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First Law World

A Vingança Serve-se Fria - Parte Dois

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Depois de ser traída, a mercenária mais temida do reino está em busca de vingança...
Enquanto os exércitos se defrontam em batalhas sangrentas, nos bastidores há poderes ocultos que jogam com o destino do reino.
Para Monza Murcatto, a guerra pode ser uma bela forma de fazer dinheiro. No entanto, agora que foi traída pelo seu duque e deixada à sua sorte, a mercenária mais temida de Styria está em busca de vingança. E os sete traidores devem morrer.
Nesta sua busca, Monza vai contar com os aliados mais improváveis. Os seus inimigos incluem mais de metade da nação, e isto antes de o homem mais perigoso do mundo ser encarregado de a procurar e de terminar o trabalho que o Duque Orso começou… Mas a vingança é um prato que se serve frio.

352 pages, Paperback

Published August 28, 2020

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About the author

Joe Abercrombie

108 books39k followers
Joe Abercrombie was educated at Lancaster Royal Grammar School and Manchester University, where he studied psychology. He moved into television production before taking up a career as a freelance film editor. During a break between jobs he began writing The Blade Itself in 2002, completing it in 2004. It was published by Gollancz in 2006 and was followed by two other books in The First Law trilogy, Before They Are Hanged and Last Argument of Kings. He currently lives and works in London with his wife and daughter. In early 2008 Joe Abercrombie was one of the contributors to the BBC Worlds of Fantasy series, alongside other contributors such as Michael Moorcock, Terry Pratchett and China Mieville.

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Displaying 1 - 11 of 11 reviews
266 reviews
June 17, 2025
Sem spoilers mas mild spoilers *falar de personagens e questões do livro*

Well, nao ha discussão sobre isto ser um livrão e do Abercrombie ter muito jeito para isto. Quase sem exposição fazer-nos conhecer tão bem a personalidade de todoa oa personagens. A unica coisa que tenho a dizer sobre os mesmos é que apesar desse facto eu nunca me apego a nenhum deles (tirando talvez o Glokta, mas mesmo assim, tenho apego e apreço mas não morro de medo pela vida dele, nem me afetaria pela sua morte em si por exemplo). Sei que a ideia é mesmo essa. Sao todos grey characters. Com tantas coisas boas como más. Mas as más são mesmo más e não consigo dizer que goste de nenhum deles. Absurdo a pessoa que mais gostei neste livro (contando as 2 partes) ser o Cosca, mas tem apenas a ver com a sua personalidade quando não está a cometer um crime!!(?)

A verdade é que é preciso talento para uma premise tão simples, que desde o prólogo sabemos os 7 pontos base, conseguir nunca ser aborrecido e levar-nos nesta jornada desta forma. Pareceu o 2o livro da first law no sentido de ser difícil largar e deixar de ler, mas ao contrario desse livro que tinha uma plot lenta mas boa exploração de personagens, aqui isso era feito com uma plot que VOAVA. E aí vêm a questão. Este livro é sem duvida 5 estrelas. Genuinamente não acho que é justo dar-lhe outra coisa. Mas o Sr. Joe tem esta mania de apressar estes finais... Já é confuso não haver mapas e claro que nos vamos esquecer de nomes de sítios onde já fomos pelo livro sem mapa, mas ainda mudar de sitio sem nós fazermos a minima ideia de onde estamos e da distancia das cenas. Parecia que a Monza se teletransportava de ao pé do Rogont para ao pé do C e eu não faço ideia da distância disto. Honestamente. Cheguei a pensar em todas as hipoteses até impossíveis para explicar isto e não entendo.

