O mundo em redor de Lisboa, a Margem Sul, as famílias dos bairros suburbanos, as personagens que encontramos todos os dias - e que escondem os seus dramas, revelados neste livro. Para compor o mosaico das suas personagens, Bruno Vieira Amaral não recorre à literatura e à sua solenidade, mas aos bairros onde viveu e que fazem já parte do universo dos seus romances, As Primeiras Coisas e Hoje Estarás Comigo no Paraíso. São pessoas perdidas, com vidas amargas que raramente aparecem nas páginas dos jornais a não ser para ocuparem espaço nas secções de crime ou das tragédias familiares: mulheres e homens que conhecem a pobreza, os transportes suburbanos, os sonhos que nunca se realizam, as famílias desfeitas, os amores impossíveis - e os desejos sem nome.
Há as mulheres desprezadas por maridos cruéis ou apenas distraídos, as avós guerreiras, os suicidas previsíveis, os pobres que resistem às adversidades, os adolescentes negros dos bairros da Margem Sul, prostitutas, doentes sem companhia. E uma ironia que festeja a salvação iminente, o espírito de combate, a luz do dia.
BRUNO VIEIRA AMARAL nasceu em 1978 e licenciou-se em História Moderna e Contemporânea, pelo ISCTE. Em 2002, uma temerária incursão pela poesia valeu-lhe ser seleccionado para a Mostra Nacional de Jovens Criadores. Colaborou no DN Jovem, na revista Atlântico e no jornal i. É crítico literário, tradutor e autor do Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa e do blogue Circo da Lama. O seu primeiro romance, As Primeiras Coisas, foi distinguido com o Prémio Literário Fernando Namora e com o Prémio Narrativa do PEN Clube. É editor-adjunto da revista LER e assessor de comunicação das editoras do Grupo Bertrand Círculo.
Como acontece com qualquer colectânea de contos, uns são sublimes, outros são assim-assim e outros não nos dizem nada. Esta colectânea de pequenos contos têm muitos sublimes, alguns assim-assim e muito poucos os que não me disseram nada. Contos preferidos: Os olhos no alvo O brinde Cinquenta almoços Um copo com veneno Lágrimas por Paulinho Uma ida ao motel Acácio dava pena Quase cinquenta anos O meu acidente O saco verde
É sempre uma felicidade ler Bruno Vieira Amaral. “As Primeiras Coisas” foi um precioso momento de descoberta, prolongado depois com “Hoje Estarás Comigo no Paraíso”, romance que, de um ponto de vista pessoal, será sempre um dos grandes referenciais da literatura portuguesa do século XXI. No início de 2018 saiu “Manobras de Guerrilha”, conjunto de vinte e seis textos dispersos – publicados em jornais, blogues ou conferências e encontros de escritores –, entretanto reunidos em livro e que voltavam a atestar a qualidade da escrita deste autor e a sua enorme capacidade de nos dar a ver a vida tal como ela é, o banal tornado excepcional por conta de uma simples frase, de um gesto ou, tão somente, porque o destino assim o quis. Finalmente, “Uma Ida ao Motel”, surgido em tempos de pandemia, vem mostrar-nos que, felizmente, há coisas que não mudaram. Que não mudam!
Se quisesse aproximar “Uma Ida ao Motel” de qualquer uma das obras anteriores do autor, seria tentado a irmaná-lo com “Manobras de Guerrilha”. Também este livro nos transporta pelos caminhos do conto, cada um dos seus textos sendo parte integrante duma “encomenda” do Expresso Diário, à qual o autor correspondeu estoicamente ao longo de trinta semanas. Mas se atentarmos bem, perceberemos sem surpresa que é nos dois romances já referidos que se encaixa cada uma destas histórias a pulsar de vida: o corpo destroçado da cozinheira após servir cinquenta almoços, o velho que julga ter ganho o Euromilhões, a prostituta que aguarda o homem no quarto e que descobre tratar-se de um velho conhecido, a mulher cujos passos de fé a encaminham para a bruxa de Alhos Vedros ou as migalhas sacudidas pela vizinha do andar de cima a cair sobre a roupa a secar à janela e a fazer soltar os maiores impropérios, podiam muito bem figurar nas páginas de qualquer um dos seus livros.
Esta unidade que marca a obra de Bruno Vieira Amaral assenta na sua peculiar forma de escrever, no seu gosto pelo detalhe, na descoberta do lado cómico que reside nas tragédias de cada um, na observação minuciosa dos pequenos nadas de que a vida é feita e, naturalmente, numa memória prodigiosa, fonte de alimento para as mais formidáveis narrativas. Há ainda – e este pormenor parece-me deveras importante – toda uma geografia muito precisa em tudo aquilo que Bruno Vieira Amaral escreve e que remete para a Margem Sul. Numa Lisboa para turista ver, cartão postal que vive de aparências, são as gentes de origens humildes que todos os dias cruzam o Tejo que, na sombra, lavam, limpam, cuidam, servem e, estoiradas, regressam a casa para um parco descanso em locais que não dão descanso a ninguém, para que tudo volte ao princípio no dia seguinte. Ao ler Bruno Vieira Amaral, é esta vida que somos convidados a viver, a experimentar, a abrir os olhos e a entrar na pele de pessoas nas quais, fatalmente, descobrimos partes de nós. Com as quais rimos do nosso ridículo, nos escondemos da nossa culpa ou choramos da nossa vergonha.
