Todos os dias indivíduos normalmente inteligentes e classes sociais inteiras são feitos de tolos para que a reprodução de privilégios injustos seja eternizada entre nós. Para enxergar com clareza nosso real lugar no mundo, é fundamental compreender como nossa elite intelectual submissa à elite do dinheiro construiu uma imagem distorcida do Brasil de modo a disfarçar todo tipo de privilégio injusto. Os poucos que hoje controlam tudo precisam desse “exército de intelectuais” do mesmo modo como os coronéis do passado precisavam de seu pequeno exército de cangaceiros. Com uma abordagem teórica e histórica inédita, este livro oferece um caminho para devolver ao brasileiro a possibilidade de compreender as reais contradições de sua sociedade. Nos bolsos do 1% mais rico da população brasileira, está o resultado do trabalho dos 99% restantes. E assim é há muito tempo, diante do olhar passivo de toda a população. Se a maioria subjugada raramente levanta a voz contra esse estado de coisas, é porque a violência física que antes permitia uma desigualdade tão grande e uma concentração de renda tão grotesca foi substituída, no Brasil formalmente democrático de hoje, por uma espécie de “violência simbólica”, que se disfarça em convencimento pelo melhor argumento. Ao dominarem todas as estruturas do poder, da informação e da inteligência, os privilegiados monopolizam os recursos que deveriam ser de todos e abrem caminho para a exploração do trabalho da imensa maioria sob a forma de taxa de lucro, juros, renda da terra ou aluguel. Tamanha violência simbólica só é possível pelo sequestro da inteligência brasileira em prol desse 1% mais rico, que passa a monopolizar os bens e recursos escassos, sejam materiais ou ideais. Em vez de apontar para as causas reais da concentração da riqueza social e para a exclusão da maioria, essas concepções de intelectuais servis ao poder nos levam a acreditar que nossos problemas advêm da “corrupção apenas do Estado”, levando a uma falsa oposição entre o Estado demonizado, tido como ineficiente e corrupto, e um mercado visto como reino de todas as virtudes. Como as falsas contradições estão sempre no lugar de contradições reais, este livro é um apelo à inteligência viva dos brasileiros de modo a desvelar os mecanismos simbólicos que possibilitam a reprodução de uma das sociedades mais desiguais e perversas do planeta.
Sobre o autor: Jessé Souza, 55, fez graduação em direito e mestrado em sociologia na UnB e doutorado em sociologia na Universidade Heidelberg, Alemanha. Fez também pós-doutorado em psicanálise e filosofia na New School for Social Research, em Nova York, e livre docência na Universidade de Flensburg, Alemanha. É autor principal de 23 livros e de mais de cem artigos e capítulos de livros em vários idiomas e coordenou diversas pesquisas empíricas de amplitude nacional sobre as classes sociais no Brasil. Atualmente é professor titular de ciência política da UFF e presidente do IPEA.
Jessé José Freire de Souza is a sociologist, university professor and Brazilian researcher who works in the areas of Social Theory, Brazilian Social Thought and theoretical / empirical studies on inequality and social classes in contemporary Brazil. He is the author of the books 'A Ralé Brasileira', A Radiografia do Golpe', 'A Elite do Atraso' and 'A Classe Média no Espelho'.
Graduated in Law from the University of Brasília (1981), he completed his Master's degree in Sociology from the same institution in 1986. In 1991, he obtained a PhD in Sociology from the Karl Ruprecht Universität Heidelberg (Germany), where he obtained free teaching and PhD in the same discipline at the Universität Flensburg in 2006. He also did postdoctoral studies in Sociology at the New School for Social Research, New York, (1994/1995).
From 2009, Souza undertook sociological research across the country to confront the thesis that a "new middle class" had emerged in the country. The result was the configuration of new nomenclature, namely, "ralé", "batalhadores", "classe média" and "elite", the latter two having privileges that the first two do not have.
He wrote and organized 22 books in Portuguese, English and German on political sociology, peripheral modernization theory, and inequality in contemporary Brazil. He is currently a full professor of political science at the Fluminense Federal University, in Niterói, Rio de Janeiro.
On April 2, 2015, he was appointed by the Presidency of the Republic to the position of president of the Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - Ipea (Institute of Applied Economic Research), formerly occupied by Sergei Suarez Dillon Soares, but resigned in 2016 shortly after Vice President Michel Temer temporarily took over presidency.
The importance of the scientific production of Jessé de Souza to different fields of study in Brazil, mainly to sociology, is important in the discussion of expensive subjects, both for the political, social, economic and cultural spheres, and for the academy that produces knowledge who aspire to disclose content not given to them.
He is currently writing articles for Carta Capital magazine.
A Tolice da Inteligência Brasileira me fez passar raiva por três grandes motivos:
(i) O desrespeito
Convém cobrar o mínimo de respeito ao outro quando se estabelece uma crítica cuja pretensão é o avanço do conhecimento. Não se trata de iconofilia ou algo gênero, mas de criar um diálogo cujo saldo seja positivo, sobretudo se o diálogo se dá entre pares cujo objetivo comum é compreender fenômenos complexos da realidade nacional por motivações presumivelmente honradas.
