Obra de intriga com poucos incidentes, poucas personagens (praticamente três com conteúdo) e poucas páginas. Os dramas das três idosas parecem pequenos, e nas suas vidas, talvez não haja nada merecedor de registo. Mas com a sua caracterização directa e a sua frieza para descobrir os recantos mais despercebidos da psique e os pormenores mais importantes do quotidiano, Walpole consegue traçar um quadro psicológico tão perturbador quanto merecedor de atenção.
A sra. Barrenger é medrosa, fraca de espírito e frágil de ânimo. Sem outra companhia que não a do cão devoto, sem perspectivas que não a de morrer sem sobressaltos nem miséria, e sem bens de significado para lá de uma pedra de âmbar oferecida por uma antiga (e a única) amiga, o seu perfil patético desafia a comiseração que não podemos deixar de sentir ao vê-la cair nas mãos da sra. Payne. Verdadeira vilã de histórias de crianças, a sra. Payne é quase demasiado egoísta para o ser. Preocupada apenas com os seus prazeres e conveniências, e vendo nos outros somente meios ou obstáculos para ter o que pretende, não conhece fronteiras que a impeçam de invadir habitações ou pensar como seus objectos alheios. As emoções dos demais não lhe ocupam o espírito, exceptuando o prazer que sente em causar temor. Por fim, a sra. Amorest não é heroína nem excepcional, mas tem empatia, bons instintos e disponibilidade para ser correcta – é uma pessoa decente.
O final do livro (mais concretamente, o último capítulo), por um lado, não convence, tanto porque o filho da sra. Amorest é um salvador de moral ou sentimentos muito duvidosos, como porque a alegria da sra. Amorest suscita o mesmo desapontamento causado pela revelação, tão habitualmente condenada noutras histórias, que tudo havia sido um sonho. Neste caso, depois de um ambiente progressivamente mais tenso e sinistro construído ao longo do livro, a libertação final parece sugerir que tudo foi afinal um pesadelo. Por outro lado, é essa inversão de perspectivas que propõe quiçá a orientação de leitura mais interessante do livro: a de lembrar que a linha entre o isolamento desesperante e a integração feliz no mundo é ténue ao ponto de poder depender de um só rosto próximo; que é igualmente ténue a que separa a sensatez ou perspicácia da loucura alucinada; e que pode nem haver linha a separar a maldade mesquinha da fragilidade, pois, como descobre a sra. Amorest, o monstro grande que rugia no escuro pode, uma vez acendida a luz, revelar-se um bicho de garras pequenas a arranhar para se defender de um mundo demasiado grande para reparar nele.