Esse é um livro razoavelmente curto, que se lê facilmente em um par de horas. É uma compilação de artigos que o autor publicou na imprensa brasileira. Um artigo na Folha de S. Paulo e os demais, salvo engano, na revista Carta Capital. Não o conhecia porque não leio essa revista há pelo menos uma década e meia. Nem mesmo sabia que ele era colunista lá. Na verdade, a minha curiosidade pelo livro nasceu depois de ter assistido a alguns vídeos do autor no Youtube.
O livro tem aspectos bons e ruins. Começando pelo que tem de ruim. O fato de ser uma compilação de artigos talvez seja um problema bastante grande.
Em primeiro lugar, a obra sofre em vários momentos da falta de um caráter mais orgânico; é meio desconjuntado e a falta de unidade atrapalha.
Em segundo lugar, os artigos são excessivamente opinativos, isto é, ficam em um nível de análise que não é lá muito profundo e repete coisas que um leitor mais ou menos informado provavelmente já sabe. Por exemplo: “Nós nos acostumamos, infelizmente, a associar o presidente Bolsonaro à ditadura. São décadas de falas elogiosas à arbitrariedade, de apologia ao regime militar no Brasil e a conhecidos torturadores”. Faltam, pois, os exemplos e as fontes que corroborem essa afirmação. Mesmo que esse aspecto da personalidade de Bolsonaro seja amplamente conhecido, parece-me que seria preciso exemplificar as diversas vezes em que ele se comportou do modo descrito no trecho citado.
Em terceiro, tenho uma divergência de análise em relação ao autor. Na minha avaliação, Bolsonaro nasceu, em uma parte considerável, em razão dos equívocos da esquerda identitária pós-moderna, que alimentou o radicalismo e a aversão ao d00ebate democrático. Além disso, o atual presidente brasileiro nasceu da debacle econômica dos governos de esquerda, que estiveram no poder durante mais de uma década e causaram um nível de destruição ao mesmo tempo em que o Estado brasileiro foi saqueado, como ficou amplamente registrado em uma fieira de casos de corrupção.
Do lado positivo, o livro nos recorda do quanto a administração Bolsonaro faz mal ao país. É evidente que o governo Bolsonaro significa o adoecimento da política brasileira. O atual presidente tem a rara capacidade de apodrecer tudo o que toca. É um Midas às avessas. Corrompe moralmente as instituições, o debate público e, principalmente, as pessoas que o cercam. Além disso, a sua história pessoal mostra que é o contrário de tudo aquilo que diz defender. Não é um conservador, não é um liberal econômico, não é um defensor da ordem, não é um cristão ou tampouco um defensor da pátria.
É, antes de qualquer outra coisa, um arruaceiro que busca somente destruir. E nisso, usa as mesmas táticas – de forma mais aperfeiçoada, é verdade – dos governos de esquerda anteriores a ele.
Nesse sentido, o livro é bastante útil na medida em que recorda o papel que o presidente, seus inspiradores e aqueles que inspira, no processo de degradação moral, intelectual e cultural da sociedade brasileira. Mais do que reacionário, é um conjunto de ideias atrasadas, com ideias contra-iluministas, como bem observa o autor.