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Cenas da vida brasileira

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Os romances e contos de Marques Rebelo (1907-1973) asseguram ao autor a posição de clássico em nossa literatura. O que poucos leitores sabem é que o escritor também fez incursões em outros gêneros literários, os quais deixou a marca de seu talento e estilo, como é o caso de Cenas da vida brasileira . Percorrendo o Brasil, o autor de A estrela sobe observou os mais diferentes aspectos da vida dos brasileiros, na sua diversidade de hábitos e costumes. Neste volume de notas de viagem, Rebelo troca a ficção pela realidade, a partir da observação direta de fatos e pessoas. Publicado em 1951, este livro é parte do projeto de reedição de toda a obra do escritor carioca.

224 pages, Paperback

First published January 1, 1951

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About the author

Marques Rebelo

50 books4 followers
Marques Rebelo (nome literário de Edi Dias da Cruz), jornalista, contista, cronista, novelista e romancista, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 6 de janeiro de 1907, e faleceu na mesma cidade em 26 de agosto de 1973.

Era filho do químico Manuel Dias da Cruz Neto e de D. Rosa Reis Dias da Cruz. Sua infância dividiu-se entre Vila Isabel, onde nasceu, e a cidade mineira de Barbacena, para onde sua família se mudou quando ele tinha quatro anos. O que nunca lhe faltou, no Rio ou em Minas, foi um terreno baldio para jogar futebol e livros para ler. Além dos livros de ficção da biblioteca de seu pai, aos onze anos já tinha lido autores que os outros só leem quando adultos: Buffon, Flaubert, Balzac e os clássicos portugueses. Aos 15 anos o conhecimento de Machado de Assis e Manuel Antônio de Almeida iria despertar nele a “coceira de escrever” de que nunca mais se libertaria. Prosseguiu seus estudos e, no início dos anos de 1920, ingressou na Faculdade de Medicina, que logo abandonou para se dedicar ao comércio.

Dedicou-se ao jornalismo profissional no mesmo período. Publicou poemas nas revistas modernistas Verde, Antropofagia, Leite Crioulo e outras. Escreveu seus primeiros contos por volta de 1927, quando fazia o Serviço Militar. Oscarina, publicado em 1931, é, em grande parte, fruto de sua vivência na caserna, que se transformou em literatura graças a uma queda sofrida numa competição esportiva que o reteve meses numa cama de hospital, onde ele aproveitava o tempo para escrever. Juntamente com a decisão de abandonar a poesia e se tornar ficcionista, o escritor tomou a de rebatizar-se. Questionado porque adotou o pseudônimo de Marques Rebelo, Edi Dias da Cruz explicou: “Nome de família muitas vezes atrapalha. Devido à campanha que fizeram contra os modernistas na Semana de Arte Moderna, justamente na época e por influência da mesma senti que tinha vocação para a literatura e resolvi adotar esse pseudônimo, evitando assim sofrimentos para a família.”

Dois anos depois de Oscarina, veio a público Três caminhos, volume composto pelas novelas “Namorada”, “Vejo a lua no céu” e “Circo de cavalinhos”, e o romance Marafa, em 1935, laureado com o Grande Prêmio de Romance Machado de Assis, da Cia. Editora Nacional. O grande êxito viria em 1939 com A estrela sobe, romance de uma jovem suburbana que “vence” no rádio, a grande fábrica de ilusões da década de 1930. Marques Rebelo integrou a geração que fez o Romance de 30, inserido na linha da literatura de acusação e de denúncia da miséria brasileira. Foi o romancista do Rio de Janeiro, sobretudo de sua gente simples e humilde. Para ele, o Rio era a Zona Norte, de onde vinha o Carnaval e onde ia buscar a maioria dos seus personagens da baixa classe média. Escreveu sobre futebol, viagens e sobre Manuel Antônio de Almeida, o primeiro romancista brasileiro a retratar a vida urbana do Rio de Janeiro. Depois de Manuel Antônio de Almeida, Machado de Assis e Lima Barreto, Marques Rebelo foi o mais apaixonado pintor da vida carioca. Mas o Rio por ele descrito já desapareceu, pois ele retratou a cidade nos últimos anos pré-industriais, quando na Tijuca ainda se faziam serenatas, a Lapa estava no auge e casais de namorados passeavam de bonde.

