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Apresentação do Rosto

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«Há a tentação de escrever um texto inabitável, uma espécie de mapa solitário e limpo, diante do qual o engenheiro da fábula não possa maquinar o seu empenho de aventura humana, com as palavras: aqui fica uma rua, aqui uma ponte, aqui um parque, aqui a mancha cerrada de sentimentos e ideias com o nome de bairro de gente.
Antes da escrita, alguém disse: um momento, engenheiro — eu amaria uma superfície destituída de enigmas, aonde ninguém chegasse, onde não houvesse uma casa paterna, sobretudo, e a perpetração da parábola do filho pródigo.
É um texto que se destina à consagração do silêncio, a gente já pensou tanto, já teve mãos por tantos lados, já dormiu e acordou — bom seria imaginar o espírito apaziguado, a reconciliação do pensamento com a matéria do mundo.
Mestre, não me dês um tema.
E então o texto principia a ser ferozmente habitado.
[…]»

214 pages, Hardcover

First published January 1, 1968

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About the author

Herberto Helder

58 books214 followers
Herberto Helder was born into a family of Jewish ancestry in the Portuguese Atlantic island of Madeira. In 1946 he traveled to Lisbon to complete his secondary studies and subsequently in 1948 moved to Coimbra to study Law at university. In 1949 he had changed to the Humanities University to study Romance Philology but dropped out after three years without completing the course. After returning to Lisbon he took up several temporal jobs, and got in contact with a circle of artists and writers such as Mário Cesariny, Luiz Pacheco, João Vieira and Hélder Macedo, known as the "café gelo" group . This group revolved around Surrealism which would inform his early writings. In 1958 his first book, O Amor em Visita, was published. In the following years he traveled and lived in France, Holland and Belgium taking menial and marginal jobs to survive. He returned to Portugal in 1960 and published some of his best books in the following years A Colher na Boca, Poemacto e Lugar, Os Passos em Volta and A máquina de emaranhar paisagens. In 1964 he participates in the organization of Experimental Poetry magazine. After the April Revolution he published Cobra, O Corpo, O Luxo, A Obra, Photomaton and Vox.
The singularity of his poetry goes along with the personality of the poet: nowadays he abandoned public life, refusing prizes or interviews.

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Displaying 1 - 11 of 11 reviews
Profile Image for Cláudia Azevedo.
395 reviews218 followers
October 12, 2023
Dilacerante. Esta foi a primeira palavra que me ocorreu para classificar este livro de Herberto Hélder.

Dilacerante porquê? Penso que será pela dor que o envolve e perpassa (ou será trespassa?).

Sim, a dor de ser e de existir, tomando consciência de um rosto que se apresenta de novo e à parte, grotesco e imperdoável, torna a leitura desta obra, ela própria, uma tarefa dolorosa.

Como se quiséssemos fechar os olhos ao que é dito, de tão tremendo, mas não pudéssemos ou não quiséssemos fazê-lo. Como se fosse preciso conhecer o que, de resto, já faz parte dos nossos dias.

"Era uma vez um lugar com um pequeno inferno e um pequeno paraíso, e as pessoas andavam de um lado para outro, e encontravam-nos, a eles, ao inferno e ao paraíso, e tomavam-nos como seus, e eles eram seus de verdade.

As pessoas eram pequenas, mas faziam muito ruído.

E diziam: é o meu inferno, é o meu paraíso."

Ou não fôssemos nós andar à procura do que é o ser humano, mesmo quando se lhe pode aplicar o título de inumano, do que não ama nem sabe amar.

Por atos? Não, também por pensamentos, também por palavras. Por culpa de quem? De quem apresenta o rosto ou de quem cujo rosto é apresentado?

"Suponho que um perfeito desamor se estabelecera entre mim e os dias."

Apresentação do Rosto é uma descida ao inferno da mente e da condição humana, contada de modo contundente, como uma faca.

"O inferno é o último segredo do nosso conhecimento quotidiano."

Não encontramos, neste conhecimento, salvação, apenas uma humana inquietude que corta e dilacera.
Profile Image for Ana.
65 reviews6 followers
October 18, 2016
Diz que é “uma das mais corajosas e terríveis confissões autobiográficas da literatura portuguesa”. Nunca reeditada, foi proibida pela PIDE que se encarregou de confiscar e destruir a maioria dos exemplares – cerca de 1500. Não se sabe ao certo quantos são os livros que ainda andam por aí, mas felizmente que os há. Quem já teve contacto com o autor, sabe que não é de leitura fácil, conhece a dificuldade que é criar as imagens descritas, facilmente se perde e fica sem muita vontade de voltar. Haja coragem para ler uma obra escrita em prosa poética, um fluxo de consciência vindo de alguém que não era diferente mas que pensava diferente. Qualquer obra de Herberto, esta sem exceção, tem o tudo e o nada, o real e o imaginário: sem fronteiras. Aqui também se encontra o silêncio por intermédio das palavras. Talvez ajude voltar à época de edição da obra, conhecer o contexto social vivido nessa altura, e, já ter tido contacto com a “turma do gelo” antes de embarcar nesta escrita que nos absorve de forma galopante (e aqui apetecia-me acrescentar “mas muito devagarinho”). Há nas metáforas e no ritmo qualquer coisa a rasar o inebriante e o volátil.

