Eu gostaria de começar essa resenha dizendo o principal: esse livro é importante, e eu, como uma pessoa não-binária e lésbica, simplesmente não posso arrancar esse título dele. Seria extremamente insensível da minha parte ignorar a representatividade (que é o ponto mais bem trabalhado — e talvez o único?) de toda a história, e como ela provavelmente fez tantas pessoas, jovens ou adultas, suspirarem de alívio ao, pela primeira vez na vida, se enxergarem como protagonistas em uma história.
Não posso ignorar o fato que nenhuma das personagens principais é branca ou hétero; muito menos que a Clara criou uma personagem com descendência japonesa e uma personagem descendente de indígenas com negros sem estabelecer, nem mesmo disfarçadamente, qualquer estereótipo negativo e errôneo (o que deveria ser no mínimo OBRIGATÓRIO para tode e qualquer escritore, mas, levando em conta os YA Contemporâneos que estão sendo lançados ultimamente, isso é literalmente uma raridade). A presença de um personagem pan e ace — duas características que quase nunca são vistas sozinhas em um personagem, muito menos juntas e representadas de um jeito tão suave — também é digna de uma menção. Além disso, uma história sobre um casal sáfico que não acabe com; a) ume ou es dues personagens mortes; b) uma separação terrível; ou c) cenas explícitas de sexo que não acrescentam em nada na história e apenas causam desconforto nos telespectadores; é algo de se admirar. Essas são coisas que eu não posso julgar, apontar o dedo, menosprezar ou diminuir o valor, pois são sim importantes e válidas.
Mas é aí que chega o plot da história. O jeito como o enredo trabalha catfish (que inclusive, se tratado de forma responsável, é interessante de se ler sobre) e como a Raíssa (que, na minha opinião, é uma das personagens mais caras-de-pau e desonestas que eu já vi), mesmo depois da merda já ter ido pro ventilador e sujado o quarto todo, ainda sim não parece se responsabilizar pelas suas atitudes e usa ''o amor'' muitas vezes como desculpa. Depois de um tempo, eu cheguei à conclusão que estava lendo um dos roteiros descartados de ''Sierra Burgess é Uma Loser'' — que, caso você nunca tenha visto, eu recomendo, se quiser passar raiva com algo que não seja algum dos livros da Rainbow Rowell —, mas com representatividade. Eu juro que anotei todas as ''desculpas'' que a Raíssa usou durante o livro para aliviar a própria consciência sobre seus erros:
- Usar uma frase dita por Ayla em relação a um FILME para comparar com a situação real.
- ''Eu ia falar, mas você fez tal coisa antes e me atrapalhou ):''.
- Umas frases que, nas entrelinhas, parecem com ''os meios justificam os fins''.
- Num determinado momento, em que a Ayla começa a acreditar que tem uma parcela de culpa em tudo aquilo. Oh, sweetie.
- E, um bônus, quando ambas sabem que a relação foi criada e alimentada na base de mentiras, e estão de boa com isso.
No geral, esse fator — nem um pouco pequeno — foi o que fez esse livro perder tantas estrelas. Eu já disse e vou repetir: escritores de YA tem o dobro de responsabilidade sobre os assuntos que vão tratar em seus livros e COMO eles vão ser tratados, pois seu público é, em sua maioria, jovem. Jovens que, muitas vezes, baseiam decisões de vida e ponderam sobre o peso de ações levando em conta os livros que leem. Ao escrever uma história que, apesar da importante representatividade e da escrita fluida, relativiza e diminui os impactos que mentiras em grande escala e catfish (que, só pra lembrar, é crime sujeito à pena) podem causar na vida das vítimas e das pessoas ao seu redor, você não está sendo um escritor muito responsável.