Trabalho editorial excelente, com uma importante apresentação sobre a formação intelectual e os trabalhos filosóficos e políticos do autor precocemente falecido. Além disso, as notas pontuais esclarecem o leitor brasileiro. O volume é composto por quatro partes, com textos escritos entre 1951 e 1961, com as contribuições de Fanon para a reforma psiquiátrica (que estava em curso na França desde a lei de 1938 que incentivava a instituição de Hospitais-dia).
Quando assumiu em 1953 a direção do maior Hospital Psiquiátrico de Argélia, Fanon atuou segundo os princípios da terapia institucional da qual participara como médico-residente em Saint-Alban. A quarta parte do volume contém a Tese de Psiquiatria (Tese de Exercício, 1951) de Fanon. Vale lembrar que “Peles negras, máscaras brancas” era a Tese de Fanon, mas, ao ser impedido apresentá-la, escreveu essa outra sobre um caso de doença de Friedreich, a partir do qual ele apresenta um ensaio sobre a relação entre organogênese, psicogênese e sociogênese em Psicopatologia. O diálogo com H. Ey e Lacan é fundamental.
Eu destaco dois momentos: “Pessoalmente, se tivéssemos que definir a posição de Lacan, diríamos que consiste numa defesa obstinada dos direitos nobiliárquicos da loucura”. Ele ainda faz uma fina análise da tese de Lacan e do escrito de 1946, “Acerca da causalidade Psíquica”: “Lacan extrapola o conceito de imago, assumindo o fenômeno projecional, que Lévy-Bruhl apresentou como indicador de uma mentalidade primitiva, como a pedra angular de seu sistema”. Para concluir a tese, ele escreve: "Os delírios sistematizados, as manifestações histéricas e os comportamentos neuróticos devem ser considerados condutas reacionais de um ego em ruptura de relações intersociais”. Fanon faz uma contribuição ainda atual para a Psicopatologia.