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224 pages, Paperback
First published January 1, 1951
MONTES CLAROS
Álvaro Marcílio é paulista. Tocava violino, ganhou medalhas no Rio. Foi com o violino que pôde se formar. Mas para mais o instrumento não dava e quando o bacharel se viu com o canudo do diploma debaixo do braço, meteu-se num trem e foi parar em Montes Claros. Montes Claros pega como visgo. Os anos passaram, Marcílio engordou, o seu riso continuou jovem. Do seu tempo de violino guarda o cabelo a maestro, algumas saudades secretas, uma certa volubilidade que é própria dos verdadeiros artistas e a aristocracia das mãos, que parecem pegar os objetos como o mesmo cuidado com que pegavam o delicado instrumento. A advocacia tem altos e baixos. O Ginásio Norte-Mineiro talvez dê prejuízo, mas os ideais sempre dão prejuízo — é a compra e venda de pedras preciosas que conserta tudo. Eis um montes-clarense.
*
O maior de todos [os montes-clarenses] — Juca Prates. Juca Prates gerou o jucapratismo. Jucapratismo é isto: como o calçamento atual é precário torna-se preciso andar dum jeito um tanto especial — e Juca Prates anda; como a luz é fraca, para se andar nas ruas, nas noites sem luar, necessita-se dum outro sentido que evite os altos e baixos do calçamento, as valas e as valetas, os buracos de pó, os tocos para amarrar cavalos, etc. — e Juca Prates tem este sentido. O jucapratismo comporta ainda todas as virtudes de Juca Prates, sejam: saber o nome e a história de todos os montes-clarenses pelo menos de três gerações; saber as rendas mensais e anuais da estação, da coletoria e do toro; estar a par de todos os fuxicos citadinos; ter participado de todas as encrencas políticas municipais; saber quantos telegramas o telégrafo de Montes Claros passou num dia; quantos selos o correio vendeu, quantas cartas expressas chegaram, quantos quartos vazios há no hotel do seu Romano (que é filho de Sete Lagoas), etc., etc. O jucapratismo gera milagres como os que se seguem. Primeiro: em seis meses que passou em Belo Horizonte jamais deixou de ir à estação duas vezes por dia, quando chega e quando parte o trem de Montes Claros. Segundo: nomeado delegado do recenseamento em Montes Claros, acha que ganha demais; para Montes Claros trabalharia até pagando.
— Quantos bois passaram por Montes Claros neste inverno, Juca Prates?
— Duzentos e cinquenta mil. (Foram cento e vinte mil no máximo.)
— Quantos habitantes tem a cidade, Juca Prates?
A voz grossa responde:
— Trinta mil. (Tem quinze mil no máximo.)
E Juca Prates não mente. Dentro dele Montes Claros tem trinta mil habitantes, dentro dele o pó de Montes Claros não amedronta ninguém, dentro dele ele mesmo se perde na babilônia que é o Hotel São José, de oitenta quartos, dentro dele o cabaré do Sinval ferve todas as noites como um night-club da Broadway. Porque dentro dele existe uma Montes Claros que nós não vemos, mas que ele vê e, com a sua grande alma, ama com o mais férvido amor.
*
Recusou o cigarro — tinha deixado de fumar por prescrição médica. Acendi meu goiano de palhinha:
— Sentiu muito?
— Bem… Os dez primeiros anos são os piores…
*
JANUÁRIA
Januária fica encolhida sobre o barranco, triste e árida, como uma moça sem amor. Diante dela o São Francisco tem um quilômetro, pontuado de coroas amarelas, onde de noite se recolhem as aves aquáticas. Mas, quando vem a cheia, o rio se estende, põe seis a sete léguas de margem a margem, proibindo plantações regulares, ameaçando o gado, roendo os barrancos como uma doença de mau caráter, devastando povoações ribeirinhas, e, ao descer das águas, vêm os mosquitos, os anófeles, principalmente, e tudo treme e os cemitérios se enchem.
*
MONTE CARMELO
Depois de setecentos quilômetros numa região sáfara, despovoada, com poucas, insignificantes cidades, chega-se a Monte Carmelo, cuja parte nova, que caminhou em direção à estação, lembra, pela retidão e pela largura das ruas, pelo tipo das construções e pela chatura do terreno, uma dessas cidades americanas do far west que nós vemos comumente no cinema. À primeira vista, altiva, vermelha, significativa — uma bomba de gasolina.
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E uma pequena coral, fugindo ao longo da linha, é bela ao sol como uma pulseira de mulher.