Depois de anos de paciente trabalho, publicou, em 1959, O Trapicheiro, seguido de mais dois volumes: A mudança (1962) e A Guerra está entre nós (1968), que formam o grande e inconcluso romance cíclico O espelho partido, painel fragmentário da vida brasileira, especialmente carioca, na primeira metade do século.

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April 26, 2024
REBELO “PASSEIA DE PIJAMA NO MEU CORAÇÃO”*

Foi somente em 2023 que conheci Marques Rebelo. Tarde (nasci em 1990), mas dentro do prazo. Ele apareceu citado por três pessoas em Perfis e entrevistas: escritores, artistas, cientistas, do jornalista Daniel Piza, e depois voltou a me cortejar na compilação As cem melhores crônicas brasileiras, organizada por Joaquim Ferreira dos Santos. Comecei por Correio europeu, e lendo podia sentir que arregalava os olhos diante duma escrita tão limpa, literária, trabalhada pra ser clara sem aceno ao ordinário, afiliada a uma das melhores escolas do humor: daquele que esquenta por dentro sem pôr sons pra fora. Me apaixonei. Se só pudesse levar cinquenta títulos pruma ilha onde ficaria até morrer, Rebelo iria comigo na mochila.

Enquanto Correio europeu (resenhei no Goodreads) apresenta suítes tratando das viagens de Rebelo pela Europa, este Cenas da vida brasileira faz o mesmo em diversos municípios e distritos destas terras, principalmente mineiros (alguns deles nem existem mais). A expedição vai de 1937 a 1959, se anotei corretamente, mas não segue rigorosa ordem cronológica no livro: inicia em Montes Claros (1939) e termina em Florianópolis (1952). Adoro tudo daqui — gostaria de poder guardá-lo na íntegra numa gavetinha na cabeça —, e transcrevo só alguns trechos pra divulgar esse autor tão subestimado que merece cortejar mais leitores. É um deleite: nós sempre teremos bons livros velhos onde pousar a vista.

MONTES CLAROS

Álvaro Marcílio é paulista. Tocava violino, ganhou medalhas no Rio. Foi com o violino que pôde se formar. Mas para mais o instrumento não dava e quando o bacharel se viu com o canudo do diploma debaixo do braço, meteu-se num trem e foi parar em Montes Claros. Montes Claros pega como visgo. Os anos passaram, Marcílio engordou, o seu riso continuou jovem. Do seu tempo de violino guarda o cabelo a maestro, algumas saudades secretas, uma certa volubilidade que é própria dos verdadeiros artistas e a aristocracia das mãos, que parecem pegar os objetos como o mesmo cuidado com que pegavam o delicado instrumento. A advocacia tem altos e baixos. O Ginásio Norte-Mineiro talvez dê prejuízo, mas os ideais sempre dão prejuízo — é a compra e venda de pedras preciosas que conserta tudo. Eis um montes-clarense.

*

O maior de todos [os montes-clarenses] — Juca Prates. Juca Prates gerou o jucapratismo. Jucapratismo é isto: como o calçamento atual é precário torna-se preciso andar dum jeito um tanto especial — e Juca Prates anda; como a luz é fraca, para se andar nas ruas, nas noites sem luar, necessita-se dum outro sentido que evite os altos e baixos do calçamento, as valas e as valetas, os buracos de pó, os tocos para amarrar cavalos, etc. — e Juca Prates tem este sentido. O jucapratismo comporta ainda todas as virtudes de Juca Prates, sejam: saber o nome e a história de todos os montes-clarenses pelo menos de três gerações; saber as rendas mensais e anuais da estação, da coletoria e do toro; estar a par de todos os fuxicos citadinos; ter participado de todas as encrencas políticas municipais; saber quantos telegramas o telégrafo de Montes Claros passou num dia; quantos selos o correio vendeu, quantas cartas expressas chegaram, quantos quartos vazios há no hotel do seu Romano (que é filho de Sete Lagoas), etc., etc. O jucapratismo gera milagres como os que se seguem. Primeiro: em seis meses que passou em Belo Horizonte jamais deixou de ir à estação duas vezes por dia, quando chega e quando parte o trem de Montes Claros. Segundo: nomeado delegado do recenseamento em Montes Claros, acha que ganha demais; para Montes Claros trabalharia até pagando.
— Quantos bois passaram por Montes Claros neste inverno, Juca Prates?
— Duzentos e cinquenta mil. (Foram cento e vinte mil no máximo.)
— Quantos habitantes tem a cidade, Juca Prates?
A voz grossa responde:
— Trinta mil. (Tem quinze mil no máximo.)
E Juca Prates não mente. Dentro dele Montes Claros tem trinta mil habitantes, dentro dele o pó de Montes Claros não amedronta ninguém, dentro dele ele mesmo se perde na babilônia que é o Hotel São José, de oitenta quartos, dentro dele o cabaré do Sinval ferve todas as noites como um night-club da Broadway. Porque dentro dele existe uma Montes Claros que nós não vemos, mas que ele vê e, com a sua grande alma, ama com o mais férvido amor.

