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Aviões de papel

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É domingo. A cidade está silenciosa e imóvel. Uma menina faz um avião de papel, escreve uma frase na asa, lança-o da varanda; vê-o aterrar no passeio e fica à espera que aconteça alguma coisa. Assim se inicia a viagem de um avião de papel que irá atravessar estórias e vidas, aproximando personagens e provocando acasos, testemunhando dramas e alegrias. Vinte e sete contos independentes cruzam-se para formar um romance de múltiplas vozes, estados de espírito, desassossegos, interrogações. Entre a angústia desesperada e o optimismo infantil, confrontam-se ângulos e pontos de vista, surgem espantos, subsistem dúvidas, espreitam esperanças. E as vidas seguem imprevisíveis, como voos incertos de aviões de papel; apenas a queda é certa.

144 pages, Paperback

Published July 1, 2020

13 people want to read

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Paulo Kellerman

24 books33 followers

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Displaying 1 - 5 of 5 reviews
Profile Image for Andreia Moreira.
7 reviews2 followers
October 15, 2020
É no espanto-puro das crianças que habitam os maiores ensinamentos e a alegria dos gestos simples. Para elas parece não haver futuro e é limitada, ainda, a ideia de passado. Talvez por isso sejam mais capazes de viver apenas no presente (como dádiva) e com maior sabedoria, do que todos os enredados pela ilusão da maturidade. Eis o que imagino ser a premissa de «Aviões de Papel», do Paulo Kellerman (1974), uma edição minimalista (https://minimalistaeditora.pt/, Julho 2020). Num domingo, uma menina faz um avião de papel, escrevendo uma frase numa das asas que, como veremos ao longo da narrativa, terá a qualidade de fazer sorrir quem a leia. É, desde logo, uma bela imagem, como são as inúmeras que efabulamos ao ler os diferentes capítulos. À partida, estes viveriam por si, pelas histórias díspares das diferentes personagens. A mestria do contador está neste pormenor: no enlaçar dos vários destinos, graças à aleatoriedade do vôo do brinquedo criado pelas mãos da criança que o sonhou. Quem o encontra resiste, inicialmente, ao gesto de lançá-lo de novo. Foi com enlevo que constatei a vitória da candura sobre o batimento calculado de alguns corações endurecidos. Um acaso a fazê-los encontrar o caminho de regresso aos sentimentos primordiais soterrados, entretanto, pelos escombros das tragédias íntimas. Há sempre na escrita do Paulo: humanidade. E, em medida equivalente, questionamentos: causadores de desconfortos múltiplos porque nos obrigam ao confronto com o que somos, queremos, com a dor, com aquilo por que lutamos ou deveríamos e não mexemos um dedo, com tudo o que escolhemos calar, com as perdas, as decisões, os fantasmas. Chegam-nos de um modo intimista, cúmplice, pelas reflexões das vozes que habitam este volume e pelos diálogos maravilhosos que o autor produz. Resta-me ter esperança que estas palavras conquistem, pelo menos, um bom leitor. A escrita do Paulo merece e as suas histórias, repletas de doçura, também.
Profile Image for Cristina Vicente.
Author 3 books2 followers
September 23, 2020
Aviões de Papel, de Paulo Kellerman, é um livro fantástico...
Quando o lançamento de um avião de papel liga a vida quotidiana das suas diferentes personagens, somos levados em voos e questionados a cada passo para os momentos do "eu" e dos outros, em que deixamos de ser, de estar, de partilhar, de amar... e percebemos que a fugacidade da vida é tão presente e dolorosa.
Na escrita sublime de Paulo Kellerman, o nosso reflexo aparece no virar de uma página, acompanha-nos na multiplicidade de emoções que surgem e abandona-nos quando a necessidade de reflexão rasga os padrões e obriga a mergulhar na importância das relações humanas e nos afectos. Simplesmente nos afectos.
Profile Image for Ana Gilbert.
Author 3 books1 follower
September 21, 2020
Paulo Kellerman escreve sobre a alma humana, no que ela tem de belo e sombrio. E não é diferente em Aviões de papel (seu 2º romance e 14º livro), um romance de contos que inquieta com a beleza; um texto diáfano que mistura suavidade e crueza.
Uma menina faz um avião de papel e o lança da varanda com uma frase escrita numa das asas. Espera que algo aconteça. O seu avião rasga o ar e o silêncio do domingo. A sua imaginação rasga a falta de sentido do mundo e, por um momento, suspende o tempo. Por essa fresta aberta pela imaginação passeiam desígnios, possibilidades, lampejos que ficam à espera de que alguém os perceba. E alguém percebe. Há sempre alguém capaz de reconhecer os sinais, de dar continuidade a esse fio invisível que nos conecta como seres humanos: a imaginação, ou a capacidade de criar imagens. Contudo, apesar de ser inerente ao humano, essa capacidade imaginativa pode sofrer um declínio em decorrência dos afazeres e exigências da vida cotidiana, dos estados anímicos e da intolerância com os nossos ritmos internos. Aos poucos, as imagens nos abandonam, perdemos o poder do espanto e nos tornamos literais e enrijecidos, desconectados desse fio criativo invisível. Demasiado adultos, talvez. Vazios.
Os vinte e sete contos são pequenos universos independentes dentro de um todo que é o romance. Eles nos oferecem paisagens de silêncio e dor, de dúvida e inquietude, de contentamento e otimismo, processos de diferenciação psíquica e de construção de imagens do eu. Somos guiados por um avião de papel, frágil e delicada testemunha das vidas e seus dramas, e que é o elo de ligação entre as histórias, numa costura precisa que é característica marcante de Kellerman. Objeto banal e concreto, o avião de papel (e o ato de lançá-lo ao espaço) é também uma bela e potente metáfora do imprevisível, e nem sempre bem-sucedido, processo de restauração da imaginação, tanto em termos psíquicos quanto corporais. Em seu voo efêmero e instável, a leveza do avião contrasta com o peso da realidade; o lúdico dialoga com as perturbadoras vozes que habitam as personagens e, por onde passa, o avião de papel afeta, desassossega, alimenta, traz esperança. Traduz-se em acasos, sorrisos, toques. Acrescenta alguma cor à monotonia dos dias. Provoca o surgimento de imagens.
O romance Aviões de papel delineia a sutileza do sonho em contraste com a melancolia do cotidiano sem sentido, numa multiplicidade de vozes que reverberam em nós como um labirinto de espelhos a devolver-nos inúmeras imagens do eu. Alerta para o risco da aridez e da fragmentação decorrente do declínio da imaginação, e aponta uma saída possível. Poético, incisivo e cativante, o texto emociona e nos ampara diante da inevitabilidade da queda.
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