Decidido a “arrumar” livros que tinham ficado “pendurados” decidi, de uma vez, terminar o (pelos vistos) segundo livro de contos de Bruno Vieira Amaral. Rapidamente percebi porque estava “pendurado” há tanto tempo. Que me lembre não tinha ficado com grande fascínio por este autor (apesar de tantos elogios ter lido acerca seda sua prosa) depois de “As últimas coisas”. Deste, e para quem tem, praticamente, sempre um livro de contos (género de que gosto imenso) em leitura, só me ocorre um comentário: não é para todos os escritores. Acho que é praticamente assumido que qualquer escritor, se consegue escrever uma “novela” (nome que não aprecio, em Português, devidos às óbvias conotações), também vinga na “narrativa curta”. Nada mais errado. Há arte em não narrar o óbvio relegando-o para o subliminar e, ainda mais, arte em deixar a narrativa em aberto, permitindo ao leitor tecer as suas conjecturas. Bruno Vieira Amaral, na minha opinião, não possui nenhuma das duas. Escrever contos é muito mais do que relatar factos acerca de personagens pior ou melhor caracterizadas. É mais acerca daquilo que se induz, fica por dizer mas permite concluir do que “deixar tudo no ar”. Por mim, terminei com este autor. Passem.
Este livro contém 30 contos que foram publicados no Expresso Diário. Dos 30 gostei particularmente apenas de 2: do que dá o título ao livro e talvez do Lágrimas por Paulinho.
Não gostei o suficiente para ficar com vontade de conhecer outros livros do autor.
Não gostei do exagero na escolha de nomes antiquados tipicamente portugueses como Rosário, Judite, Cândido, Eugénia, Agostinho, Aparício, Emérita, Aníbal, Rosália, Acácio e por aí fora. As personagens têm muitas vezes um raciocínio ou discurso que se não se adequam ao tipo de pessoa descrita. A filosofia é por vezes um pouco pretensiosa.
Histórias de profundidade aparente mas que não chegam a tocar em fundo nenhum.
Se as tivesse lido como inicialmente foram publicadas talvez tivesse apreciado muito mais mas neste formato de livro não me convenceu.
Belíssima escrita, como o autor já nos habituou. Claro que há contos que nos dizem mais que outros, mas no geral são todos fabulosos. A habilidade de BVA em descrever cenários, afectos e emoções é inegável. Todos os personagens são cativantes e fico particularmente surpreendida com a facilidade com que o narrador veste a pele de mulheres de variadíssimas estirpes; e todas elas tão credíveis. Recomendo muito também por ser um banho de realidade para muitos de nós. Esse é, aliás, o condão da escrita de BVA.
Um mosaico de vivências alternadas.Senti que li o livro com muita fluidez porque os personagens habitam fora daquilo que é o meu círculo habitual de convivência. Parabéns a editora pela capa.
Não tenho lá muito jeito para deixar os meus regionalismos de lado. Dito isto, explorei neste livro o conceito de contos, coisa totalmente fora da minha área de conforto e interesse. No entanto, são contemporâneos, desprovidos de arrogância intelectual e sem nenhuma tentativa de fazer disto algo maior do que realmente é. Fala da realidade, de trabalhadores comuns, de diferentes sub-classes desta enorme classe que é a trabalhadora. Fala dos desejos dessas pessoas e realça, sem nunca politizar ou ideologizar a coisa, das nuances étnicas, regionais, sexuais e de género destas pessoas. Tem contos assim-assim, como li algures por aqui. Mas tem outros que me pegaram e me distrairam durante as dolorosas viagens de comboio para o trabalho. Não sou de contos, mas gostei de alguns destes - da maioria diga-se.
No geral, gostei. Aquilo que senti foi que todos os contos eram muito bem construídos e interessantes, mas, chegando ao final, ficava uma sensação de "pensava que isto ia ser bem melhor". Mas vá, gostei muito da escrita e acabei por ficar furioso em ler mais obras do autor.
Excelentes contos (crónicas?) sobre a vida urbana, quase especificamente na zona de Lisboa. Quase todas elas causticas e com alguma dose de cliché sobre as pessoas que por lá vivem, trabalham mesmo sendo de outras regiões. Gostei muito da escrita simples mas rica em conteúdo. Bruno Vieira Amaral é um excelente contador de histórias.