*

Recusou o cigarro — tinha deixado de fumar por prescrição médica. Acendi meu goiano de palhinha:
— Sentiu muito?
— Bem… Os dez primeiros anos são os piores…

*

JANUÁRIA

Januária fica encolhida sobre o barranco, triste e árida, como uma moça sem amor. Diante dela o São Francisco tem um quilômetro, pontuado de coroas amarelas, onde de noite se recolhem as aves aquáticas. Mas, quando vem a cheia, o rio se estende, põe seis a sete léguas de margem a margem, proibindo plantações regulares, ameaçando o gado, roendo os barrancos como uma doença de mau caráter, devastando povoações ribeirinhas, e, ao descer das águas, vêm os mosquitos, os anófeles, principalmente, e tudo treme e os cemitérios se enchem.

*

MONTE CARMELO

Depois de setecentos quilômetros numa região sáfara, despovoada, com poucas, insignificantes cidades, chega-se a Monte Carmelo, cuja parte nova, que caminhou em direção à estação, lembra, pela retidão e pela largura das ruas, pelo tipo das construções e pela chatura do terreno, uma dessas cidades americanas do far west que nós vemos comumente no cinema. À primeira vista, altiva, vermelha, significativa — uma bomba de gasolina.

*

E uma pequena coral, fugindo ao longo da linha, é bela ao sol como uma pulseira de mulher.

*

CATAGUASES

Nasceu a menina Bárbara. A cidade se escandaliza, fala abertamente que é uma vergonha dar-se o nome de Bárbara a uma inocente. Tanto nome bonito — Marlene, Daisy, Mary, Juraci, Adail, Berenice, Nilze, Dulce, Ivone, Ivonete, tantos, tantos! E não falam apenas, passam a agir. Conversam com o pai, procurando por meios persuasórios convencê-lo de que a criança será fatalmente infeliz, pois terá vergonha do nome, etc. (quem diz isto é dona Aglaia). Enviam cartas anônimas, terminam por falar com o vigário que não batize a menina, mas o vigário infelizmente respeita muito o pai do anjinho, que é pessoa potentada na cidade. Há uma semana de agitação, ao fim do qual o pai vai ao cartório e registra a menina — Bárbara. O povo ainda fala dois ou três dias, depois, cansado e derrotado, volta-se para outro acontecimento não menos palpitante: seu Talino, da coletoria, cuspiu na cara da mulher. Mas secretamente prepara um apelido para a inocente Bárbara.

*

ITAJUBÁ

O homem nunca tinha visto o mar. Um dia, viu-o.
— Então?
— Muito chique, muito distinto…

*

São maus os acordes do companheiro, mas bem que ele capricha pendurado no cabo do violão. Silenciosos, nós ouvimos. O misterioso cidadão de Guaratinguetá, que nos acompanha, protege o pescoço com um cachecol vistoso. O frio é forte. A madrugada não tardará. Há vultos do mísero amor nas sombras do grande largo escuro como breu. A igreja dos pretos é ninho de corujas. O cantor pede delirantemente que a amada volte para os seus braços. Cada coração está longe, longe do cantor, longe das notas desafinadas. A brasa do meu cigarro é um triste farol na escuridão.

*

CONCEIÇÃO DO SERRO

Quando chove, a água escorre entre as pedras e lava a cidade. Ela fica limpa, nova, duma limpeza de presépio. […] E a prefeitura, com um zelo que atenta contra o já tão pequeno patrimônio nacional, passou a descalçar a cidade das suas pedras, transformando as ruas, outrora tão limpas, em estreitos chiqueiros de lama. Para os que condenaram, a prefeitura tinha o sorriso de quem está muito superiormente enfronhada no que seja uma administração moderna, dentro do código dos municípios. Para os que apontaram que o calçamento antigo era muito superior, esteticamente, ao lamaçal, a prefeitura sorriu, sorriu com o sorriso de quem está muito a par do que seja estética citadina.

