Durante uma brincadeira no colégio, um garoto bate a cabeça e entra em coma. Ele desperta sem saber ao certo quem é, e, conforme suas memórias vão se dissolvendo, tem início o que vem a ser conhecido na família como O Ano do Grande Branco. Nos meses seguintes, o garoto vive a sensação intensa de que aquelas pessoas que cuidam dele e que o alimentam não são seus pais. Todavia, os barbitúricos receitados pelo médico confundem seu raciocínio e o garoto vai aos poucos perdendo as certezas que alguém de onze anos pode ter. É a partir daí que Joca Reiners Terron vai contar essa labiríntica história. Com uma galeria que inclui espiões, guerrilheiros, caçadores e pelo menos um monstro da natureza, “Noite dentro da noite” percorre a história recente do Brasil, inserindo nossa realidade no mesmo caleidoscópio que faz mover este romance incomum e extraordinário.
Joca Reiners Terron nasceu em Cuiabá, em 1968, e vive em São Paulo. Poeta, prosador, tradutor e designer gráfico, foi editor da Ciência do Acidente, selo que resgatou nomes importantes da literatura brasileira do final do século XX, como José Agrippino de Paula, Manoel Carlos Karam e Valêncio Xavier, e pela qual publicou o romance Não há nada lá (depois relançado pela Companhia das Letras) e o livro de poemas Animal anônimo. É autor também dos volumes de contos Hotel Hell, Curva de rio sujo e Sonho interrompido por guilhotina. Dele, a Companhia das Letras publicou Do fundo do poço se vê a lua, vencedor do prêmio Machado de Assis na categoria melhor romance. É criador e curador da coleção “Otra Língua” (Editora Rocco) que divulga autores inéditos e resgata relevantes escritores da América Latina, como Mario Levrero do Uruguai, Julio Ramón Ribeyro do Peru e Guadalupe Nettel do México.
Partindo de uma sinopse interessante e com boa avaliação no Goodreads, “Noite Dentro da Noite” era uma promessa de uma leitura diferente e prazerosa, mas um grande ponto de interrogação...o que sairia do suspense autobiográfico de um garoto que sai de um coma e se vê numa família que acredita não ser a sua, com uma mistura de elementos de ficção e ainda algumas pitadinhas históricas do Brasil da época da ditadura e subsequente abertura política? Não sabia o que esperar dessa salada toda, e o problema é que achei umas larvas no meu alface....
Às vezes você se depara com amor à primeira leitura, aquele livro que te ganha de cara, e no meu caso aconteceu exatamente o contrário: já nas primeiras páginas eu percebi que ia odiar este livro. E não deu outra! Narrativa arrastada e sem intensidade, me lembrou muito o “Barba Ensopada de Sangue”.
O livro não é de todo ruim. As passagens que ilustram o bullying que o garoto sofria na escola renderam um pouco, embora com potencial subaproveitado. Mas a partir dai acompanhamos uma trajetória insossa que totaliza umas 450 páginas, com um narrador pouco inspirado, e com histórias paralelas que vão se desenvolvendo sem despertar o mínimo interesse. Ficou a impressão que o autor não soube como sustentar a história no pós-coma, ligou o f***-se e saiu escrevendo o que desse na telha. Fora a parte do comício da Candelária, os 2/3 finais do livro foram sofríveis demais. Final ruim. Leitura para ser esquecida...
Não que o livro seja sempre perfeito como consegue ser, por exemplo, no longo trecho que vai da página 101 a 179 - no qual a ruptura histórica da ditadura, sua violência sistemática, atinge um paralelo muito bem construído com a infância traumática do protagonista e com a história de Karl, um guerrilheiro perseguido nos confins do Araguaia. Nesse trecho, pra mim, pulsa o coração que vai bombear o resto do romance, injetando na prosa de Terron ecos de um Bernardo Carvalho, de um Thomas Bernhard, de um Roberto Bolaño. Em vários pontos, porém, Terron ecoa somente o pior de Terron (a chatice hermética e intelectualoide de "Não há nada lá"), e o romance se excede para além do excesso que qualquer livro de quase quinhentas páginas poderia nos fazer supor. Dou as cinco estrelas pelos grandes momentos do livro que são realmente enormes - e por todo o caráter imaginativo desta "autobiografia", um esforço descomunal em fazer uma arqueologia familiar e montar toda uma mitologia em torno dela.
