À beleza incandescente e luminosa dos grandes autores desses séculos de ouro da cultura grega (do séc. VII a.C ao séc. III) - como Álcman, Semónides, Mimnermo, Safo, Íbico, Anacreonte, Teógonis, Píndaro, Baquílides e Teócrito - junta-se o prazer de descobrir as raízes da literatura ocidental. Cada um desses autores influenciou diretamente centenas de outros e é parte dos alicerces da nossa civilização. Depois da tradução da Ilíada, da Odisseia e dos primeiros quatro volumes da Bíblia, Frederico Lourenço mostra como a beleza pode ser traduzida sem ferir a sua originalidade.
A edição é bilingue, em capa dura e com todos os cuidados gráficos de um grande acontecimento.
A poesia grega não pode ser devidamente apreciada sem certo domínio de grego clássico - eu, lamentavelmente para este momento, preteri o grego a favor do latim e vejo-me hoje um bocadinho limitada no que retiro destes belos textos. Felizmente, a paixão não se transmite nesta ou naquela língua: ultrapassa as barreiras do tempo, as distâncias do espaço e as limitações da tradução! É nesta condição de apaixonada, conhecedora (q.b) da literatura mas não da língua grega, que deixo as próximas palavras.
Começo pelo tópico que me deixa mais confortável: o texto introdutório (em português) claramente contaminado pela educação predominantemente anglófona de Frederico Lourenço. Não é admissível, numa edição portuguesa e em livro que elenca revisor!, ver passar a expressão "fundante" (de "founding") por "fundador", e equacionar o uso desnecessário de estrangeirismos como "self-consciousness" quando a palavra em português é "autoconsciência" - a língua portuguesa (acho que não se pasma ninguém) não é nada limitada no que concerne a gramática ou vocabulário, ademais que a palavra em causa deriva do latim pelo que não existe qualquer necessidade de fazer este tipo de escolhas. Além disso, e embora não expresso por palavras, este é um livro que se pretende de edição crítica, mas eu, pessoalmente, sou muito reticente quanto à qualidade final desse empreendimento.
Posto esta primeira nota negativa, o livro é uma pequena preciosidade para um leigo/ não especialista. Elenca grandes poetas Gregos como o inolvidável Hesíodo, a popular Safo, ou a minha grande surpresa (pois, de todos, surge como o poeta que me era completamente desconhecido) Teócrito. Outro ponto positivo vai obrigatoriamente para a escolha ousada de estabelecer o texto grego lado a lado com a tradução portuguesa, dessa forma aproximando o leitor da beleza (gráfica) da obra, assim oferecendo mais um motivo de curiosidade aos iniciados.
Além disto, os textos estão repletos de momentos belos...
SAFO DE LESBOS Da beleza (fr. 16 PLF) "Uns dizem que é uma hoste de cavalaria, outros de infantaria; outros dizem ser uma frota de naus, na terra negra, a coisa mais bela: mas eu digo ser aquilo que se ama." P. 81
...de momentos de lucidez e moral...
TEÓGNIS O ciclo de Cirno: do selo às asas da poesia (vv. 25-26) "...nem Zeus a todos agrada, nem chovendo, nem retendo a chuva." P. 133
TEÓGNIS O ciclo de Cirno: do selo às asas da poesia (vv.39-43) "Cirno, prenhe está esta cidade e receio que vá parir um homem que endireite a nossa maldosa insolência. Sensatos são ainda estes cidadãos, mas os governantes são uns vira-casacas e caíram na total depravação. Homens nobres, ó Cirno, nenhuma cidade ainda destruiram!" P. 135
...bem como de momentos de verdadeiro brilhantismo e humor imorredouros:
TEÓCRITO As Siracusanas V.63 "VELHA Esforçando-se, os Aqueus entraram em Troia, minhas lindas meninas! É tentando que tudo se faz." P.335
O destaque para esta compilação recai precisamente no texto As Siracusanas - Idílio XV., um delicioso relato de duas mulheres em passeio para ir assistir a um concerto. Escusado será dizer que o rocambolesco, ao mesmo tempo banal e espetacular da sua saída - desde o encontro inicial entre ambas aos embates com estranhos no seu percurso - oferecem os momentos altos deste volume:
TEÓCRITO As Siracusanas
"OUTRO ESTRANHO Calai-vos, suas chatas, com essa tagarelice interminável, galinhas! Darão cabo da gente com essas vogais abertas.