Para além de apressar o final ao ponto de explicar zero do que aconteceu ao reino quando houve a questão da croa. Nao, nao vamos teletransportar a Monza para o C. Por favor explica-me como as pessoas reagiram, o que se sucedeu, como foi resolvido, o que fez a Monza etc etc. Quanto tempo se passou entre isso e ela estar com o C???? Tipo, POR FAVOR EXPLICA UM POUCO. Acho que no meio foi tanto tempo a explicar tanta cena que nós já entendiamos, nomeadamente com o envenenador, para no fim deixar tudo por explicar. E ok, nas últimas paginas diz-se "isto aconteceu e isto e isto" pois mas nós gostavamos de saber como chegamos a esse primeiro isto, qual a cronologia disso etc etc! E ja não nos lembramos dos nomes desses locais e pessoas tipo pfv!!!!!! E nao percebi nada do que efetivamente se passou com a Ishir tbh. Pq ela desapareceu naquela altura e depois quando foi falado dela foi da forma que foi nas ultimas paginas, pelo que não entendo mesmo. Mas sem duvida vai ser assunto para outro livro... Para alem de tudo com o Shenkt. Juro eu estava à espera da cena mais épica que conseguisse fazer um humano lutar com um da raça dele para ter este final? De onde veio essa ideia? Isto não faz sentido nenhum olhando para trás. E se disserem "Well, se releres podes ver que na verdade nunca foi dito..." stfu!! Mesmo que isso seja verdade 1) tirou-nos uma promessa do livro oq é sempre mau a menos que haja motivo mais forte, que nao houve 2) deve dar para pelo menos ter esse ideia ao ler a 1a vez 3) Com as memorias deste livro isto faz-me 0 sentido. Sempre em todas as ações me pareceu ocorrer o que eu estava a pensar até porque se não, como é o caso, há 500 mais coisas a explicar, nomeadamente pq aceitar a responsabilidade? porque não tratar do assunto logo aí? pq nao falar com a pessoa antes do final do livro? quanto foi o tempo ente aquilo da coroa e o final? é q for sure tinha dado temmpo aí. E tipo, ok, agora cenas que não faziam sentido antes com ele agora pensamos "ahhh, nice, era por isso" mas todas as outras não funcionam.

Eu juro que por 2 frases pensei que o livro ia resuscitar o irmão dela e fiquei extremamente chateada haha pq já estava por rudo quando vi a cara dela a olhar para a daquela pessoa e a reconhecer.

E enfim, o final com o Shivers também tem o sabor agridoce. Bem como pensar se a Dia teve algum real proposito na historia para alem daquilo. Sem dúvida que a 1a parte do livro foi a mais divertida e acho que a Dia e o envenenador realmente trouxeram muito a este livro em geral, bem como as escamurçar com ele e o Cosca. Mas ao longo desta 2a parte também tive momentos tao engraçados como o incidente da sopa do envenenador.

Ainda assim, os tempos com o Rogont também foram surpreendentemente entertaining. Bro was a goofy guy when we wanted to.

Enfim, é um ótimo livro? É. Cheio de aventura e nunca aborrecido, bem escrito, divertido, exploracao de personagens como esperado de um psicologo, personagens ricos, tantos ambientes e sempre sem sabermos o que vai acontecer na próxima página, para alem de irmos continuar a nossa vingança. Todas as partes durante a 1a parte a ir levemente revelando o passado da monza e a sua historia com o Cosca tambem eram incríveis, principalmente logo o inicio desta parte 2. Genial mesmo. O final, apesar de bom, deixou para mim muitas pontas soltas, muitas coisas por explicar melhor com estes plot twists a que o Joe já me habituou mas que explica tão mal, e falta de informação em certas áreas para apressar o final. Ainda assim, acho que deve ser um ponto de referencia para fantasia para muitos até às últimas 10-15 páginas. Muito bom!
Profile Image for Nuno Ferreira.
Author 23 books86 followers
January 7, 2021
Com uma composição mais atraente que a trilogia A Primeira Lei, mais centrada no norte gelado e na cidade de Adua, no centro do Círculo do Mundo, este A Vingança Serve-se Fria é mais contido, abstém-se de usar magias e isso é uma granda mais-valia. É um livro surpreendente que consegue cumprir com boa parte das expectativas do leitor na ponta final. Vale muito também por questionar as ações e os motivos das personagens, que apresentam todas elas falhas de carácter, para além de uma evolução dos acontecimentos imprevisível.

