Jorge Amado considerava São Jorge dos Ilhéus (publicado em 1944) uma continuação natural de seu romance anterior, Terras do sem-fim (1942). Se este, ambientado no campo, narra a saga dos pioneiros e as guerras sangrentas pela posse da terra, aquele, tendo Ilhéus como cenário principal, fala do momento em que, pacificada, a região colhe os frutos da exportação de cacau e se moderniza. Nesse contexto, em que os confrontos de jagunços foram substituídos pelo jogo na bolsa de valores e pelas intrigas políticas, pululam os personagens mais dí prostitutas, jogadores, exportadores estrangeiros, militantes comunistas, filhos de coronéis transformados em bacharéis ociosos, poetas de fim de semana, artistas de cabaré. Durante uma alta de preços forçada astuciosamente pelos exportadores, com o intuito de ludibriar os velhos coronéis e açambarcar suas terras, a cidade de Ilhéus vive uma breve idade do ouro, com uma vida noturna vibrante, e recebe aventureiros de todos os pontos do país e até do exterior. Jorge Amado entrelaça os destinos de uma dúzia de personagens das mais variadas extrações, narrando de modo envolvente seus dramas e suas comédias, seus sonhos, traições, vinganças. Este e-book não contém as imagens presentes na edição impressa.
Jorge Amado was a modernist Brazilian writer. He remains one of the most read and translated Brazilian authors, second only to Paulo Coelho. In his style of fictional novelist, however, there is no parallel in Brazil. His work was further popularized by highly successful film and TV adaptations. He was a member of the Brazilian Academy of Letters from 1961 until his death in 2001. In 1994, his work was recognized with the Camões Prize, the most prestigious award in Portuguese literature. His literary work presents two distinct phases. In the first, there is a clear social critic and political focus, with works such as Captains of the Sands and Sea of Death standing out. In his more mature phase, he adopts an aspect of good-humored and sensual chronicler of his people, abandoning ideological motivations, with works such as Gabriela, Clove and Cinnamon, The Double Death of Quincas Water-Bray and Dona Flor and Her Two Husbands.
It is a captivating novel. It takes place in the south of Bahia, Brazil, and tells the story of the conquest of the cocoa land. First was the virgin forest, and then men arrived and began clearing it to cultivate cocoa. Since cocoa was worth its weight in gold, it was a bloody struggle that allowed the farmers to build their immense plantations. They employed day laborers, whom they paid poorly and exploited. The region produced nothing but cocoa; the prices of other commodities were exorbitant. To prevent the day laborers from leaving the plantations, the plantation owners set up stores there. The day laborers did not earn enough money, and their debt grew. Traders and exporters will turn this situation on its head. Another struggle will begin between the exporters and the colonels, as the large landowners are called. The fazendeiros will find themselves ruined, and the estates will change hands. This time, there will be no bloody struggle but a commercial and economic one, which will throw people into the streets and create poverty and hunger. The unemployed day laborers will attempt to organize themselves to bring about a new order and ensure greater justice.
São Jorge de Ilhéus é a continuação de Terras do sem fim. Enquanto no primeiro Jorge Amado mostrou-nos uma luta sangrenta pela posse das terras, neste a luta é essencialmente comercial.
Há personagens que regressam - o Capitão João Magalhães, Don'Ana Badaró, Munda e Antônio Vítor - e somos apresentados a novos personagens, os seus descendentes, Dr. Rui Dantas, Silveirinha e Joaquim, entre outros.
Após terminarem os conflitos pela posse das terras de Sequeiro Grande assistimos aos tempos áureos das plantações de cacau, ao aumento dos preços no mercado internacional e à circulação das riquezas pelas terras de Ilhéus, Itabuna etc.
Os coronéis, cheios de dinheiro, endividam-se para sustentar as amantes, o jogo e os vícios e acabam nas mãos das empresas exportadoras que na baixa do preço do cacau lhes ficam com as terras. As personagens femininas são fortes, marcadas pela resistência e pelo sofrimento.
É um livro que me envolveu devagarinho e que às páginas tantas não o queria por de parte nem acabar de lê-lo.
