"Estamos viciados em modernidade. A maior parte das invenções é uma tentativa de nós, humanos, nos projetarmos em matéria para além de nosso corpos. Isso nos dá sensação de poder, de permanência, a ilusão de que vamos continuar existindo"
Ler Ailton Krenak é sempre um choque de realidade. Um choque não pelo ineditismo do que se fala, mas por fazer você parar alguns minutos e ler determinadas coisas que o seu cérebro provavelmente já pensou sobre mas o nosso estilo de vida nunca nos permitiu refletir. A sabedoria de Ailton, que é um professor e ativista indígena, sem dúvidas deve ser de conhecimento geral. E se sua fala já causa um desconforto reflexivo necessário, com "A Vida não é Útil" não seria diferente.
Esse livro, assim como o anterior do autor, é uma reunião de textos produzidos a partir de palestras, entrevistas e falas de Ailton. Porém, dessa vez, o livro vem com uma motivação: refletir sobre o Covid-19. Não são reflexões sobre a doença em si, mas no momento atual da pandemia, aonde estão desesperados pelo mínimo senso de "normalidade" que sentíamos em nosso passado (e governantes e pessoas de poder procuram moldar essa imagem de "novo normal"), Ailton utiliza a paralisação sofrida para provocar reflexões sobre como estamos tratando a Terra e como tratamos a nós mesmos, compartilhando suas posições e saberes sobre o assunto. E, a partir disso, é notável como um assunto em comum junta todos os textos: a humanidade.
"Eu não percebo esse momento que estamos vivendo como uma situação-limite, acho que o que estamos passando é uma espécie de ajuste de foco no qual temos a oportunidade de decidir se queremos ou não apertar o botão da nossa autoextinçãoz mas todo o resto da Terra vai continuar existindo"
Nesses 5 ensaios, o autor debate diversos pontos que conectam ou desconstrem o que seria o conceito de humanidade em si e, principalmente, como ele afeta o modo como levamos a vida. Ailton Krenak debate acerca de diversos temas tomando como ponto de partida essa ideia de "humanidade". Entre muitos, há debates sobre como as tecnologias vendem uma invenção de "salvamento do planeta" quando de fato não cooperam para isso; debates sobre como essa ideia de humanidade, que constantemente busca uma ideia de progresso, ignora a pluralidade de povos que a compõe e como esses povos estão lidando com o planeta; e debate sobre como estamos tão imersos nesse estilo de vida que acredita estar buscando sempre uma utilidade na ideia de produtividade, sem de fato entender seu sentido.
Enfim, "A Vida não é Útil" é um livro curto, mas poderoso. A linguagem de Ailton é concisa, simples e direta e, eu acredito, que seu objetivo não seja você se lembrar das falas ditas pra reproduzí-las para outras pessoas, mas sim internalizar essas ideias, ler, se chocar e absorver os ensinamentos do autor numa busca por mudança no modo como lidamos com a vida e com nosso planeta. Mesmo que a maior parte do meu ser seja habitada por desesperança e descrença numa efetiva melhora da humanidade, as palavras do autor reverberam na tentativa de buscar um mundo melhor.
Recomendo demais a obra e, caso tenha um interesse em experimentar, a editora liberou um dos textos desse livro, "O Amanhã não está à venda", para ser lido gratuitamente na Amazon. Agradeço à Cia das Letras pelo fornecimento de uma cópia em ebook através da plataforma netgalley.
"Quando aparecer um deserto, o atravesse"