*

Teresa ficou evidentemente sobressaltada com a minha presença. Principalmente depois que soube que eu trazia no saco quatro diabinhos para soltar em Conceição.
Estúrdio em Conceição é o que é louco em outros lugares.
— Que homem estúrdio!… — fala sozinha, baixo, como se falasse consigo, mas na certeza de que eu estava ouvindo.
Observava-me de soslaio, ia e vinha com a cabeça em movimentos manhosos:
— O senhor conhece bem ele, doutor Joãozinho?
Todo mundo sabe que o diabo veste muita vez a indumentária dos homens para melhor seduzi-los e praticar as suas maldades. Mas doutor Joãozinho respondeu:
— Conheço, Teresa. É muito meu amigo. Um rapaz do Rio. Escritor…
A Teresa continua incrédula:
— Não está parecendo boa gente — e sonda na barra da minha calça a possibilidade de um rabo e nos meus sapatos a possível conformação de um pé caprino.
Teresa é parda clara, o rosto curtido, baixa, não tem idade verificável, mas já deve ter passado dos cinquenta, pelo que se sabe a seu respeito. É uma figura de Conceição. Nunca trabalhou, nunca trabalhará. O máximo a que se dispõe são pequenos recados, pequenas compras, sempre comissionadas. Embora de pé no chão, anda sempre muito limpa, cheirando a ferro de engomar. Vive de cachaça. Não muita, apenas o suficiente para chegar aos olfatos alheios e para dar impressão de um tanto embriagada e poder assim ter um habeas corpus para dizer tudo o que quer na cara dos fregueses. E como tem uma finura matuta, um rude poder de sátira, sátira por vezes cruel, ela vai vivendo a sua vidinha certa dos níqueis que lhe caem nas mãos pela graça da sua presença.
Espalhou pela cidade notícias horripilantes a meu respeito. Estúrdio, diabo disfarçado, cheirando a enxofre, estava desencaminhando doutor Joãozinho, etc., etc. Mas, oportunamente, na hora da partida, deixei na mão esperta qualquer lembrança que pudesse transformar a sua opinião a meu respeito. Creio que consegui…

*

CARMO DO RIO VERDE

Na solidão do trem dentro da noite, a tristeza desamparada dos meus pensamentos. Por toda a parte o mesmo: subalimentação, tuberculose, sífilis, maleita, devastação de florestas, religião, denso analfabetismo, casamento indissolúvel, lúgubre mortalidade infantil, falta de recursos, desalento. E não sei o que dói mais fundo — não saber se os corações são tão bons que tudo suportam, se tão miseráveis que não têm consciência de sua desgraça. E por vezes brasas, que a locomotiva joga, luzem como uma chuva de ouro que as trevas logo apagam.

*

SABARÁ

Alegre em Sabará só há uma coisa e é também uma igreja — a igrejinha de Nossa Senhora do Ó, igrejinha branca de Lilipute, dominando o fundo de um largo ladeirento, cujo chão a enxurrada cortou de maneira caprichosa. Sobre o adro de pedras fincadas, onde cresce um capim verde como a esperança, ela eleva-se gentil como uma namorada. Se há padres de menos ou se há igrejas demais em Sabará, não sabemos; certo é que a formosa igrejinha está sempre fechada e quem quiser visitá-la tem que andar procurando a sua grande chave colonial pelos casebres da redondeza, pois é num deles que habita a venturosa zeladora, que na verdade é uma lavadeira.

[Um comentário: as suítes sobre Sabará foram escritas em 1941. Em 2019 fui à cidade, e o roteiro descrito por Rebelo pra visitar a igrejinha de Nossa Senhora do Ó continuava o mesmo: ela estava fechada e era preciso sair em busca duma senhora comum, moradora da região, que detinha a chave.]

*

BELO HORIZONTE

Deu-se hoje o roubo mais extraordinário do mundo. O homem de perna de pau estava tirando um solzinho num banco do parque. Cochilou, veio o ladrão, desaparafusou a perna de pau e a história foi contada em todos os jornais.

