Vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura em 2013 como melhor autor estreante, Jacques Fux volta a embaralhar as fronteiras entre ficção e realidade em seu novo romance. No ousado Brochadas, o escritor mineiro propõe uma "Ilíada da impotência", remontado ao passado da humanidade e a suas próprias origens judaicas em busca de respostas culturais, sociais, biológicas, místicas, artísticas e etimológicas para uma questão milenar: o funcionamento ilógico do pênis. Ao mesmo tempo, mergulha nas lembranças de seus amores passados – ou, mais especificamente, em seu currículo de brochadas – para traçar aquilo que chama de "autoanálise ficcional selvagem".
Porém, mais do que resgatar seus antigos relacionamentos com Agnes, Alice, Carla, Juliana, Jacqueline, Deborah, Sarah e Leah, Fux transforma as ex-namoradas em coautoras da obra. Indagando-as sobre as respectivas brochadas com o protagonista-escritor, ele literalmente conversa, por e-mail, com suas personagens – conduzindo a narrativa a um território insólito e instigante, nos limites da criação.
O que é recordação e o que é fantasia? Em que momento o autor Jacques Fux sai de cena para abrir espaço a Jacques Fux, figura dramática? O que foi idealizado e o que foi de fato vivido? Não há respostas, pelo contrário: a intenção é exatamente confundir, provocar. Desde a abertura – onde deixa registrado que tudo ali “é verdade, exceto o que não invento” –, ele joga com os conceitos de metalinguagem e autoficção enquanto, evocando nomes como os de Flaubert e Montaigne, tece uma análise pungente e irônica do "eu" na literatura.
Seria o simples ato de contar histórias sempre uma forma de ficção, mesmo quando o objetivo é relatar fiel e detalhadamente um acontecimento? Como afirma o personagem-autor, “a literatura – assim como a vida, a memória e os momentos – é extremamente limitada e pobre”. Brochadas mostra que fato e imaginação são complementares e inseparáveis: é necessário viver, lembrar, esquecer, criar, escrever, brochar.
Jacques Fux é graduado em matemática e mestre em ciência da computação pela UFMG, doutor e pós-doutor em literatura pela UFMG, pela Universidade de Lille 3 (França) e pela Unicamp, além de pesquisador visitante na Universidade de Harvard. Sua tese de doutorado, versão do livro Literatura e Matemática: Jorge Luis Borges, Georges Perec e o OULIPO (Perspectiva, 2016), recebeu em 2011 o Prêmio CAPES de melhor tese de Letras e Linguística do Brasil e foi finalista do Prêmio APCA de 2016. Antiterapias (Scriptum, 2012), seu romance de estreia, venceu o Prêmio São Paulo de Literatura 2013 e o manuscrito de Brochadas: confissões sexuais de um jovem escritor (Rocco, 2015), recebeu Menção Honrosa no Prêmio Cidade de Belo Horizonte. Foi finalista do Prêmio Barco a Vapor 2016. Publicou ainda Meshugá: um romance sobre a loucura, que saiu pela prestigiosa Editora José Olympio, e recebeu o Prêmio Manaus de Literatura 2016, e Nobel (José Olympio, 2018) em que realiza o sonho de todo escritor: ser laureado com um Nobel de Literatura.
Tive alguns problemas com essa leitura. O primeiro deles foi um certo ranço em ver "brochar" escrito com "ch". Pra mim isso é intragável. Pra mim broxar se escreve com "x"; quem já leu meus livros sabe que essa palavra aparece algumas vezes, sempre grafada com X. Assim como eu acho que aquela palavrinha que se refere ao órgão sexual feminino deve ser escrita com "BU" e não com "BO" - quem já leu meus livros, sabe que essa palavra aparece MUITO.
Enfim, superado esse pequeno problema, vamos ao livro em si. A proposta é ótima: Jacques Fux, em uma hilária autoficção, se dispõe nesse livro a narrar as broxadas mais marcantes de sua vida, com diversas mulheres que cruzaram seu caminho ao longo dos anos.
O início do romance é ótimo, me arrancou muitas gargalhadas. Mas não sei, ao longo do livro a minha empolgação foi arrefecendo. Achei o livro morno, considerando todo o potencial da temática. E um dos recursos utilizados por Fux - de ao final de cada capítulo mostrar os emails trocados com as mulheres tratadas no capítulo -, embora inicialmente interessante, depois de um tempo se mostrou repetitivo e meio entendiante.
Claro que o livro é muito bem escrito, tem momentos hilários, mas não sei... achei levemente broxante, considerando a expectativa alta que eu tinha com essa leitura. Foi uma leitura fácil e leve, mas que deixou um gosto de potencial desperdiçado.
Motivo da Leitura: primeiro contato com o autor, que ministrará uma oficina literária em Uberlândia, no Sabiá Livros.
Nota: 3/5
Primeiras Impressões: Gostei da leitura, fluída e divertida.
Um misto de autoficcção raíz (anterior ao fenomeno Knaüsgard/Ernaux) e ensaios filosóficos judáicos sobre a brochada. O tom me lembrou a obra do Woody Allen e do Roth, aquela típica pitada de neurose misturada com ensaios analíticos e o universo judáico, visto por um "outsider" que orbita a comunidade.
A forma interessante de relatos brochantes datados, por mulher, seguidos de e-mails e respostas sobre a publicação cria uma ironia fina que funciona muito bem. As vezes as partes mais ensaísticas destoam um pouco, diminuindo o ritmo da leitura.
Destaque para a análise da figura do brocha na grande literatura do século XX , com direito a briga de bar com Hemingway e Joyce.
Divertido, e ao mesmo tempo histórico, filosófico e real. Tudo habilmente repassado ao leitor via as histórias das brochadas, engraçadas e muito bem contadas pelo autor. Leitura fácil, interessante, prende a atenção. Trecho fantástico que até decorei: "a vida é sexualmente transmissível, é incurável, e vai nos levar à morte.", Jacques Fux