Com sua prosa poética intensa, a autora passeia pelas ruas e pelas águas do Pará, trazendo à tona as dores de meninas, mães, avós. Três gerações de mulheres fortes, em 37 contos da autora paraense Monique Malcher.
“Monique não parece preocupada em desenvolver uma fórmula literária e sim, muito mais do que isso, produzir o gesto narrativo em seu ato contínuo, umedecido porque recém-saído do ventre.” Paloma Franca Amorim, escritora paraense, no prefácio do livro
“Monique Malcher escreve o crescimento das mulheres resistentes. Desenha linhas de vidas que, sabemos, muitas vezes quase foram interrompidas; mas abre suas mãos e nos mostra uma transformação: a flor corajosa que se defende, reage, ataca.” Jarid Arraes, escritora e editora de "Flor de gume" pelo selo Ferina, na apresentação do livro.
Monique Malcher é escritora, jornalista e artista plástica nascida em Santarém, oeste do Pará. Mestre em Antropologia (UFPA) e Doutora Interdisciplinar em Ciências Humanas na área de estudos de gênero (UFSC). Hoje reside em São Paulo. Seu primeiro livro “Flor de gume” (editora Moinhos) foi ganhador do Prêmio Jabuti de Literatura em 2021 na categoria contos. A escritora é a segunda mulher do norte a ganhar um Jabuti no eixo literatura. Flor de gume também será publicado em breve com o título “Flor de filo” pela Fundo de Cultura Economica, no México. Seu primeiro romance se chama “Degola” (2025) e está sendo lançado pela Companhia das Letras.
A Violência Contra A Mulher Em cerimônia virtual realizada em 25/11/2021, Flor de Gume foi anunciado o livro de contos vencedor do Sexagésimo Terceiro Prêmio Jabuti, trazendo para o centro das atenções o nome da estreante Monique Malcher, uma paraense de apenas 32 anos.
Abordando a violência contra a mulher, o livro tangencia assuntos delicados e até polêmicos, como o abuso sexual e a alienação parental. O resultado são 37 contos construídos a partir de histórias de mulheres próximas a autora, inclusive familiares, como também informações colhidas durante uma pesquisa acadêmica, realizada para seu mestrado em Antropologia.
Em prosa poética, o livro prima pelas singularidades e dois exemplos são o gênero híbrido e uma protagonista que marca presença nos contos. Divididos em três partes, eles acompanham o amadurecimento de Sílvia e possuem “tons diferentes, conforme a personagem vai crescendo e as situações de violência vão acontecendo, mudando o falar, a narração e a percepção sobre outros personagens”. Logo, cada narrativa funciona tanto em conjunto como em separado e não é raro Flor de Gume ser considerado um romance para alguns dos leitores.
Quanto ao título, ele foi escolhido após a conclusão do livro e reporta a tenacidade das personagens femininas no enfrentamento da falta de equidade nas relações de gênero. Uma assimetria que, a despeito do cunho regional que espelha as raízes de Malcher, reveste-se de importância pela abrangência e universalidade dos temas.
Entretanto, Flor de Gume não teve um percurso fácil até chegar ao leitor. Desconhecida no meio literário, Malcher acompanhou o livro ser recusado, ou melhor, praticamente ignorado por mais de duas dezenas de editoras e, quando a única saída parecia ser um financiamento coletivo, uma cópia chegou às mãos da escritora cearense Jarid Arraes que, encantada, decidiu encaminhá-la para a Pólen Livros, atual Editora Jandaíra, e arcar com os custos de publicação.
Um apoio suficiente para fazer Flor de Gume virar o jogo e tornar-se referência quando o assunto é a superação feminina na ficção. A bem da verdade, “Malcher escreve sobre o crescimento de mulheres resistentes. Desenha linhas de vidas que, sabemos, muitas vezes quase foram interrompidas; mas abre suas mãos e nos mostra uma transformação: a flor corajosa que se defende, reage, ataca. Esta é a imagem poderosa que tinge de verde o corpo de cada leitor: a lâmina dentro da beleza e a beleza possível porque também lacera.” (Jarid Arraes, Prefácio).