PRAXINOA Eh lá, donde veio o homem? Se somos tagarelas, isso é contigo? Vai dar ordens onde és tu a mandar. Estás a dar ordens a siracusanas! Para que fiques a saber, somos de ascendência coríntia, tal como Belerofonte. Falamos com sotaque do Peloponeso: falar dórico, acho eu, é permitido aos dórios, não? Que não haja, ó deusa das abelhas, quem tenha poder sobre nós, além do único. Vou ignorar-te. Não me aborreças." P. 339
Vale muito a pena pegar nestes poemas e tomar contacto, por uns momentos que seja, com uma civilização absolutamente genial e "fundante" da cultura contemporânea europeia.
Embora tivesse já outras compilações, a verdade é que depois da Ilíada e da Odisseia traduzidas por Frederico Lourenço, é na linguagem da sua tradução que os escritos do grego antigo me soam mais familiares. Quando soube desta reedição, exigi-a a título de prenda de aniversário. Tardou na chegada mas, contrariamente à regra tsundoku, logo lhe peguei e a li. De menos bom tenho somente a registar as parcas notas interpretativas. A título de exemplo, as notas interpretativas com que Maria Helena da Rocha Pereira instrui a I Ode Pítica (referindo até a erupção do Etna de 479 a.C. e sua menção em Prometeu Agrilhoado) são muito mais completas do que as presentes nesta edição. Claro que deduzo que a intenção do tradutor e autor dos diversos textos introdutórios não fosse propriamente a de fornecer texto de apoio mas somente a fórmula patente na edição. Mas a leitura, sobretudo a de não académicos, ficará muito mais enriquecida quando há notas mais completas e vastas. Quanto ao demais: p e r f e i t o.
Li este livro no âmbito da cadeira Edição de Textos, para a Faculdade, com o propósito de realizar uma crítica editorial ao mesmo. Não sou grande fã de clássicos gregos, talvez porque nunca os tenha estudado em profundidade, mas esta edição está excelente! O tradutor salienta bem o seu papel como "segundo-autor", e mesmo para uma pessoa como eu, mesmo não estando muito dentro do assunto, consegui gostar e interessar-me mais por poesia grega.
Highlights: Safo - Primeira autora da literatura europeia Semónides - "Sátira contra as mulheres" Just for the sake of it :)
Nesse começo de ano me bateu uma febre grega das fortes, cheguei a pegar “Lírica Grega” às quartas de noite, mesmo estudando de manhã. Vi o professor usando essa antologia do Frederico Lourenço em uma das aulas, decidi pegá-la na biblioteca para dar uma lida. Dá uma boa visão geral de vários poetas da “lírica” arcaica, gosto das traduções como um todo, apesar do tom prosaico demais aqui e ali. Gostei bastante de Álcman, de Safo, de alguns trechos de Teógnis, e Píndaro é coisa de outro mundo, por mais que os epinícios cansem, eles têm verdadeiras pérolas escondidas. Sou muito fã de poesia antiga, foi uma boa leitura, uma boa chance de conhecer mais desse mundo que já me encanta tanto.
Para quem tinha a versão desta antologia editada pela Cotovia e tenha interesse em experimentar o texto grego (incluindo aqueles que, como eu, não pescam nada além de palavras isoladas), esta é uma obra a considerar. Não que ela inclua muito mais do que isso; descontando, claro, eventuais revisões, notas e comentários de Frederico Lourenço. Mas a verdade é que o simples facto de incluir o texto original lhe entrega toda uma paradoxal atualidade, em função da antiguidade dos textos e das próprias palavras. Destaque, pelo meu próprio gosto, para a poesia de Safo, Teógnis, Píndaro, Calímaco e Teócrito.