'O coronel e o lobisomem', publicado originalmente em 1964, é a obra-prima de José Cândido de Carvalho. Nele, acompanhamos a história e as histórias do coronel Ponciano de Azeredo Furtado, membro da Guarda Nacional, em meio a aventuras divertidas e inusitadas - com direito a onças, sereias e um lobisomem pela região de Campos de Goitacazes.
José Cândido de Carvalho (Campos dos Goytacazes, 5 de agosto de 1914 — Niterói, 1 de agosto de 1989) foi um escritor brasileiro, mais conhecido como o autor da obra O coronel e o lobisomem.
Foi bacharel em direito, mas abandonou a profissão no primeiro caso. Trabalhou em diversos jornais cariocas e colaborou com a revista O Cruzeiro. Sua estréia na literatura foi em 1939, com Olha para o céu, Frederico!. 25 anos depois, em 1964, publicou seu maior sucesso, O coronel e o lobisomem, que foi traduzido para o inglês, espanhol, francês e alemão.
Deixou inconcluso o seu terceiro romance, O Rei Baltazar. Outras obras publicadas são: Por que Lulu Bergantim não atravessou o Rubicon, Ninguém mata o arco-íris, Os mágicos municipais e Um ninho de mafagafos cheio de mafagafinhos. Continuou colaborando em diversos jornais até poucos dias antes de sua morte, quatro dias antes de completar 75 anos.
Em 1974 entrou para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira 31.
Raramente passo por isso lendo livro, mas me arrastei enormemente para terminar esse (inclusive entremeei a leitura com o Vineland do Pynchon), achei esse aqui chatíssimo, uma lenga lenga sem fim. Sorry para quem gosta e olha que sou exageradamente receptiva para literatura de qualquer estilo, mas dessa vez não deu, até pensei em desistir diversas vezes. Espero que as versões para cinema sejam menos enfadonhas.
Não leia esse livro se estiver pensando se tratar de uma lenda sobre lobisomens ou algo do tipo. O título simplesmente faz referência a uma passagem do livro que ilustra bem a mente imaginativa e com manias de grandeza de Ponciano de Azeredo Furtado, "coronel por trabalho de valentia e senhor de pasto por direito de herança, destemido caçador de onça-pintada, lobisomem e, sobretudo, de rabo-de-saia." O livro relata, através da figura indolente e amalucada do Cel.Ponciano, a perda de espaço e poder dos senhores rurais em face do progresso. A linguagem aqui é personagem principal, tornando a história (por si só excelente) secundária. Muito divertido. Muito triste...
"Embaixo da sela passavam os banhados, os currais, tudo que não tinha mais serventia para quem ia travar luta mortal contra o pai de todas as maldades. Um clarão escorria da minha pessoa. Do lado do mar vinha vindo um canto de boniteza nunca ouvido. Devia ser o canto da madrugada que subia."
"Até quadro de parede comprou para guarnecer a sala da herança. Não sendo eu entendido nas artes da borração, pouco apreciei o tingido que representava um lacrimal onde um par de gansos, retorcidos de pescoço, refrescavam seus por-baixos no azulinho da água, enquanto certa moça de cabelo empolvilhado abanava o leque na companheiragem de um galante enfeitadinho de rendas e penduricalhos. A dama parecia estar dentro de um repolho, tão grande era o avantajado dos seus panos."
"O vento levou a invencionice e mais de um boiadeiro veio tirar consulta comigo no Hotel das Famílias sobre demanda de gado, financiamento de mourões e até um caso de moça donzela, que perdeu seus protocolos na lábia de um sujeito casado, tive que despachar. -Perdeu, está perdido, que isso de donzelismo é como bananeira. Só dá uma vez."
"Estipulei que a sela mais sedosa fosse arrumada no seu debaixo. Um alisador de cadeira como o dela, fornido de grandes partes, não era de meu agrado que sofresse danos e agravos em navegação de pata dura, ainda mais que Ponciano tencionava tirar da afilhada de Francisquinha as maiores serventias em práticas de noite adentro."
"Mas foi de supetão que dei baixa nesse viver descuidoso. Uma noite, estando na pagodeira, de serenata armada em varanda de moça donzela, apareceu, esbaforido, portador do Sobradinho. Padre Malaquias de Azevedo, confessor de Simeão, mandava dizer, com palavras de muito pesar, que Deus Nosso Senhor havia posto a mão misericordiosa na doença de meu avô - curou o velho de uma vez dos seus incômodos do baço."
"A bem dizer, sou Ponciano de Azeredo Furtado, coronel de patente, do que tenho honra e faço alarde."
O Coronel e o Lobisomem é um livro regionalista que não traz aquela pesada carga dramática que nos acostumamos ver em clássicos como Angústia ou a saga O Tempo e o Vento. Carvalho prefere trazer o humor e o pitoresco dessa famosa figura brasileira "o coroné".
Ponciano de Azeredo Furtado faz jus ao seu status de figura mítica e nesse livro que é uma mistura de memórias com conversa, relata sua vida que é uma conjunção de "causos" que vão do embate com uma onça até a sedução de sereias.
O episódio que dá nome ao livro - a caça ao lobisomem - é por longe, o mais interessante. A narrativa mistura tocaias com lendas e transforma o texto em algo mais.
A leitura dessa obra é por si só uma experiência. Recomendo.