A questão se torna ainda mais problemática quando consideramos que o objetivo é, tudo indica, o exercício científico. Ora, existe coisa mais anti-científica do que atacar o portador da carta em vez de seu conteúdo? Existe coisa mais absolutamente grosseira do que descer os degraus do bom senso no debate até se rebaixar ao ataque puro e ao ad hominem?
Outrossim, se a ideia é ser dialético, Hegel notava que nenhuma filosofia que se afirmou como tal é completamente falsa - caso contrário não teria conquistado corações e mentes. O que importa saber é 'como e porque ela se afirmou'.
Contrariando essas considerações, Jessé nega os teóricos que pretende criticar sem qualquer respeito e sem se perguntar quais foram as contribuições positivas de suas teses que as fizeram ser tão respeitadas e cultuadas por tantos e por tanto tempo. Parte desse comportamento pode ser explicado pelas...
(ii) Considerações anacrônicas e interpretações simplesmente erradas dos "clássicos" que pretende criticar
A superficialidade das interpretações é tamanha que soa como se Jessé tivesse lido apenas uma resenha de um graduando no Passei Direto pra cada autor que cita (e aquelas resenhas ruins, feitas no dia anterior à entrega do trabalho ao professor). Exemplos?
A interpretação que Jessé apresenta do "homem cordial"/patrimonialismo ignora completamente o fato de que o tipo estabelecido por Sérgio Buarque está contido em um capítulo cujo miolo aborda a centralidade das relações familiares no contexto de um Brasil cuja formação foi fundamentalmente ditada pela vida no campo (um Brasil agrário). Daí a cordialidade, a familiaridade, a aversão ao formalismo e a consequente contradição com a impessoalidade da burocracia Estatal.
Ignorando isso, Jessé logo afirma que deriva das interpretações da obra do Sérgio Buarque a ideia de que o Estado é inerentemente corrupto e dominado pelo homem cordial e particularista (em contraposição ao virtuosismo do mercado). Ora, o problema é que a questão jamais se coloca dessa maneira em Sérgio Buarque: são as relações familiares, nascidas no campo, os interesses particulares, que permeiam as instituições, nunca o contrário. Nas palavras do Sérgio:
Não era fácil aos detentores das posições públicas de responsabilidade, formados por tal ambiente [o Brasil agrário], compreender a distinção fundamental entre os domínios do privado e do público. Assim, eles se caracterizam justamente pelo que separa o funcionário "patrimonial" do puro burocrata conforme a definição de Max Weber. Para o funcionário "patrimonial", a própria gestão política apresenta-se como assunto de seu interesse particular; as funções, os empregos e os benefícios que deles aufere relacionam-se a direitos pessoais do funcionário e não a interesses objetivos, como sucede no verdadeiro Estado burocrático. [...] A escolha dos homens que irão exercer funções públicas faz-se de acordo com a confiança pessoal que mereçam os candidatos, e muito menos de acordo com as suas capacidades próprias. No Brasil, pode-se dizer que só excepcionalmente tivemos um sistema administrativo e um corpo de funcionários puramente dedicados a interesses objetivos e fundados nesses interesses. É possível acompanhar [...] o predomínio constante das vontades particulares [...]
Dentre os "seguidores" de Buarque que aparentemente teriam se apropriado dessa interpretação, é de Raymundo Faoro que Jessé tenta se ocupar no capítulo seguinte, novamente apresentando a tese de maneira distorcida. Deixo os outros explicarem por mim: https://www.cartamaior.com.br/?/Edito...
Ah, devo dizer que é brutalmente pedestre (pra não dizer burro) achar que o marxismo é economicista pela natureza do método.
(iii) A grande antítese (atrasada)
Não foi o paternalismo que definiu o Brasil, mas sim o escravismo!
Ora, Florestan já disse isso há décadas, mas percebeu que não é só isso: o Brasil é as duas coisas. Agora vem Jessé com lábias de quem inventou a roda, reconhecendo aos trancos a contribuição de Florestan? Não na minha gestão!
Ademais, como disse um professor: "Jessé Confunde patrimonialismo com Capitalismo Monopolista do Estado [ou intervenção do Estado na economia]. O fato do Estado ser central na Brasil, na Alemanha e nos EUA contemporâneos, nem faz estes Estados serem rigorosamente iguais, nem - muito menos - torna-os equivalentes ao Estado de Portugal do século XVI ou da China do século XIX."
O pior é que, ao meu ver, fica impossível compreender o Golpe de 2016 sem considerar o papel do patrimonialismo e dos entraves ao aprofundamento da revolução burguesa no Brasil. [chama no privado se quiser uma discussão mais aprofundada a respeito]
Considerações Finais
Confesso que a Parte III parece articular concepções relativamente novas pra tentar compreender o Brasil. Vou reler assim que for possível pra ver se convém absorver uma ou outra consideração. Para além disso, A Tolice da Inteligência Brasileira é um livro desrespeitoso que apresenta uma visão distorcida das teses às quais procura se opôr.