Maneca Dantas andava desanimado. Disse: — A gente passou a vida toda na roça, derrubou mata, brigou, matou gente, derramou sangue de cristão… Sérgio ouvia interessado. Maneca Dantas fitava as luzes de Ilhéus: — Plantamos cacau, fizemos roça, a gente nunca se divertiu, a gente fazia tudo era mesmo pros filhos. E veja o senhor, seu Sérgio, os filhos da gente não deram pra nada, a não ser para beber cachaça e andar com rapariga… — Lembrava-se de Rui. — Ou pra coisas piores… Pra isso não valia a pena a gente ter trabalhado tanto… Calou, o poeta não disse nada. Maneca Dantas voltou a falar: — E agora ainda tomam as terras da gente, deixam a gente na pobreza… Tou velho, seu Sérgio, de que valeu trabalhar tanto, matar gente, passar cinquenta anos enterrado na mata? Pra ganhar o quê? Pra terminar pobre… Então o poeta apontou as luzes da cidade lá embaixo: — Pra fazer isso, coronel! Valeu a pena. Os senhores fizeram tudo que está aí… Pensa que é pouco? Maneca Dantas concordava, sem entusiasmo nem alegria: — Só que não é mais da gente… Quando, na outra noite, Sérgio voltou a visitar Joaquim, contou ao militante a conversa que tivera com Maneca Dantas. Joaquim se levantou da cadeira e disse: — Companheiro Sérgio, o tempo deles passou… Agora começou o tempo dos exportadores, que é o tempo do imperialismo. Mas também esse tempo vai passar. Primeiro, eles vão brigar entre eles mesmos. Sérgio noticiou: — Karbanks e Schwartz já estão em luta. Os integralistas combatendo Carlos Zude… — Está vendo? De um lado os alemães, do outro os americanos. O tempo deles também vai acabar, vai começar o nosso tempo, companheiro Sérgio… Saíram, andavam para os lados do cemitério. Lá embaixo eram as luzes da cidade. O poeta Sérgio Moura via o dragão sobre Ilhéus, de garras estendidas, cem bocas famintas. E pensava que, se na véspera havia conversado com o passado, agora estava conversando com o futuro. Joaquim falava com convicção, a voz profunda que parecia chegar do coração pleno de fé: — Primeiro a terra foi dos fazendeiros que conquistaram ela, depois mudou de dono, caiu na mão dos exportadores que vão explorar ela. Mas um dia, companheiro, a terra não vai ter mais dono… Sua voz subia para as estrelas, cobria as luzes da cidade: — …nem mais escravos…
Em uma continuação a Terras do Sem-Fim, que teve como foco o roubo de terra, a descrição das plantações de cacau adubadas com sangue, a rixa entre duas grandes famílias e claro, o desfecho fatídico a uma delas, em São Jorge dos Ilhéus, diferentemente, há uma nova guerra a ser travada, essa não mais entre os coronéis da primeira obra e sim, entre esses e os exportadores do fruto, entre o atraso e a modernidade e entre o comunismo e o capitalismo.
Com um viés claramente mais político, sendo o escritor membro e militante do Partido Comunista, há na obra tudo aquilo que sempre encontramos em sua literatura: a trapaça, a malandragem, o ímpeto revolucionário de consciência de classe, a exaltação da Bahia, os amores roubados, as mortes anunciadas e a injustiça.
Travando desde as primeiras páginas uma guerra para com os coronéis, os exportadores do cacau tomam o protagonismo para revolucionar a economia da época, que consiste em pegar tudo para si e deixar nada ao outro, em uma história composta por diferentes vozes narrativas, que abarca desde o pequeno agricultor, ao militante político, às famílias dos exportadores, às prostitutas e outros mais personagens que consagram a grande mistura exótica e caótica que sempre presente estão nas obras do escritor, tudo isso, em uma história que tem como tema central a desigualdade social.
Sendo também São Jorge dos Ilhéus uma das obras que inaugura a fase de 'romance social' do escritor, é nela que Amado expõe a crueza da fome, da precarização do trabalho, da escravidão contemporânea e das ilegalidades dos donos do poder, em uma aventura literária que é tudo, menos tranquila. Como a obra remete a Terras do Sem-Fim, a mim, foi uma leitura deliciosa do início ao fim, assim como revistar os Badarós, os Magalhães e os Silveira, em mais uma grande obra desse grande escritor.