Posso dizer que todas as personagens são ótimas e bem exploradas, sendo mesmo a escrita de Abercrombie o que menos gostei no livro, por vezes algo ingénua e pouco convincente. Pessoalmente, achei esta segunda metade mais lenta e cansativa que a primeira, com várias cenas de batalha e um foco exagerado nos mesmos dilemas e receios. O excesso de descrição é outro dos pontos menos positivos, tanto no que diz respeito a cenários como a cenas de sexo desnecessariamente pormenorizadas.

Vivem-se os Anos de Sangue, onde todas as cidades se encontram em disputa. O duque Orso empreende uma guerra contra a chamada Liga dos Oito e que consegue alcançar vantagem graças ao talento das companhias de mercenários que contratou, em particular aos irmãos Murcatto que, para seu desagrado, parecem ganhar mais prestígio e popularidade do que lhe seria agradável. Benna e Monzcarro “Monza” Murcatto são dois mercenários de excepção, que ganharam fama por mérito próprio. Mas eles não suspeitam sequer do que está prestes a suceder-lhes.

Receando ver o seu poder usurpado pelos irmãos, Orso articula com os seus mais próximos a morte deles, e numa dada comemoração, o serviço é realizado. Benna e Monza são atirados pela varanda, o primeiro degolado, a rapariga sem possibilidade de sobreviver depois de queda tão aparatosa pela colina rochosa. Sete foram os algozes, que ou participaram ou se limitaram a observar o sucedido, sem qualquer ponta de comiseração.

Eram eles Orso, os seus filhos Ário e Foscar, o banqueiro Mauthis da grande instituição bancária Valint & Balk, o Fiel Carpi, Capitão das Mil Espadas, Gobba, o guarda-costas do duque, bem como o General Ganmark. Acontece que a mercenária chamada Monza sobreviveu para contar a história, e apesar de ter ficado destruída por fora e por dentro, pouco a pouco recuperou dos seus ferimentos e jurou vingança, concebendo um plano para assassinar os sete traidores e oferecendo justiça à perda de Benna Murcatto, o seu irmão.

Para os matar, porém, não conseguiria fazê-lo sozinha. É assim que, a pouco e pouco, vai juntando um grupo pouco confiável a quem paga pelos serviços e que lhe irão fazer companhia no seu trajecto de vingança. São eles Caul Shivers, um nórdico que combateu ao lado de Logen Novededos, Cão e Dow Negro, que veio para Sul na tentativa de se tornar um homem melhor, o envenenador Morveer e a sua aprendiz Dia, um ex-condenado de poucas palavras chamado Amistoso, e duas personagens recorrentes de A Primeira Lei: a torturadora Shylo Vitari e o mercenário Nicomo Cosca.

Este último tem uma importância bem considerável na obra, uma vez que a sua história de vida está relacionada com a de Monza; a rapariga e o irmão foram aceites por Cosca na sua companhia de mercenários, tendo-os treinado até eles se tornarem melhores do que ele, e os irmãos acabaram por o trair quando ele caiu em desgraça, viciado no vício do álcool. A este segundo volume acresceram personagens como o duque Rogont, a misteriosa gurkesa Ishri, discípula do profeta Khalul ou Carlot dan Eider, também ela bem conhecida dos leitores de A Primeira Lei.

A segunda parte da obra adensa a questão da traição e da amizade. Não há personagens em que se possa confiar e essa incerteza vem acrescentar um tom de desgosto e de desânimo. Gradualmente, a protagonista vem a considerar se a sua onda de vingança a levará a algum lado e o que pode acontecer à própria Styria se levar os seus desígnios avante. No seu todo, A Vingança Serve-se Fria é um bom livro de fantasia, com apontamentos de grande qualidade.

