A sobrevivência deixou de ser meio para a vida e passou a ser o fim mesmo da vida. Isto não foi possível sem um desligamento da sobrevivência face ao mundo e que faz do mundo apenas um meio da sobrevivência.
Este livro fala sobre o desligamento do mundo, de que somos causa e de que seremos efeito derradeiro se não pararmos para o questionar. O tempo desligou-se dos acontecimentos para os poder medir, impassível. A verdade desligou-se da realidade para poder ser usada sem embaraço. E as emoções migraram para o circo online desligado da vida concreta cada vez mais despovoada de sentir.
Desligamo-nos do mundo como se fugíssemos da sua materialidade, e assim é o próprio mundo que se desliga, deslassando a sua substância. Dela extraímos formas que são meros «espectros» ou «recursos». Nós próprios também nos desligamos, tornados espectros ou recursos, correndo para a desmaterialização dos corpos e dos espíritos, sem nos apercebermos de que só somos humanamente, sendo parte do estofo do mundo.
ANDRÉ BARATA nasceu em Lisboa, em 1972. Licenciou-se em Filosofia em 1996, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde obteve o grau de Mestre (1999) e de Doutor em Filosofia (2004). É, desde 2002, membro docente da Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior, onde tem leccionado disciplinas na área da Epistemologia, Lógica, Filosofia da Linguagem e História das Ideias Políticas. Tem publicados vários livros de ensaio, como "Metáforas da Consciência" (2000) e "Primeiras Vontades" (2012). Organizou os livros "Representações da Portugalidade" (2011) e "Estado social: De Todos para Todos" (2014). Foi diretor da revista de filosofia "Análise" (2005/2006). É hoje vice-presidente da Assoc. Portuguesa de Filosofia Fenomenológica, integra o Conselho Científico da Sociedade Portuguesa de Filosofia.
Livro muito bem escrito, mas confesso que ao início custou a entrar na linguagem mais técnica (talvez por me faltar ler muitas das obras referenciadas). Aprendi muita coisa nova e mesmo assim terminei esta obra com mais perguntas do que quando comecei, o que não é negativo, de todo.
" Múltiplos desligamentos que se sobrepõem, repetindo o mesmo padrão - o tempo separado dos acontecimentos, a verdade separada das razões, as emoções separadas da vida real, o conhecimento teórico separado do que trazemos incorporado. (...) Já não nos ligamos ao que comemos, ao que lemos, ao que ouvimos, ao que fazemos, tudo mantido nos estritos termos de uma relação mercadorizável, instrumental, cada vez menos estabelecendo relações entre realidades plenas, nós mesmos transformados em espectros abstratos e - pela sociedade online adentro, empurrados pela economia digital - em utilizadores, em contas, em avatares a jogar um qualquer papel produtivo".
" (...) Por ora, vamos conhecendo o Frankenstein em que se tornou o tempo de vida das pessoas, com projectos existenciais vitais demasiado longos para a janela de tempo que as nossas vidas aceleradas lhes podem reservar. O regime do ´curto prazo´ erode as condições para tomar decisões tão centrais nas vidas como a de ter um filho. É como os transtornos de Alice ao cair na toca do coelho branco, tornando se ora demasiado minúscula ora gigante, incapaz de intergir bem com o mundo em seu torno."
"A opressão é um não-acontecer às pessoas, mas recíproco, entre opressor e oprimido. A diferença que os distingue, por detrás da aparente e quase sempre formalizada igualdade, está não no plano do que acontece, mas no plano anterior ao que acontece ou deixa de acontecer, plano do possível ou da sua negação. Visam-se, mas com uma intencionalidade encoberta pela disposicionalidade adquirida pelo sistema, as possibilidades de ser das pessoas. Por exemplo, ao viverem apenas para sobreviver ao dia seguinte, quer dizer, viverem sem plano, viverem sem a possibilidade de projectarem uma vida com significado. A precariedade extrema das suas vidas tem como consequência central uma opressão igualmente extrema. (...) Este oprimido não tem um repressor a quem possa olhar nos olhos, passa é a existir com a mesma dificuldade de quem se sente sufocar, sujeitado a uma violência sem sujeito, mas nem por isso sem autores."