*

Pouco a pouco é que a gente aprende.
“Trem” é o mesmo que coisa. “Truta” é tudo que é ruim, desagradável, calamitoso. Num jogo de copas, a trágica rainha de espadas é a “truta”. Também é “truta” o sujeito que esconde sua tuberculose e nos grampeia contra a parede diariamente para uma prosa. “Jabiraca” — medonha, feroz, infernal — refere-se sempre à mulher. “Pitimba” é azar, falta de dinheiro, situação aflitiva. “Enrustido” tem uma significação transcendental: é coisa profunda, coisa que está dentro do homem e que não sai de jeito nenhum. Há literatos enrustidos, amorosos enrustidos, casamentos enrustidos. “Toda vida” é superlativo absoluto. Exemplo: bonito toda vida, gostoso toda vida, engraçado toda vida.
E é assim que se pode convidar um cavalheiro para uma cachacinha:
— Vamos tomar um cafezinho dos nossos?
Alguns respondem:
— Só para tirar o pigarro.
Mas há almas mais delicadas:
— Só para tirar o orovaio da boca.
(Orovaio é orvalho em outras terras.)

*

BARBACENA (cidade onde Rebelo morou na infância)

Bernanos andou por Pirapora, não sei se apanhou malária lá, mas agora vive em Barbacena. Tem um sítio nos arredores, mas frequenta razoavelmente a cidade.
Um dos seus costumes é escrever nas mesas dos cafés, inteiramente impermeável aos rumores cafesinos, e o Bar Apelo é o ponto predileto para escrever sobre a França, sobre Cristo, sobre os maus católicos, etc.
Se é de Barbacena que vem datando os seus últimos escritos, Barbacena não o lê ou quase não o lê. Admite-o com a mesma simplicidade com que acha culto e talentoso o reverendo padre Sinfrônio — também defensor da França, de Cristo, e inimigo dos maus católicos, ex-vereador, ex-deputado estadual, amplo chapéu de feltro preto, há trinta anos vibrante sermonista na Procissão do Encontro, peça que arranca lágrimas e que ninguém desconfia que é a mesma há trinta anos.

*

CUIABÁ

Às quatro da manhã os sinos acordam, indiferentemente, católicos e ateus.

*

RECIFE

Sim, o luar escorre, bate nos telhados patinados pelo tempo, bate nas igrejas antigas, algumas tão ricas, outras tão severas, e todas tão evocadoras, bate no teatro que é puro, lindo, cor-de-rosa, bate nos grandes edifícios que não deviam existir ali, que poderiam ser levantados mais adiante, em ponto que significasse orgulhoso e irrevogável progresso, mas que não modificasse o ar senhorial e apaixonante da cidade, reduzindo-a a uma cidade igual a qualquer outra.

*

É ainda Gastão de Holanda quem me leva à sede de O Gráfico Amador, grupo interessado e restrito, na realidade restritíssimo e do qual é ele um dos mais destacados e entusiasmados componentes. O que devemos a este grupo de amadores não tem preço — algumas das edições mais belas que podemos orgulhosamente oferecer aos que exigem que o livro seja uma coisa graficamente digna e não a imundície que desgraçadamente publicamos.

*

FLORIANÓPOLIS

A sombra da patriarcal figueira, que de tão velha já se apoia em muletas, também pode refrescar ideias e sentimentos. Nem tudo está morto dentro de nós. Ficaria aqui por muito tempo.

*

Mas Florianópolis melhorou nestes dois anos em que lá não ia, solicitado por outros quadrantes. Três pontos, pelo menos, marcam o seu progresso: a luz, o Hotel Lux (que é luz em latim) e o Museu de Arte Moderna, fundado por este seu criado em 1948, mas que só agora inaugurou a sede própria e condigna e não foi por outro motivo que me bati para lá.
A luz era uma vergonha! Quem perdesse uma abóbora no meio da rua, ficava sem ela.

*

Acolho-me à sombra da árvore sem partido, agora que parou o vento de três dias neurastênicos.
Acodem-me duas ou três verdades, inúteis para os homens como todas as verdades.


Livro de cabeceira pra converter ao rebelismo e ter vontade de, como testemunha do escritor, espalhar a sua tão bonita palavra.

____
*A expressão “passeia de pijama no meu coração” é uma paráfrase dum personagem de O simples coronel Madureira, sátira do regime militar publicada em 1967 por Marques Rebelo.
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