No primeiro livro da coleção Deslocamentos, o jornalista Rogério de Campos reconstrói o roteiro desta secular arte de narrar mitos, fábulas, façanhas, conflitos sociais, abismos existenciais ou, até mesmo, cenas as histórias em quadrinhos. Partindo dos contadores das sagas ilustradas do século V antes de Cristo, Campos refaz o percurso da linguagem que encontrou no livro Les Amours de Mr. Vieux Bois, de 1827, do suíço Rodolphe Töpffer, o nascimento da moderna HQ. Quadro a quadro entram em cena, na trajetória desenhada no livro, Sun Wukong, Popeye, Angelo Agostini, Krazy Kat, Mulher-Maravilha, revista Mad, Hugo Pratt, revista linus, H. G. Oesterheld, Guido Crepax, Crumb, Alan Moore, Art Spiegelman, revista Garo, Moebius, revista Zap, Gilbert e Jaime Hernandez, Marjane Satrapi, revista Frigidaire, Akira, Taiyo Matsumoto, Marcelo D'Salete... Como escreve o autor sobre este início da HQ "Quando começamos a pesquisar o século XIX, parecemos encontrar talentos em cada pedaço do mundo. Caran D'Ache (1858-1909) veio da Rússia, mas encontrou em Paris um ambiente que não poderia ser melhor, tantas eram as revistas e desenhistas. Londres tinha também suas revistas, e desenhistas como George Cruikshank e George du Maurier. Portugal tinha, por exemplo, o talento de Bordalo Pinheiro. E a Espanha tinha o Mecachis (1859-1898). Em qualquer lugar do mundo que tivesse revistas e jornais tinha alguém fazendo charges ou quadrinhos. Alguém poderia dizer que o século XIX é a 'era de ouro' dos quadrinhos, tantos são os talentos, tantas são as inovações". E, mais adiante, sobre o lugar do "[Os quadrinhos] exercem uma tarefa essencial, de saúde pública, que é a de narrar a vida do país, ajudar a ligar os sonhos à vida real das pessoas". Publicada em português e em inglês, a coleção Deslocamentos tem organização do escritor Tiago Ferro.
Este livro, com o título "curto" de "HQ: Uma Pequena História dos Quadrinhos Para Uso das Novas Gerações", de Rogério de Campos, um dos mais importantes editores de quadrinhos do Brasil, é muito impactante para quem costuma ler sobre história das histórias em quadrinhos. Através da leitura da pesquisa de Campos sobre a história dos quadrinhos, percebemos como muitos epistemicídios, como diz Boaventura de Souza Santos, foram cometidos. Acredita-se que os quadrinhos foram uma invenção ocidental, mas Campos traz informações que na Índia e na China esse tipo de linguagem, mídia ou sistema já existia muito antes. O que aconteceu, como muitas outras invenções humanas, é que a cultura mais poderosa também se apoderou do direito de revogar para si sua invenção e, por conseguinte, sua posse e manipulação de sentidos. Campos também traz inúmeras informações que estão ausentes em diversos manuais sobre a história das histórias em quadrinhos, feitos no Brasil ou fora dele, e traz uma pincelada da história dessa mídia através de diversos países, não apenas do autocentrado Estados Unidos. Ele valsa pelo Brasil, Argentina, Espanha, França, Alemanha, Itália, Japão, sem falar nos dois outros países antes citados. Resumindo bastante, Campos desmistifica muitas "verdades" sobre a produção de quadrinhos através dos lugares e dos tempos e realmente conta uma nova história, para, como diz o título, uso das novas gerações.