Um grande exemplo de realismo mágico brasileiro, no qual acontecimentos típicos do sertão se misturam com eventos fantásticos, como encontro com sereias e lobisomens. A personalidade do protagonista é fascinante, encanta e envolve o leitor a ponto de nos fazer torcer por ele até nos momentos mais alucinantes. Para mim, no entanto, ele não passa de um fazendeiro rústico que se deixa enganar por pessoas da cidade, por acreditar na honestidade e na palavra empenhada por homens que sequer sabem o significado da palavra honra. Recomendo muito a leitura, é realmente um clássico que vale a pena ser lido.
Virou um clichê na crítica dizer que tal obra é uma carta de amor para ______, quando se coloca ______ (a comédia romântica, os plataformas da era 16 bits, a pornochanchada etc.) num pedestalzinho pra ser admirado e pra que se façam oferendas. Esse fraseado não comporta O Coronel e o Lobisomem, visto que essas páginas são um histórico de Zapzap de putarias e sem-vergonhices do maior calibre com o português de Brasil adentro. Zé Cândido usa e abusa, deita e rola com essa tal língua do povo, muito menos preocupado em criar uma ilusão perfeita dum suposto dialeto sertanejo puríssimo e impenetrabilíssimo, como é tão comum entre os escritores regionalistas, e sim em escrever uma prosa gostosa com um temperinho da roça, resultando daí que o leitor não precisa vir armado de facão pra adentrar mato bravo, pois o que vai encontrar aqui é um sítio com chuveiro elétrico e sinal de wi-fi -- melhor de dois mundos.
Rasgada a seda pra escrita do Zezé, admito que só dei quatro estrelas por ser pessoa de alma generosa, já que estruturalmente a coisa é bem outra. Só no último 1/4 de livro é que se vislumbra uma trajetória, uma mudança de status quo. Até lá, o que temos são uma coletânea de causos -- o causo da onça, o causo do galo de briga, o causo do lobisomem etc. --, todos muito engraçados, é verdade, mas um pouco repetitivos -- funcionariam perfeitamente bem no formato de série da Globo, fica a dica aí pros executivos da Netflix que estiverem lendo esta resenha. Faltou uma guilhotina de editor pra decepar umas cem páginas.
Eu poderia dizer também que é excessivamente machista, mas como não quero ser anacrônico, vou dizer apenas que a obsessão do coronel Ponciano de Azeredo Furtado por rabo-de-saia é uma chatice, uma coisa que gasta as nossas vistas. Nos momentos de vulgaridade mais inspirada, surgem algumas expressões de fazer inveja em porteiro de meretrício, mas lá pela centésima nona vez que lemos a mesma ladainha sobre Ponciano ser sujeito entendido em povo de saia, a única coisa que dá é preguiça. Sem estragar nenhuma surpresa: o assunto ganha contornos mais interessantes nos finalmentes, mas Zé Cândido só faz coçar a cabecinha do tema.
Por fim, não sei onde Zezé queria chegar com essa figura quixotesca que é Ponciano, com suas manias de grandeza e abusos de herdeiro. Por mais que o personagem se ridicularize a todo momento, transparece um carinho enorme por ele, carinho de autor pelo personagem, em cada gesto de nobreza que Ponciano tem com os amigos, em cada desforra do coronel pelos seus desagravos. Eu sei, eu sei que o bicho humano tem muita contradição, mas é que não desceu bem essa historinha de latifundiário de bom coração, não me convenceu.
Nesse livro que é uma caricatura do começo ao fim, Cândido de Carvalho retrata a vida de um coronel de patente, herdeiro de grandes terras. com muito humor e toque de magia, acompanhamos as veredas de Ponciano de Azeredo Furtado, nosso narrador nada confiável, pelo campo e pela cidade. Ponciano é namorador, de pavio curto e ares de grandeza do começo até o fim. é um livro divertidíssimo, que faz muito bem em cobrir sua sátira mordaz no tom de piada. me vi entretida rapidamente com a história, pegando até afeição pelo coronel. o quê de tradição oral é realismo mágico me encantam, sempre. só que é uma leitura que exige atenção, senão se perde facilmente no vocabulário invencioneiro e estancieiro; carece de bagagem veríssima, diria. muito bom, rende demais.
É como a Rachel de Queiroz observou na orelha da edição que eu li, você esquece que existe um autor por trás e só presta atenção no coronel. É um tipo singular que consegue cativar com toda a sua fanfarronice. Interessante a ruptura que acontece quando ele sai da roça para viver na cidade. Sobressaem-se achados de linguagem em que atributos físicos ganham uma definição burocrática, do tipo "bem municiada na sua repartição dos fundos". Gostei do recurso utilizado para encerrar o livro, que termina de forma triste.
O Coronel e o Lobisomem de José Cândido de Carvalho é uma obra prima do realismo mágico brasileiro. O humor atravessa todo o enredo que possui uma imaginação alucinante repleta de personagens, bichos e alegorias. O livro conta a história de Ponciano de Azevedo Furtado, o qual acaba enlouquecendo depois de deixar o campo pela cidade. A linguagem é muito viva criando situações nas quais o humor e o fantástico se alternam e por vezes se misturam. Temos então sereias, onças, rabos de saia e o tal do lobisomem ao qual o título faz referência. A obra foi adaptada para o cinema, mas sua versão cinematográfica está longe de conseguir expressar a linguagem viva da obra literária. É diversão literária para quase todas as idades, sem perder o trabalho fino de um grande literato.
'O coronel e o lobisomem' foi adaptado com justiça ao cinema, é diversão literária para quase todas as idades. Conta a história de Ponciano de Azevedo Furtado, que enlouquece depois de deixar o campo pela cidade. Tudo isso, porém, numa linguagem viva, com situações que alternam o humor e o fantástico e com direito a sereias, onças, rabos de saia e - claro - o tal do lobisomem do título.