que julgo ser uma resposta inspiradora para aqueles a quem perguntam como conseguem ler tanto.
Mas como se explica que aquela, que trabalha, vai às compras, educa os filhos, guia o carro, ama três homens, vai ao dentista, vai mudar de casa para a semana que vem, arranje tempo para ler, e este casto celibatário que vive de rendimentos não o consiga? O tempo para ler é sempre um tempo roubado. (Como aliás o tempo para escrever, ou para amar.) Roubado a quê? Digamos que ao dever de viver. (…) A leitura não resulta da organização do tempo social, ela é como o amor, uma maneira de ser.
Ou por que lêem sequer.
As razões que temos para ler são tão estranhas como as que temos para viver. E ninguém nos pede contas desta intimidade. Os raros adultos que me deram livros a ler, fizeram-no sempre de modo muito discreto, e nunca me perguntaram se eu tinha compreendido.