Narrativa absolutamente espetacular que nos remonta aos tempos da Guerra Civil Espanhola, da ditadura franquista e do apoio que o Estado espanhol deu aos criminosos de guerra nazis na fuga para países da América do Sul, nomeadamente, para a Argentina com o beneplácito do chefe de estado da altura, Juan Domingo Perón.
A ação deste inolvidável romance, para aqueles que apreciam uma excelente história que tem por base factos reais, desenvolve-se pouco antes do início da Guerra Civil Espanhola indo um pouco mais além à morte do ditador, abarcando, naturalmente, a 2:º Grande Guerra, e as incongruências de quem a defendeu, de quem pactuou, de quem lucrou, de quem nela participou, de quem nela procurou e encontrou usufrutos, de quem matou discricionariamente sem remorsos ou sentimentos de culpa, respaldados pelo dever da defesa de uma ditadura falangista que levou o Estado espanhol ao maior ponto de rutura política e social.
Guilhemo Garcia Medina e Manuel Arroyo Benitez são os protagonistas deste romance único que nos ensina como Espanha teve de se preparar, conviver, sofrer e ultrapassar umas das ditaduras mais irascíveis da história da humanidade. Essas personagens principais serão reveladoras de todo o esforço que, na clandestinidade, fora feito para acabar com uma situação no mínimo inóspita para uma parte de uma população que não compactuava com uma política ditatorial preferindo, claramente, um futuro progressista e liberal que todos nós almejamos. Talvez, hoje em dia e olhando para trás, seja fácil criar juízos de valor sobre uma época na qual não vivemos, da qual não fizemos parte embora tenha a certeza cabal de que, se os acontecimentos de outrora se verificassem nos dias de hoje, muitos de nós saberíamos onde nos posicionar.
E creio que será essa a maior moral da história que Almudena Grandes nos propõe: como teríamos reagido em contexto semelhante, em situações paralelas, em que medida na nossa força moral ou ideológica nos colocaria do lado do bem porque posicionarmos do lado do mal, é uma equação que aqui não se coloca.
O capítulo que mais me interessou, do ponto de vista negativo obviamente, entre outros, foi aquele que a autora nos dá a conhecer a lista dos criminosos de guerra que rumaram à Argentina com passaportes falsos, protegidos pelo presidente Perón, criminosos de guerra, procurados em toda a Europa, refugiados em Espanha e que, com passaportes falsos, evadiam-se para a Argentina em 1946. A frase que, neste processo, mais me tocou foi “(…) a sensação de impunidade que gozavam os antigos nazis na Argentina de Perón era ainda maior, mais sólida e perfeita do que a oferecida pela Espanha de Franco”.
A frase que me fez sorrir foi uma expressão referente à monarquia inglesa, não isenta de responsabilidades em todo este processo foi “A única monarquia que lhe parecia respeitável era a dos Reis Magos” e a frase que mais me emocionou foi “Quando a conheci, admiti assombrado que nunca tinha estado apaixonado, e essa certeza mergulhou-me numa vertigem imediata, porque poderia ter morrido sem experimentar as pequenas [eu diria grandes] sensações que cimentam uma realidade tão grande”.
Para além de ser um livro muito bem escrito onde se percebe o cuidado da autora na integral investigação de factos absolutamente verídicos, esta narrativa coloca-nos sempre a questão de como nós, seres sensíveis, insensíveis, racionais, menos racionais, supervenientes atuais, seres inteligentes ou subsequentes de um estado político e social. Como seríamos em determinado contexto? Eu sei como seria apenas porque sentimos a nossa existência como um facto único, determinado pela nossa própria existência, proporcionado, fundamentalmente, pela solidariedade, pelo amor e pela capacidade da empatia.
Mas esta narrativa é muito mais que isso: é uma lição de humanidade que vale a pena a leitura. Recomendo!!