O protagonista ouve sua própria história contada por um terceiro, que intercala os relatos de outros personagens na narrativa central. É um livro construído como um jogo de espelhos. Estrutura muito bacana, que funciona a favor dos temas centrais: reconstrução da memória, fragilidade da História, o poder do próprio ato de narrar. É uma pena que o estilo de prosa, às vezes muito carregado, distraia. Em vez de enriquecer, as metáforas sobrepostas, colocadas uma depois da outra, sem folga, tornam o texto meio enfadonho. De qualquer forma, é um dos romances mais ousados dos últimos anos.
Depois de ler um livro desses acho que não dá pra dizer que não há autores que se arrisquem na literatura brasileira contemporânea. Noite Dentro da Noite é um livro ambicioso, complexo, confuso, doido pra caralho, sensível, perturbador e sabe-se lá mais o que. Numa pegada meio Roberto Bolaño, Terron conta aqui uma história de formação atípica que acaba demolindo a própria noção de história de formação, a partir de uma voz que se multiplica em várias, de um narrador que conta a história de um personagem que conta outra história que conta... Há muita sofisticação literária nessa construção das vozes narrativas, bem como dos espaços em constante mudanças, de acordo com as variações da memória do personagem. O livro é, dentre tantas outras coisas, sobre um garoto que cresceu no período da ditadura militar. Ele sofreu um acidente enquanto brincava então o que temos como enredo é um quebra-cabeça que mistura imaginação e realidade o tempo todo. Pra quem gosta de um enredo mais linear, com linguagem mais direta e fluída, acho que esse livro pode ser um pesadelo, então fica o aviso. Terron cometeu um romance impressionante, acho que é o tipo de obra que tende a crescer com o passar do tempo, caso o povo da academia fuce como se deve.
O livro começa avisando que essa história é sobre você, que sofreu um acidente aos 12 anos e perdeu a memória. Narrado por Curt Meyer-Clason, tradutor alemão que poderia também ser Kurt Meyer nazista que chegou ao Brasil em um submarino e quer esquecer o passado. Ele vai contar tudo sobre o Ano do Grande Branco (a perda de memória), e com isso a história da sua família, os Reiners, a mudez, o irmão secreto, a pyhaperyepypepyhare ou planta vampiro e uso dela pelos nazistas, ditadura militar, o constante uso de barbitúricos para que você não recobre a memória e até sobre um certo candidato a presidente metalúrgico. Os personagens são cheios de camadas e segredos, separações abruptas e a busca pela verdade, quem é você?
O livro ganhou três estrelas não por ser mediano, mas porque eu não amei. Estranho isso né? Mas consigo compreender a grandiosidade do trabalho por trás da obra, a ousadia da escrita e as tramas pretendidas pelo Joca Reiners Terron e pra isso eu daria 5 estrelas. Mas sendo esse meu terceiro livro do autor, consigo dizer com tranquilidade que a escrita dele não é pra mim.
Nesse livro, e nos outros dois, eu consigo entender porque as pessoas gostam dele (principalmente a crítica e a cia das letras), mas pra mim sempre falta algo, falta um pouquinho de lucidez em cada livro dos que eu li que permita que eu me agarre e curta a narrativa sem passar todas as páginas pensando "nossa, mas que viagem".
Pra quem consegue ler sem precisar desse fio de lucidez, Joca Reiners Terron é pra ti.
Você começa sem entender nada e termina sem entender tudo. O enredo é um labirinto sem saída, coisa de doido. Dito isso, que imaginação exuberante, uma avalanche.
Sempre fui muito certo de que o Joca é dos maiores escritores que nós temos, porque poucas vezes (no mundo, eu diria) surgem escritores com uma imaginação absurda, capazes de inventar histórias tão delirantes — buracos se abrindo no cérebro — e que ao mesmo tempo falam do mundo, esse a nossa volta, que nos empurra e emperra, com tamanha propriedade. Uns milagres que só a literatura faz. Eu botaria na lista todos os livros do Joca escritos depois de 2001. Aliás, de antes também.