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CATAGUASES
Nasceu a menina Bárbara. A cidade se escandaliza, fala abertamente que é uma vergonha dar-se o nome de Bárbara a uma inocente. Tanto nome bonito — Marlene, Daisy, Mary, Juraci, Adail, Berenice, Nilze, Dulce, Ivone, Ivonete, tantos, tantos! E não falam apenas, passam a agir. Conversam com o pai, procurando por meios persuasórios convencê-lo de que a criança será fatalmente infeliz, pois terá vergonha do nome, etc. (quem diz isto é dona Aglaia). Enviam cartas anônimas, terminam por falar com o vigário que não batize a menina, mas o vigário infelizmente respeita muito o pai do anjinho, que é pessoa potentada na cidade. Há uma semana de agitação, ao fim do qual o pai vai ao cartório e registra a menina — Bárbara. O povo ainda fala dois ou três dias, depois, cansado e derrotado, volta-se para outro acontecimento não menos palpitante: seu Talino, da coletoria, cuspiu na cara da mulher. Mas secretamente prepara um apelido para a inocente Bárbara.
*
ITAJUBÁ
O homem nunca tinha visto o mar. Um dia, viu-o.
— Então?
— Muito chique, muito distinto…
*
São maus os acordes do companheiro, mas bem que ele capricha pendurado no cabo do violão. Silenciosos, nós ouvimos. O misterioso cidadão de Guaratinguetá, que nos acompanha, protege o pescoço com um cachecol vistoso. O frio é forte. A madrugada não tardará. Há vultos do mísero amor nas sombras do grande largo escuro como breu. A igreja dos pretos é ninho de corujas. O cantor pede delirantemente que a amada volte para os seus braços. Cada coração está longe, longe do cantor, longe das notas desafinadas. A brasa do meu cigarro é um triste farol na escuridão.
*
CONCEIÇÃO DO SERRO
Quando chove, a água escorre entre as pedras e lava a cidade. Ela fica limpa, nova, duma limpeza de presépio. […] E a prefeitura, com um zelo que atenta contra o já tão pequeno patrimônio nacional, passou a descalçar a cidade das suas pedras, transformando as ruas, outrora tão limpas, em estreitos chiqueiros de lama. Para os que condenaram, a prefeitura tinha o sorriso de quem está muito superiormente enfronhada no que seja uma administração moderna, dentro do código dos municípios. Para os que apontaram que o calçamento antigo era muito superior, esteticamente, ao lamaçal, a prefeitura sorriu, sorriu com o sorriso de quem está muito a par do que seja estética citadina.
*
Teresa ficou evidentemente sobressaltada com a minha presença. Principalmente depois que soube que eu trazia no saco quatro diabinhos para soltar em Conceição.
Estúrdio em Conceição é o que é louco em outros lugares.
— Que homem estúrdio!… — fala sozinha, baixo, como se falasse consigo, mas na certeza de que eu estava ouvindo.
Observava-me de soslaio, ia e vinha com a cabeça em movimentos manhosos:
— O senhor conhece bem ele, doutor Joãozinho?
Todo mundo sabe que o diabo veste muita vez a indumentária dos homens para melhor seduzi-los e praticar as suas maldades. Mas doutor Joãozinho respondeu:
— Conheço, Teresa. É muito meu amigo. Um rapaz do Rio. Escritor…
A Teresa continua incrédula:
— Não está parecendo boa gente — e sonda na barra da minha calça a possibilidade de um rabo e nos meus sapatos a possível conformação de um pé caprino.
Teresa é parda clara, o rosto curtido, baixa, não tem idade verificável, mas já deve ter passado dos cinquenta, pelo que se sabe a seu respeito. É uma figura de Conceição. Nunca trabalhou, nunca trabalhará. O máximo a que se dispõe são pequenos recados, pequenas compras, sempre comissionadas. Embora de pé no chão, anda sempre muito limpa, cheirando a ferro de engomar. Vive de cachaça. Não muita, apenas o suficiente para chegar aos olfatos alheios e para dar impressão de um tanto embriagada e poder assim ter um habeas corpus para dizer tudo o que quer na cara dos fregueses. E como tem uma finura matuta, um rude poder de sátira, sátira por vezes cruel, ela vai vivendo a sua vidinha certa dos níqueis que lhe caem nas mãos pela graça da sua presença.
Espalhou pela cidade notícias horripilantes a meu respeito. Estúrdio, diabo disfarçado, cheirando a enxofre, estava desencaminhando doutor Joãozinho, etc., etc. Mas, oportunamente, na hora da partida, deixei na mão esperta qualquer lembrança que pudesse transformar a sua opinião a meu respeito. Creio que consegui…
*
CARMO DO RIO VERDE
Na solidão do trem dentro da noite, a tristeza desamparada dos meus pensamentos. Por toda a parte o mesmo: subalimentação, tuberculose, sífilis, maleita, devastação de florestas, religião, denso analfabetismo, casamento indissolúvel, lúgubre mortalidade infantil, falta de recursos, desalento. E não sei o que dói mais fundo — não saber se os corações são tão bons que tudo suportam, se tão miseráveis que não têm consciência de sua desgraça. E por vezes brasas, que a locomotiva joga, luzem como uma chuva de ouro que as trevas logo apagam.