“É angustiante querer falar quando a ferida na língua ainda está crescendo. Sinto que as palavras que preciso colocar em algum lugar são tão ácidas, que impedem o próprio ato de falar. Pensei que falava demais, que fosse comunicativa o suficiente para escrever. Era uma criança normal, feliz, afinal, criança que fala é porque está bem, muito bem. E fingia acreditar nessa estabilidade, mas sabia que em algumas moléculas já se escondiam pequenas dores que iam construindo um buraco profundo em que as palavras tentavam dar conta, mas as que ficavam na superfície, as que transbordavam, não eram ainda as que poderiam me curar ou contar a minha história. Que bobagem, querer falar sobre mim mesma, tão desimportante, enquanto comia compulsivamente escondida, sabia do meu crachá de senhorita nada. Ainda hoje, quando falo que estou bem em uma conversa qualquer com a minha mãe, me pergunto quem bate à minha porta, a menina mentirosa consigo mesma ou a que guarda a esperança de não estar o tempo todo assombrada? Não é exclusividade das casas serem assombradas, mulheres são também. Isso conheço bem.” (Camadas Das Memórias Em Lágrimas, Página 53)
Muitas das histórias que a Monique conta são histórias que existem por conta de episódios de dor e de sofrimento, mas é também por causa da dor que muitas delas são histórias de descoberta. De descobrir como tomar a vida pra si, de como expressar ódio e raiva, de como compreender suas dores a partir das dores de outras mulheres. E, por isso, esse livro também é sobre o amor. Um amor nada romântico, que machuca e que violenta, mas também um amor que homenageia, que reverencia as outras, as que vieram antes, as que estão a nossa volta, e as que nos olham no espelho.
Contos que se destacam mais pela linguagem, marcadamente poética, do que pela narrativa, já que na maior parte dos contos os movimentos e a ação acontecem apenas na reflexão das personagens. Muitas das histórias dizem respeito a uma mulher, muitas vezes no Norte, algumas vezes em Florianópolis, vítima de uma relação terrível com seu pai (em um caso, chegando ao abuso) e com outros homens, mas geralmente conseguindo força e inspiração em uma avó. É uma proposta interessante, e fiquei pensando no tanto que pode existir de biográfico nessas histórias, a ponto de imaginar que, se escrevesse crônicas, elas seriam bastante poderosas. Como contos, tive dificuldades com o ritmo.
Não sei se se sustenta como livro de contos, a sensação que tive é que todos eram a mesma coisa no fim das contas; apesar disso tem belíssimas frases e um tom reflexivo que é interessante, mas a prosa poética em exagero e os milhões de parágrafos tornam a leitura maçante.
A obra é dividida em três partes - "Os nomes escritos nas árvores, os umbigos enterrados no chão"; "Quando os lábios roxos gritam em caixas de leis herméticas"; "O reflorestar do corpo, o abandonar das pragas" - e 37 contos que se interconectam. Através de sua prosa poética arrebatadora, Monique dá voz a três gerações de mulheres: avós, mães e filhas; mulheres estas profundamente marcadas pela opressão e pelo abuso de homens de sua família, sejam eles pais, maridos ou namorados. A conexão e a força dessas mulheres, porém, cuida e se revela amparo perante suas dores e traumas. Vemos mulheres que se conectam entre si e com a natureza: rio, florestas, raízes. A leitura nos toca profundamente, à medida que nos identificamos com as questões apresentadas, choramos e nos erguemos juntas. Como narra em "Vênus", "O meu gosto é de quem vai ficar bem e vai cantar uma canção. E vai chorar. E vai envelhecer. E vai sorrir. E vai ter medo. E vai se permitir. E vai tocar em animais da rua. E vai deixar que a palavra seja o único caminho possível". Também compõem o livro as maravilhosas colagens da Monique! Lindo é saber, como disse a autora em uma live no Instagram, em que conversava com a Gabriella Soutello, que os tons de verde utilizados foram selecionados a partir das cores de um colar que pertencia a sua avó. Isso torna a arte ainda mais especial! "Flor de Gume" é um livro que ultrapassa o momento da leitura e continua a ressoar em nosso interior. Monique, como no conto "Girassol", agradeço: "Obrigada por segurar minha mão até onde deu, daqui eu assumo. Minha carona chegou."