Se na primeira metade vivi na pele o drama da protagonista e empenhei-me com ela numa difícil jornada de vingança, neste segundo volume já comecei a questionar se ela estaria realmente certa. A trama segue um padrão semelhante a O Conde de Monte Cristo de Alexandre Dumas, mas são muitas as surpresas que o autor nos reserva – e ainda bem. O final foi agridoce (fazendo jus à proposta), com cenas de combate fenomenais.

https://noticiasdezallar.wordpress.com
Profile Image for Luís Dias.
54 reviews7 followers
November 24, 2024
"Best Served Cold" é o primeiro livro standalone do universo "First Law" de Joe Abercrombie. Estava curioso para experimentar a escrita do autor há algum tempo, mas sem querer comprometer-me com uma trilogia (já não tenho a paciência de antigamente), decidi saltar diretamente para o 4.º livro da cronologia, como vários fãs e booktubers recomendam. Não senti que fui atirado às cegas para o universo, mas o autor não facilita a vida aos novos leitores. O mundo já está bem estabelecido, as regras do sistema mágico estão fixas, e personagens da trilogia original fazem constantemente cameos ou são mencionadas. O autor disse mesmo "desenmerdem-se". Ainda assim, a única vez que precisei mesmo de recorrer à wiki foi para compreender o que eram a 1.ª e a 2.ª Leis.

No estilo típico a que a Saída de Emergência já nos habituou, a tradução portuguesa foi dividida em dois volumes (side eye). Esperei vários meses até o volume 2 estar com um desconto de 40% para o comprar e, entretanto, tive de reler as últimas 100 páginas do primeiro volume para me lembrar do que tinha acontecido.

Sem querer revelar muito além do óbvio, esta história é, essencialmente, um retelling gender-swapped d'O Conde de Monte Cristo, mas com o quádruplo da violência e das caralhadas. Após ser traída pelo seu amo, Monza Murcatto junta um grupo de indivíduos pouco recomendáveis para executar o seu plano de vingança contra os 7 responsáveis, e a história desenvolve-se como seria de esperar. No entanto, Joe Abercrombie destaca-se pela genialidade com que entrega estas cenas que, escritas por outro autor, seriam previsíveis. Uma surpresa para mim foi a qualidade do humor. Muitos autores escrevem humor de uma forma absolutamente cringe (sim, Sanderson, estou a olhar para ti), mas até os pensamentos das personagens neste livro são genuinamente hilariantes.

Para quem gosta de fantasia e está reticente em começar Abercrombie, recomendo vivamente que comece por este livro. Se tiverem paciência, comecem pela trilogia original, que, a julgar pela qualidade deste standalone, acredito que também seja excelente. Esta dita, beijinho na boca à malta da Kathartika por estar a lançar a 2ª trilogia SEM DIVIDIR EM VÁRIOS VOLUMES!!

Nota: Corram ao site da Saída de Emergência, pois ambos os volumes estão à venda com assinatura do autor.
Profile Image for Mário Pereira.
Author 2 books12 followers
July 21, 2026
A Vingança Serve-se Fria — Joe Abercrombie
3.5⭐

Joe Abercrombie trouxe, sem dúvida, algo novo às minhas leituras de fantasia.
Pela primeira vez, não senti maravilhamento.

E, também pela primeira vez, considerei seriamente não terminar um livro do género.

Eu venho da escola de David Gemmell. Mas, colocando a questão em termos talvez mais universais, vou sempre preferir O Senhor dos Anéis a isto.

Durante muitos anos, lutei contra a importância que Tolkien dava aos hobbits. Porque estavam eles tanto tempo no ecrã quando eu queria ver as grandes batalhas? Queria Aragorn, Legolas, Boromir e Gimli. Queria espadas, exércitos, monstros e feitos impossíveis. Queria ver os homens e os elfos capazes de enfrentar aquilo que faria qualquer pessoa normal fugir.

E eles são impressionantes.
Legolas continua a ser um total boss.

Mas, com o tempo, percebi que o verdadeiro valor da história estava também naquilo que os hobbits permitiam mostrar.

Sem eles, não teria visto Sam lançar-se à água sem saber nadar apenas para seguir Frodo. Não teria visto Sam enfrentar Shelob. Não o teria visto carregar Frodo pela encosta do Monte da Perdição quando ambos já pareciam não ter mais nada para dar.

Aragorn, Legolas, Boromir e tantos outros mostraram-me personagens heroicas.
Sam definiu heroísmo para mim.

