Invenção e Memória publicado em 2000, contém contos que transitam entre o real e o fantástico, passado e presente.
"A Chave na Porta" que conta a história de uma moça que pega carona com um velho amigo da faculdade, toma contornos fantásticos lidando com memória e sobrenatural.
Em "Que se chama solidão" contada do ponto de vista de uma criança, há apenas um vislumbre de uma aparição, algo bem sutil, nada explícito. Esse modo de tratar o fantástico/desconhecido/sobrenatural lembra bastante Poe, que a Lygia cita como influência.
Um dos melhores contos é "Suicídio na granja", que tem reflexões sobre o ato:
"Mas, pai, por que ele se matou, por quê?! fiquei perguntado. Meu pai olhou o charuto que tirou da boca. Soprou de leve a brasa: Muitos se matam por amor mesmo. Mas tem outros motivos, tantos motivos, uma doença sem remédio. Ou uma dívida. Ou uma tristeza sem fim, às vezes começa com a tristeza lá dentro e a dor na gaiola do peito é maior ainda do que a dor na carne. Se a pessoa é delicada, não aguenta e acaba indo embora! Vai embora, ele repetiu"
A escrita é bem lírica, às vezes parece que o conto se passa num sonho. A escritora só conta o necessário, fica sempre um mistério sobre algo a mais.
Outros contos são bons também, "Rua Sábara, 400" parece ser bem autobiográfico, "Se és capaz" mostra a evolução do narrador e sua relação com um poema. Mas os três contos citados acima, são os melhores para mim.
"Alguns se justificam e se despedem através de cartas, telefonemas ou pequenos gestos - avisos que podem ser mascarados pedidos de socorro. Mas há outros que se vão no mais absoluto silêncio. Ele não deixou nem ao menos um bilhete?, fica perguntando a família, a amante, o amigo, o vizinho e principalmente o cachorro que interroga com um olhar ainda mais interrogativo do que o olhar humano, E ele?! Suicídio por justa causa e sem causa alguma e aí estaria o que podemos chamar de vocação, a simples vontade de atender ao chamado que vem lá das profundezas e se instala e prevalece."