Gosto de pensar que Jessé, de fato, não compreendeu o que discute e seu coração está no lugar certo. Precisamos sim de pessoas discutindo o que é o Brasil e propondo novas interpretações. Pretendo ler A Elite do Atraso assim que possível. Infelizmente, termino A Tolice da Inteligência Brasileira profundamente decepcionado.
Uma excelente perspectiva histórica das ciências sociais brasileiras
O livro de Jessé já vale, na menor das avaliações, como uma excelente, clara e objetiva narrativa histórica das ciências sociais brasileiras. Ele apresenta um discurso suave e didático que não deixa espaço a dúvidas sobre a formação histórica da psicologia brasileira moderna. Em uma avaliação mais profunda o livro é uma bomba capaz de redefinir os caminhos do Brasil moderno em direção a um Brasil justo, rico e poderoso.
Se este livro fosse 3x menor seria 5 estrelas. É muito redundante, repete demais a mesma ideia (tudo bem repetir, mas poderia ser bem mais conciso). Vai ficando melhor mais pro final, mas o começo - que nao passa de revisao de outros autores famosos - serviu para embasar um pouco melhor minhas ideias acerca de como funciona a maquina de perpetuacao do poder da elite na faixada democratica moderna. Apesar de ter aprendido e concordado que Florestan Fernandes e Pierre Bordieu merecem aprofundamento, e que outros autores famosos das prateleiras da livraria devem ser evitados (economizando muita grana!), eu achei que o livro nao vai muito alem disso. Nao responde nem esmiúça exatamente como funciona os mecanismos de exploracao na democracia moderna; na verdade o livro gasta muito pouco tempo abordando isso e fica mais é dizendo que ninguem abordou isso de forma direta. Da ate a vaga impressao que o livro foi feito pra dar uma enrolada na galera, dizendo coisas inofensivas que queremos ouvir ou sempre soubemos, roubando tempo que poderia ser melhor usado pelo leitor para fazer um protesto ou organizar alguma reacao ao governo. Claro que nao deve ser isso, mas este excelente livro é, sim, enrolão. Jesse Souza se justifica e promete, mas ainda nao chegou lá. Quero muito ler seus proximos livros.
A Alternativa à Esquerda Esboçar uma explicação totalizante da sociedade brasileira contemporânea e das alternativas que possui em termos políticos não é uma tarefa fácil. O livro de Jessé Souza merece ser lido, tenha ou não sucesso em atingir seu propósito, pois, ao deduzir seus argumentos, dialoga com os principais autores brasileiros em ciências sociais (Raymundo Faoro, Gilberto Freire, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr., Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, Francisco de Oliveira, dentre outros) e importantes filósofos (Focault, Bourdieu e Charles Taylor). Trata-se de livro que conduz (estimula) a leitura de outros (bons) livros. Jessé sustenta que a inteligência brasileira (pequena burguesia), colonizada pelas idéias liberais advindas dos países ricos do Atlântico Norte (especialmente os EUA), adota e reproduz soluções políticas que perpetuam as desigualdades que condenam nossa sociedade ao atraso. Sua argumentação é convincente e bem fundamentada. A exposição é clara e procura fazer justiça aos argumentos de autores com os quais concorda (poucos) e com os quais discorda (muitos). Ao apresentar suas conclusões, adota um tom um tanto quanto panfletário, circunstância que não retira o brilho do livro.
Bem interessante o quadro apresentado sobre como os intelectuais brasileiros acabam ajudando a perpetuação das desigualdades com suas teorias sobre a "essência" de ser brasileiro. Porém, parece que somos muito determinados pelas estruturas e pelos capitais que possuímos ou não.
E la fui eu de novo ler algo do Jessé... e novamente abismado com a falta de qualidade do material... Esse livro aborda basicamente os mesmos pontos do livro "A Elite do Atraso" do mesmo autor, tão mal escrito quanto, e utilizando praticamente as mesmas referencias. E, ao fim da leitura de ambas, após uma infinidade de repetições de argumentos mal fundamentados, o autou não consegue concluir o propósito o propósito dos proprios livros. É quase como uma tese de mestrado sem uma conclusão, em sua versão anterior até da qualificação. A pesquisa é muito pobre, com referencias limitadissimas e conclusão insatisfatória. Obviamente, não recomendo a leitura.
O que mais me chamou a atenção foram seus conceitos de racismo científico que permeiam a visão culturalista acerca do desenvolvimento da interpretação sociológica das relações entre nações capitalistas. E que tendem a colocar, cientificamente, o status de mais ou menos avançadas entre umas e outras. É uma leitura ácida e diferente, mas muito rica para essa reflexão sobre a realidade centro-periferia no capitalismo.
Na verdade 4 estrelas e meia. Uma pena que a nossa classe que se denomina elite não leia, uma pena que ela não entenda que é usada como massa de manobra. Uma análise econômica, social e histórica de nossa “tolice” e de como ela é usada pela real elite, o 1% mais rico e poderoso da população. Essencial. Devia ser adotado em todas as escolas, já do ensino médio para cims