Como escrevia bem o homem. Terceiro volume do seu Ciclo do Cacau, e continuação direta de Ilhas do Sem-Fim, épico sobre a conquista das terras do sul da Bahia, São Jorge de Ilhéus parece um livro menor em comparação com seu antecessor. Centrado na manipulação de preços de compra e venda de cacau pelos exportadores, a história se desenrola com os movimentos já anunciados, são poucas as reviravoltas. É difícil simpatizar com os exportadores, no seu trabalho exploratório e desleal, da mesma forma que era possível compreender as motivações dos coronéis e jagunços do livro anterior, seus crimes até maiores que os dos exportadores, que atuam dentro da lei. O desejo por fincar seus pés na terra e cultivar sua própria plantação dos coronéis também é tocado pela ganância, mas o intento dos exportadores é um movimento de usurpação ainda mais óbvio, baseado em artifícios financeiros e não na conquista da terra. No final do dia os lavradores são os mais prejudicados, ficando sem terra, sem trabalho e sem pão. No meio de grandes interesses e artimanhas empresariais, quem se importa com os direitos do trabalhador? Aí entra uma trama política complexa ocorrendo em Ilhéus, e Amado expande esse micro-cosmos apresentando a disputa subjacente de poder pelos integralistas, fascistas brasileiros, apoiados pelos exportadores e comunistas, apoiados por uma parcela do povo. Esse jogo de poder, a sensibilidade emocional na escrita e personagens como Joaquim, líder comunista, Antônio Vitor e Raimunda, pequenos lavradores e Varapau, trabalhador braçal, Lola e Pepe, casal de criminosos argentinos, criam nesse romance uma teia por vezes torpe, por vezes bela de se acompanhar. Sempre cativante e interessante na sua abordagem, cada vez mais percebo a grandiosidade de Jorge Amado.
Színes-szagos társadalmi körkép a brazil Bahiáról, mozaikok munkásról, parasztról, birtokosról, értelmiségről és kapitalistáról finoman összefésülve, némi cselekménnyel bolondítva. Amado nagyon ért ehhez a fülledt hangulathoz – az arany kakaógyümölcsök világát úgy tudja ábrázolni, mintha egy nagy görög sorstragédia helyszíne lenne. A föld nála maga is élő személyiséggé változik, valahogy úgy, ahogy Zolánál változnak a jelenségek lélegző, önálló identitással rendelkező lénnyé.
Amúgy meg ez a könyv egészen direkt tanmese Marx azon tételéről, hogy a feudalizmust felváltja a kapitalizmus, a kapitalizmus pedig létrehozza (szándéka ellenére) a szervezett munkásságot, aki aztán megteremti a szocializmust. A feudalizmust itt a földbirtokos „ezredesek” képviselik, a kapitalizmust meg az exportőrök, akik felverik a kakaó árát, hogy aztán mindenféle machinációkkal csődbe vigyék Bahia addigi urait. Mögöttük pedig már konspirálnak a munkások és a parasztok, akik (mint Amado megelőlegezi a regény utolsó lapjain) majd egyszer, valamikor elnyerik méltó jutalmukat: a politikai hatalmat. Amado csak annyit csavar az eredeti tézisen, hogy szemmel látható nosztalgiával (szimpátiával?) tekint a feudális nagyurakra, és lanyha megvetéssel az őket legyőző ravaszdi kereskedőkre. Merthogy az ezredesek legalább bátrak és kemények voltak – példának okáért nem bíróságon cseszegették egymást, hanem csak úgy lepuffantották ellenfeleiket a bozótban. Ami tényleg nagyon macsó, és egyben nagyon dél-amerikai is.
Nem tudok amúgy haragudni Amado-ra azért, mert kommunista propagandát művel – egyrészt azért, mert még ezt is emészthetően csinálja, másrészt meg azért, mert a dél-amerikai társadalmi berendezkedés* valóban törvényszerűen taszigálta az összes valamirevaló művészt a marxizmus kebelére**. Ettől függetlenül helyenként nagyon tankönyv-ízű a szöveg, amiért mindenképpen jár a pontlevonás. Összességében egy olyan korai Amado-regény ez, amiben már látszanak az erények, de szükség van még némi finomhangolásra. Ami a későbbi művekben meg is történik majd.
* A gigantikus földbirtokok kialakulása már a gyarmati uralom alatt megágyazott azoknak a társadalmi szakadékoknak, amik a mai napig kihatnak a kontinens gazdasági teljesítőképességére. Mint azt Ferguson a Civilizáció-ban nagyon szépen felvázolja. ** Kivéve egy bizonyos zsenit Buenos Airesből. De ő csak azért van, hogy a szabályt erősítse.
Um livro de peso quase histórico e didático, sobre a expansão exportadora capitalista no mercado de commodities e a exploração das forças de trabalho na Bahia. Os personagens fazem parte de um sistema coletivo vivo, belamente destrinchados mas sem hierárquia de importância, todos vítimas de um sistema que prefere mata-los antes de vê-los triunfar. Todos perdem, até mesmo aqueles que saem como vencedores. Cheguei na trilogia do cacau por acidente, já no último livro, mas isso não diminuiu minha experiência em absoluto, Jorge Amado segue sendo Jorge Amado e que sentimento mágico ter como refúgio a extensa obra literária desse homem que ecoa tantas vozes em suas palavras.
