Se esse livro fosse uma pessoa, seria alguém com algo muito interessante a dizer, mas que só sabe falar lendo em tom monocórdio e do modo mais pernóstico possível. Consta que na época do lançamento o silêncio da crítica deixou Santa Rita Durão tão puto da vida, que queimou todos seus originais não publicados. Mas é compreensível: o livro é chatão. Tem seus momentos, mas é chatão.
As descrições violentas de batalhas são um ponto alto, com destaque para Paraguassu liderando suas "amazonas", como nesse verso aqui:
"Tal a forte donzela move a espada
Ou lança mão do dardo agudo
E de mil e mil golpes fulminada,
Rebate todos no colete e escudo:
As amazonas, de quem vem rodeada,
Vendo sobre a heroína correr tudo,
Onde quer que os contrários se apresentem,
Acometem, degolam e afugentam"
Os momentos em que o autor lista em versos as frutas, aves e animais do Brasil são bonitos (a comparação entre caldo de cana e a ambrosia dos deuses olimpianos: gosto).
Mas então o somos lembrados que o autor era padre, e temos longas, longas sequências de versos que parecem saídos de uma aula de catequese. O que explica que, nos primeiros anos de Brasil independente, se tenha preferido o Caramuru ao Uraguai como épico de formação nacional. O que o Uraguai tinha de anticlerical, Caramuru tem de carola (compreensível, já que o primeiro foi escrito para Pombal, e o segundo no reinado de Maria I).
Vários cantos são desnecessariamente dedicados à visões proféticas de Paraguassu, que nada mais são senão desculpa do autor para narrar outras batalhas sem relação direta com o enredo principal (Ferdinand Denis, no seu "Resumo da História Literária do Brasil", criticava Durão por ter optado por isso ao invés de concluir a história de Paraguassu e Diogo, que fornece elementos históricos mais interessantes).
Não me arrependo da leitura, que me trouxe imagens interessantes, mas me dá cansaço só de lembrar alguns cantos, tão empolgantes quanto assistir missa.