*
SABARÁ
Alegre em Sabará só há uma coisa e é também uma igreja — a igrejinha de Nossa Senhora do Ó, igrejinha branca de Lilipute, dominando o fundo de um largo ladeirento, cujo chão a enxurrada cortou de maneira caprichosa. Sobre o adro de pedras fincadas, onde cresce um capim verde como a esperança, ela eleva-se gentil como uma namorada. Se há padres de menos ou se há igrejas demais em Sabará, não sabemos; certo é que a formosa igrejinha está sempre fechada e quem quiser visitá-la tem que andar procurando a sua grande chave colonial pelos casebres da redondeza, pois é num deles que habita a venturosa zeladora, que na verdade é uma lavadeira.
[Um comentário: as suítes sobre Sabará foram escritas em 1941. Em 2019 fui à cidade, e o roteiro descrito por Rebelo pra visitar a igrejinha de Nossa Senhora do Ó continuava o mesmo: ela estava fechada e era preciso sair em busca duma senhora comum, moradora da região, que detinha a chave.]
*
BELO HORIZONTE
Deu-se hoje o roubo mais extraordinário do mundo. O homem de perna de pau estava tirando um solzinho num banco do parque. Cochilou, veio o ladrão, desaparafusou a perna de pau e a história foi contada em todos os jornais.
*
Pouco a pouco é que a gente aprende.
“Trem” é o mesmo que coisa. “Truta” é tudo que é ruim, desagradável, calamitoso. Num jogo de copas, a trágica rainha de espadas é a “truta”. Também é “truta” o sujeito que esconde sua tuberculose e nos grampeia contra a parede diariamente para uma prosa. “Jabiraca” — medonha, feroz, infernal — refere-se sempre à mulher. “Pitimba” é azar, falta de dinheiro, situação aflitiva. “Enrustido” tem uma significação transcendental: é coisa profunda, coisa que está dentro do homem e que não sai de jeito nenhum. Há literatos enrustidos, amorosos enrustidos, casamentos enrustidos. “Toda vida” é superlativo absoluto. Exemplo: bonito toda vida, gostoso toda vida, engraçado toda vida.
E é assim que se pode convidar um cavalheiro para uma cachacinha:
— Vamos tomar um cafezinho dos nossos?
Alguns respondem:
— Só para tirar o pigarro.
Mas há almas mais delicadas:
— Só para tirar o orovaio da boca.
(Orovaio é orvalho em outras terras.)
*
BARBACENA (cidade onde Rebelo morou na infância)
Bernanos andou por Pirapora, não sei se apanhou malária lá, mas agora vive em Barbacena. Tem um sítio nos arredores, mas frequenta razoavelmente a cidade.
Um dos seus costumes é escrever nas mesas dos cafés, inteiramente impermeável aos rumores cafesinos, e o Bar Apelo é o ponto predileto para escrever sobre a França, sobre Cristo, sobre os maus católicos, etc.
Se é de Barbacena que vem datando os seus últimos escritos, Barbacena não o lê ou quase não o lê. Admite-o com a mesma simplicidade com que acha culto e talentoso o reverendo padre Sinfrônio — também defensor da França, de Cristo, e inimigo dos maus católicos, ex-vereador, ex-deputado estadual, amplo chapéu de feltro preto, há trinta anos vibrante sermonista na Procissão do Encontro, peça que arranca lágrimas e que ninguém desconfia que é a mesma há trinta anos.
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CUIABÁ
Às quatro da manhã os sinos acordam, indiferentemente, católicos e ateus.
*
RECIFE
Sim, o luar escorre, bate nos telhados patinados pelo tempo, bate nas igrejas antigas, algumas tão ricas, outras tão severas, e todas tão evocadoras, bate no teatro que é puro, lindo, cor-de-rosa, bate nos grandes edifícios que não deviam existir ali, que poderiam ser levantados mais adiante, em ponto que significasse orgulhoso e irrevogável progresso, mas que não modificasse o ar senhorial e apaixonante da cidade, reduzindo-a a uma cidade igual a qualquer outra.
*
É ainda Gastão de Holanda quem me leva à sede de O Gráfico Amador, grupo interessado e restrito, na realidade restritíssimo e do qual é ele um dos mais destacados e entusiasmados componentes. O que devemos a este grupo de amadores não tem preço — algumas das edições mais belas que podemos orgulhosamente oferecer aos que exigem que o livro seja uma coisa graficamente digna e não a imundície que desgraçadamente publicamos.
*
FLORIANÓPOLIS
A sombra da patriarcal figueira, que de tão velha já se apoia em muletas, também pode refrescar ideias e sentimentos. Nem tudo está morto dentro de nós. Ficaria aqui por muito tempo.
*
Mas Florianópolis melhorou nestes dois anos em que lá não ia, solicitado por outros quadrantes. Três pontos, pelo menos, marcam o seu progresso: a luz, o Hotel Lux (que é luz em latim) e o Museu de Arte Moderna, fundado por este seu criado em 1948, mas que só agora inaugurou a sede própria e condigna e não foi por outro motivo que me bati para lá.
A luz era uma vergonha! Quem perdesse uma abóbora no meio da rua, ficava sem ela.
*
Acolho-me à sombra da árvore sem partido, agora que parou o vento de três dias neurastênicos.
Acodem-me duas ou três verdades, inúteis para os homens como todas as verdades.