5 estrelas *****

“Era uma vez um lugar com um pequeno inferno e um pequeno paraíso, e as pessoas andavam de um lado para o outro, e encontravam-nos, a eles , ao inferno e ao paraíso, e tomavam-nos como seus, e eles eram seus de verdade.
As pessoas eram pequenas, mas faziam muito ruído.
E diziam: é o meu inferno, é o meu paraíso.
E não devemos malquerer às mitologias delas.
Aparte isso, o lugar era horrível.
As pessoas chiavam como os ratos, e pegavam nas coisas e largavam-nas, e pegavam umas nas outras e largavam-se.
Diziam: boa tarde, boa noite.
E agarravam-se, e iam para a cama umas com as outras, e acordavam.
Às vezes acordavam no meio da noite e agarravam-se freneticamente.
Tenho medo – diziam.
E depois amavam-se depressa, e lavavam-se, e diziam: boa noite, boa noite.
Isto era uma parte da vida delas, e era uma das regiões (comovedoras) da sua humanidade, e o que é humano é terrível e possui uma espécie de palpitante e ambígua beleza.
E então a gente ama isto, porque a gente é humana, e amar é que é bom, e compreender, claro, etc.
E no tal lugar, de manhã, as pessoas acordavam.
Bom dia, bom dia.
E desatavam a correr.
É o meu inferno, é o meu paraíso, vai ser bom, vai ser terrível, está a crescer, faz-se homem.
E a gente então comove-se, e apoia, e ama.
Está mais gordo, mais magro.
E o lugar começa a ser cada vez mais um lugar, com as casas de várias cores, e as leis, e a política.
Porque é preciso mudar o inferno, cheira mal, cortaram a água, as pessoas ganham pouco – e que fizeram da dignidade humana? – as reivindicações são legítimas.
Não queremos este inferno
Dêem-nos um pequeno paraíso humano.
Bom dia, como está?
Mal, obrigado.
Pois eu ontem estive a falar com ela, e ela disse-me: sou uma mulher honesta.
E então eu fui para o emprego e trabalhei, e agora tenho algum dinheiro, e vou alugar uma casa decente, e o nosso filho há-de ser alguém na vida.
E então a gente ama, porque isto é a verdadeira vida, palpita bestialmente ali, isto é que é a realidade, e todos juntos, e abaixo a exploração do homem pelo homem.
E era horrível.”
Profile Image for João Pinho.
Author 6 books15 followers
October 8, 2020
Eu aceitaria a reencarnação no pressuposto de que sempre que cá voltasse pudesse ler um novo livro do Herberto. Pois,
Profile Image for Bárbara Reis.
223 reviews25 followers
March 11, 2021
Herberto Hélder - Apresentação do Rosto

Estão a ver aquelas imagens dos acidentes de camiões? Daqueles enormes cujo volante tem um diâmetro absurdo? Sempre que lia uma página deste livro, sentia que ficava enfaixada entre eles. Demasiado literal? A verdade é que nunca pensei começar um texto sobre Herberto Hélder a falar de camiões, mas depois de o ler sinto que estes pequenos textos são realmente rudimentares comparados à qualidade da sua escrita. É arrebatador, um hino à língua portuguesa! Em cada página um murro no estômago, em cada linha uma eloquência abismal e em cada palavra um selo de qualidade. No final parecia o meu Benfica, levei pancada de todos os lados e por mais que me quisesse levantar, a realidade esmagava-me. Faltam-me as palavras para expressar a imensidão de sentimentos que vivi ao conhecer este rosto. Muitas vezes existe uma tendência para atenuar a dor por esta fazer parte do nosso dia a dia, por ser mundana, natural, mas aqui isso não acontece, apesar de termos de viver com ela, não a podemos romantizar, temos de a viver com toda a intensidade que ela nos faz sentir. Só assim é que aprendemos com ela, só quando a vivemos em todo o seu explendor é que podemos avançar. Quando terminei o livro estava no auge da dor, ainda vou precisar de algum tempo para a ultrapassar, mas meu amigos, se esta dor vale a pena? Podem ter a certeza!
2 reviews1 follower
January 3, 2022
- mente crua
Herberto Helder consegue numa única obra escrever sobre: nada, ou tudo, o que lhe apetece, e por fim o que quer que apeteça ao leitor. As ideias são encadeadas como são pensadas, caóticas e puras, requerendo uma leitura necessariamente livre e própria. É o retrato mais íntimo desta pessoa, a que chamamos "Autor", ou outra coisa qualquer, "Eu" ou "Tu". A apresentação do rosto é a desconstrução do ser, da linguagem e do pensamento, por introspeção, de dentro para fora, para o mundo.
Profile Image for Bernardo Blue.
144 reviews9 followers
April 2, 2024
Que livro estranho. Lendo as reviews tão positivas, tenho a mesma sensação de quando há uma inside joke que não conhecemos num grupo de amigos. A escrita atinge por vezes momentos em que as metáforas são vívidas e creativas, mas depois existem 10 páginas de escrita abstrata quase inteligível. Sem me estender muito, houve partes bizarras que me fizeram temer pela saúde mental do escritor.
Profile Image for Mário Gago.
27 reviews2 followers
November 15, 2020
Uma história complexa, em muitos pontos familiar, com ideias conhecidas, e noutros tão distante e misterioso, mas de onde se consegue sempre retirar algo. Fez-me sentir tantas coisas diferentes que gostava de um dia repetir. Lembrem-me de voltar aqui aos 50.
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