Fui ler por obrigação para o projeto de pesquisa sobre literatura feminina amazônica e me surpreendi. Primeiro, são CONTOS MESMO, com ótima nuances sobre a vivência amazônica e feminina muito bons para trabalhar em sala de aula. Segundo, achei que seriam todos em uma pegada intelectual reflexiva metafórica, mas não, tem alguns que são assim, mas os outros são mais narrativas com a reflexão em construção nela e não só um emaranhado de frases prontas. Terceiro, normalmente livro que se propõe a falar de mulher é só um bando de bobajada heterosexual, mas aqui temos sim alguns contos com personagens sáficas/ lésbicas, acho que não chega a 5, que são muito bons. Um deles, que não lembro o nome agora, mas é um dos 5 últimos, representou tão bem como funciona o amor entre mulheres que me destruiu. Quando eu lembra eu coloco todos os meus favoritos: - Borboleta Amarela - O Barco e as Cartografias da Esperança
São vários contos - trinta e sete precisamente, porém todos no mesmo contexto. É o livro de estreia de Monique Malcher. O livro traz histórias de mulheres em um contexto nortista (Pará) que lidam com violências em suas mais variadas dimensões.
Em contos conexos, conhecemos as dores de mulheres que sofrem e sobrevivem no Pará e em Santa Catarina. • Pequenos textos que trazem muitas dores, muitos traumas, muitas dificuldades, e também muita superação, muita força, muita garra, muita vontade de sobreviver. A escrita é embolada, trazendo pensamentos misturados a acontecimentos passados e futuros, e algumas vezes eu me perdia na fala da narradora - mas entendi que minha própria vivência me ajudaria a compreender tudo que estava escrito ali. • E pertencimento é um dos temas citados que me tocou. A personagem trás sua infância ribeirinha como condutora de diversas formas de interpretar o mundo e de ter a força para continuar. Assim como as tantas formas de violência que ela enfrenta (e qual mulher não viveu algumas delas?!) e a construção do seu renascimento diário.
uma prosa livre, regida pelo desespero de sentir e de botar pra fora. o mais engraçado é que ontem vi um filme argentino sobre um escritor que diz que quem escreve precisa de papel, tinta e vaidade. não aqui. em “flor de gume”, as palavras sangram o nosso sangue preso, pisado, retido, guardado nas veias mais secretas, as que a gente nem conhece. seu único defeito é ser longo demais - quase uma hemorragia.
Apresenta-se como um livro de contos, mas em momentos me deixou a percepção de uma cronologia, de fatos que guiaram a narradora por uma jornada de abusos, repressões amorosas, relação difícil e distante com o pai, carinho com a avó, gatos, mudanças para Florianópolis. Construções muito boas, muita poesia, mas nada fácil, temática e forma para gerar reflexões sobre corpos e vidas das mulheres.
Doloridíssimo, lindíssimo, importantíssimo. Que bem fez Monique ao romper os ecos do silêncio e gritar dores conhecidas de mulheres que, mesmo tendo nomes, são anônimas e invisibilizadas pelas violências cotidianas, práticas comuns dos mais comuns dos homens. Contos brutais e estarrecedores que nos fazem menos sós.
Es bueno, de verdad lo es, pero 30+ relatos es como demasiado. Creo que al libro le hubiera hecho bien recortar algunos capítulos y dejar los que más destacan, porque con eso siento que pierde un poco de fuerza, porque hay partes muy poderosas y poéticas increíbles.
Tem aqui uns contos muito potentes! Contos que fazem a gente perder o fôlego e soltar o ar com a última frase. Quero revisitar esse livro no futuro e tentar pegar o que perdi. Só há uma repetição de temas e conceitos, que talvez pudesse ser condensada. Mas muito bom!
talvez esse livro seja 5 estrelas absolutas — mas é tão cru, tão visceral, que talvez eu não tenha gostado tanto quanto ele é como obra. monique malcher é maravilhosa, entretanto
Esse foi um daqueles livros que a gente começa a ler sem ter ideia do que esperar, uma leitura iniciada simplesmente por ter recebido a indicação de alguém que temos em alta estima.
Confesso que este não é um livro fácil de ler devido aos assuntos abordados, principalmente para pessoas que sofreram abusos e violências. Mas ao mesmo tempo é uma leitura catártica e muito prazerosa devido ao excepcional talento da Monique Malcher que, na minha leiga opinião, utiliza o gênero de prosa poética com maestria. O livro é composto de diversos "contos" que perpassa a história de variadas mulheres, suas vidas, sofrimentos, traumas e mortes. Por não ser mulher, eu talvez não tenha como opinar e me conectar a está obra completamente, mas como uma pessoa que sente mais do que devia e que possui seus traumas, por diversas vezes me senti acolhido pelas palavras da autora.