Bom, vamos lá. Talvez eu seja um pouco não imparcial para fazer uma resenha desse livro? Talvez. Mas peço que não desconsidere a minha opinião de imediato. O que tenho para falar sobre esse livro nada vai envolver a minha gratidão por fazer parte dele, ou todo o capricho e carinho por parte da Editora Épos. Pode confiar. Ao invés disso vou comentar a minha experiência como leitora dessa antologia que tem como tema principal vilões.
Só entre a gente, quem não ama um bom vilão não é? Eu mesma posso confirmar que não é preciso muito para eu me apaixonar por um vilão e esquecer que, na realidade, a história contata ali é sobre os heróis.
Já parou para pensar que um vilão só se torna vilão quando colocamos alguém no pedestal de herói? Mas e se não for exatamente assim? Será que um herói é 100% bom e um vilão é 100% mau?
O que esta antologia faz é segurar delicadamente nossas mãos de leitores, falar "vem cá, deixa eu te mostrar uma coisa" e nos guiar por histórias já tão conhecidas nossas.
E aviso vocês, assim como nas tragédias gregas, essa caminhada não é fácil. Não é fácil você encarar algo que você tinha como certo e entender que na verdade, você só acreditava fielmente naquilo porque nunca foi te mostrado o outro lado da história.
Deixa eu te contar: os heróis nunca contam pra você as partes de suas histórias em que eles erram, em que eles são fracos e em que os "vilões" não são assim tão maus.
Mas espera. É óbvio que o Capitão Gancho é um homem ruim. Não é? Peter Pan é um herói que defende as crianças perdidas desse ser tão desprezível. Não é?
Eu sei. Acredite em mim, eu entendo o quanto é difícil encarar o outro lado da história. Eu não quero saber o que aconteceu com o Capitão Gancho. Eu só sei que ele é mau e Peter Pan é bom. Fim da história. E todos viveram felizes para sempre.
Como eu poderia olhar Lucifer e achar que há algo de bom ali? O que? Você quer que eu tenha pena da Morte? Quer que eu me compadeça com a Mula-Sem-Cabeça?? Não! Não me mostre que talvez Eva tenha outra história para contar! Eu não quero saber.
Mas...
E se...?
Eu sei que é mais fácil julgar antes de escutar. Cancelar antes de ajudar. Atirar antes de perguntar.
Mas talvez seja hora de desviar do caminho mais fácil e encarar que nada é uma coisa ou outra. Entre o 8 e o 80 há uma infinidade de números. Há infinitas possibilidades.
Bruxas do Mar, Sereias, seres das histórias gregas como Aracne, Hera, Medusa e Orfeu, Feiticeiras e Príncipes maus das narrativas de contos de fadas... Talvez todos tenham algo a te contar. Talvez todos tenham um lado da história que nunca foi ouvido por ninguém. Talvez até mesmo haja monstros que habitam em você e te digam que o vilão, pode ser você.
Mas eu acredito que todos merecem uma segunda chance. Ou pelo menos, todos devem ter o direito de ter o seu lado da história contato.
E aqui, nessa antologia, eles têm.
E as histórias são contadas de formas belíssimas.
A pergunta é: você está disposto a ouvi-las?
Se a resposta for sim, alegre-se, pois o que te espera nestas páginas são as mais divertidas e intrigantes histórias. Mas, como qualquer bom livro, não ache que tais narrativas se aplicam apenas aos personagens dessas histórias. Quando você perceber, verá que a realidade é essa: todo mundo é meio herói, mas também todo mundo é meio vilão.