Termino de leer esta novela en el contexto de la pandemia, con el aliento suspendido y el tiempo roto. Regreso a la literatura, a las imágenes de mundos convocados, a la recia humanidad forjadora, a la historia microscópica de quienes vivieron la gloria y la más estrepitosa de las caídas.
Esta novela me regresa el asombro, la magia, la vieja lucha. Es una novela de colisiones violentas, y de manso discurrir también. Tal como la historia normalmente es.
Although the idea of world-building is usually used in reference to books in the fantasy genre, it’s the best way to describe what this book does. However it is certainly not fantasy, but a remarkable portrait of Amado’s hometown of Ilheus during the interwar period. Although Amado possesses a Marxist’s keen insight into the social, political and economic dynamics of Brazilian society, this does not lead him to a caricature of evil exploiters and noble exploited (quite the contrary), but instead an artistic rendering of the tragedy and futility of economic competition and the possibilities for love and solidarity beyond it.
As primeiras páginas sobre a vida dos exportadores e coronéis custou um pouco a ler, mas à medida que a história foi evoluindo, foi-me conquistando, especialmente as descrições sobre a vida dos trabalhadores das fazendas de cacau, a luta pela terra e a evolução moral das personagens, com quem é impossível não sentir afinidade, ainda que com percursos à margem da sociedade e da lei.
Quarto livro que leio de Jorge Amado, e vou querer ler ainda muito mais.
Revolution! Love this story about a country's economy build up and then collapse. I can see how some may thing of this as communist propaganda but it is more than that. It is an insight view of the old world meeting with the new.
Continues the saga of the Bahia cacao boom of the early 20th century, thirty years after the events of The Violent Land. Excellent (but best read together).
Um livro maravilhoso e poético, sempre mostrando o lado profundo de seus personagens em forma de poema em prosa. Uma escrita fácil e instigante, que me faz amar cada vez mais os livros desse autor
A detailed look at a very specific event, but one that has broader applications and lessons.
The Golden Harvest is set in Ilheus, a cacao city in Brazil's Bahia Province, and the story follows the lives of plantation owners, exporters, peasants, workers and their families through an extreme boom and bust over several years in the early 1940s. Amado's leftist leanings are definitely noticeable - everything is portrayed through the lens of money, employment and class, the plantation workers are written in a very sympathetic way and the communist Joaquim is the only character who can foresee the scope of cacao's boom and bust. For that matter, it felt like Joaquim was the character who came out on top and provided some hope for the future of Ilheus - the old guard are ruined, the exporters will tear each other apart but there's always hope for a better future.
Of course this book is centered around cacao, but the story it tells could be applied to any commodity that becomes the cornerstone of an entire city and community, and the cutthroat, desperate men that thrive on it. Cacao could be replaced with oil, coffee, sugar, timber.
Also, the passages describing the cacao fields are just gorgeous and so evocative. It becomes pretty clear that Amado is writing from experience and memory, as he was born on a cacao plantation in the Bahia. Nobody else could have done that better.
That being said, the book is very detailed and slow-moving. It does make you understand the specific economic situation of Ilheus at this time, but just be aware this isn't a quick read.
A continuação de Terras do sem Fim transfere a luta pela posse de terras para a questão comercial.
Sequeiro Grande continua como palco principal envolvendo as plantações de cacau e as evoluções do mercado externo e interno. Alguns personagens também retornam como o Capitão Magalhões e a Don'Ana Badaró enquanto outros são seus descendentes.
A crônica de costumes permanece com o retrato de coroneis e seus vícios e a população pobre que continua a sofrer nesse embate entre empresas e governo.
Um livro que foi censurado aquando do fascismo em Portugal e que foi agora reeditado. Cada livro de Jorge Amado é um excelente livro. este mantém a excelência do que tenho lido do autor.
Trata de uma povoação baiana que tem um enorme crescimento devido ao cacau e sua ascendência no mercado mundial. Retrata muito bem as várias personagens criadas dos fazendeiros de cacau a operários passando pela alta-classe da vila e estrangeiros ligados ao negócio.
Toda a engrenagem de personagens, argumento, histórias várias é muito bem descrita, envolvendo o leitor como se vê um filme.
Muito sobre plantação de cacau, muito sobre a própria cidade de Ilhéus em uma época um pouco distante. Os personagens são críveis, alguns com o dom de nos causar raiva e repulsa. A escrita de Jorge Amado é fluida, traz a vida real. Mais uma leitura muito agradável!
Very good. Jorge amado is the greatest brazilian author who ever lived. This book is set 30 years later than 'Terras do Sem-fim', how the families and Ilhéus are, revolving around the cocoa.