A editora Monomito marca um golaço ao apresentar ao público brasileiro a ficção científica de Teresa Echeverría. No caso do conto "À sua imagem", deparamo-nos com uma mistura de space opera e new weird numa prosa tão brutal quando poética. Por isso é importante conhecer a ficção científica fora do mundo anglófono. Na melhor das hipóteses, teremos contato com obras insubmissas, em conteúdo e forma, que viram o gênero pelo avesso. Há muito o que conhecer da ficção científica hispano-americana. A tradução primorosa de Toni Moraes capta toda a estranheza e a reflexão filosófica dessa história de duplos ou múltiplos, sobre o sentido da vida, a mudança e a conformidade. Tornei-me fã dessa autora argentina.
Esse conto é pra trazer estranheza. Ele consegue te apresentar o mundo proposto muito rápido e deixar muito pra papear. É aquele tipo de história que te deixa aflito, incomodado e querendo saber mais, e que cresce quando tem uma conversa com quem também leu. Senti um clima de aflição que nem quando li Bloodchild da Butler, com climas de uma criatura muito específica de Doctor Who haha. É o tipo de história que deixa aquela sensação de "preciso conversar sobre ele com alguém, meu pai amado".
O mundo em que Allen vive ainda está sendo preparado para a vida humana. Neste momento ele propõe várias dificuldades para todos. Para amenizar a dor de ter de viver em um mundo cinza e decadente, foi criado um óculos capaz de transformar o cinza em campinas verdejantes. Logo, todos passaram a usar este óculos de forma a esquecer a realidade terrível que os cerca. Só que este é um sentimento fugaz que apenas engana aquele que não deseja ver. E Allen deseja ser capaz de ver a verdade. Por esse motivo ele sofre e se sente solitário nesse mundo de aparências. Pouco a pouco ele vai percebendo que até mesmo a aparência das pessoas é falsa já que algo mais se esconde entre as pessoas que vivem neste falso mundo.
A escrita de Teresa é melancólica e nos coloca frente a frente com uma realidade opressiva e claustrofóbica. Nos sentimos presos, comprimidos. A saída é confiar em algo que nos permite escapar da realidade. Mas, será que este ato de escapar não é o mesmo que enganar a si mesmo? Ao nos cercar de mentiras, perdemos a percepção do que é a verdade. Teresa brinca com este conceito que está tão na moda hoje da pós-verdade, de que a percepção corresponde à realidade. Mas, corresponde mesmo?
Ao terminar a leitura de À Sua Imagem me veio à mente O País dos Cegos, um dos contos mais famosos de H.G. Wells. Uma história onde um explorador ao cair de um barranco nos Andes acaba indo parar em uma vila onde todas as pessoas são cegas e ele é o único capaz de enxergar. Claro que as temáticas exploradas são bem díspares, mas o encaminhamento é semelhante. Achei o conto da autora legal, e é uma daquelas histórias que a gente precisa ficar remoendo depois para retirar novos significados. Não é uma daquelas que vai ecoar de imediato. Você vai tentar uma sensação de estranhamento e o insight vai vir bem depois.
Allen está em RR/1.111, uma colônia que utiliza telas holográficas para mostrar uma paisagem de sonhos, como as da antiga Terra, para que os colonos não se sintam tão mal com as condições em que vivem. Os próprios colonos também usam projeções para esconder a si mesmos, pois só os menos privilegiados vivem nas colônias. É no relacionamento de Allen com Iris que o conto se aprofunda e traz questionamentos interessantes, mas não vou falar muito porque a graça está justamente em descobrir o que acontece entre eles. É uma história curta e esquisita, mas achei a ideia tão interessante que eu leria mais sobre.
esse conto é uma amostra de um universo muito interessante. me deixou curiosa sobre o que mais a autora escreve.
a história caminha em círculos e desemboca num mistério sem resolução. é um conto de um ponto de vista pouco informado sobre o que realmente está acontecendo ali. isso me incomoda mais pelas repetições do protagonista que por não saber os por quês.
A história de Teresa Echeverría é de leitura rápida. Tipo da história que nos leva a pensar sobre diversas questões, como relacionamentos abusivos, enganação, evolução, colonização, bem estar.... Não é uma história pra sonhar ou pra ficar preso, mas filosofar e sair diferente. Talvez por isso talvez merecesse ser um pouco maior