E foi num mundo fantástico que o encontrei. Num mundo onde tudo era maior do que ele. Um mundo de espadas e magia, de elfos e monstros, de reis, guerras e forças antigas. Mas, no centro de tudo isso, foi o coração mais humano que me conquistou.

Talvez seja isso que procuro na fantasia.

Não necessariamente heróis perfeitos. Não personagens incorruptíveis. Não mundos onde o bem vence sempre porque é o bem. Procuro pessoas pequenas perante algo enorme, capazes de encontrar dentro de si aquilo que precisam para continuar. Pessoas que têm medo, falham, sofrem e caem, mas que, quando chega o momento, escolhem erguer-se.

Foi também por isso que A Vingança Serve-se Fria se revelou uma experiência tão estranha para mim.

Não posso dizer que Joe Abercrombie escreva mal — seria profundamente desonesto. Há voz, domínio de cena, humor negro, personagens com presença e uma capacidade evidente para construir momentos de violência, ironia e degradação moral.

Mas competência técnica não é o mesmo que envolvimento emocional.

E, neste caso, por muito que reconheça a qualidade da execução, o livro foi retirando da fantasia quase tudo aquilo que normalmente me faz querer permanecer dentro dela. A leitura tornou-se um esforço cada vez maior. Mais do que acompanhar uma jornada que me envolvesse, senti muitas vezes que observava um desastre ferroviário em câmara lenta: pessoas quebradas, cínicas, violentas e oportunistas a colidirem umas com as outras, enquanto a narrativa confirma repetidamente que o mundo é lama e quase todos estão dispostos a afundar-se nela.

O principal problema, para mim, encontra-se no centro emocional da história: Monza Murcatto.

A sua vingança é perfeitamente compreensível enquanto mecanismo narrativo. Uma mulher traída, mutilada e deixada para morrer parte em busca daqueles que destruíram a sua vida. Existe aqui matéria para uma grande tragédia. No entanto, durante grande parte do livro, dei por mim a fazer uma pergunta bastante simples: porque deveria importar-me com Monza?

Ela não é uma inocente subitamente esmagada por um mundo que desconhecia. Era parte ativa desse mundo. Era mercenária, ambiciosa, violenta e cúmplice da mesma máquina que depois se virou contra ela. Foi vítima de algo horrível, mas observar alguém sofrer não é automaticamente o mesmo que criar empatia por essa pessoa.

A vingança tem sempre uma lógica seletiva. A dor que nos causam parece absoluta; a dor que causámos aos outros desaparece da contabilidade. Monza quer cobrar cada gota do próprio sangue, mas quantas vidas ajudou ela a destruir antes disso? Porque deve a sua dor pesar mais do que todas as dores que provocou?

O livro procura humanizá-la ao revelar que parte da sua reputação talvez pertença mais ao irmão, Benna, do que a ela. Algumas das decisões que alimentaram a lenda negra de Monza terão sido tomadas por ele, com ela a assumir as culpas para o proteger. Curiosamente, para mim, esta revelação não tornou a personagem mais forte. Retirou-lhe agência.

Monza teria talvez mais peso se aquelas escolhas fossem realmente suas: uma mulher brutal, ambiciosa e responsável pela própria ascensão e queda. Ao transferir parte dessa responsabilidade para Benna, a narrativa transforma-a menos numa força da história e mais em alguém que foi arrastada por ela.

Ao mesmo tempo, a vingança torna-se cada vez menos ligada à destruição das suas ambições políticas ou militares e mais ligada à relação dependente e profundamente doentia que mantinha com o irmão. O motor emocional deixa de parecer “roubaram-me o futuro” e passa a ser sobretudo “tiraram-me o Benna”. Posso compreender melhor Monza depois disso, mas compreender uma personagem não significa necessariamente querer acompanhá-la.

Também nunca fiquei convencido de que a sua vingança melhoraria verdadeiramente alguma coisa.
Orso é cruel, calculista e perigoso, mas aqueles que se posicionam para o substituir não surgem como alternativas moralmente superiores. Rogont não é uma figura luminosa. As Mil Espadas não são um exército libertador. Monza não está a salvar o povo de Styria. Está a cobrar uma dívida de sangue.

Além disso, alguns dos nomes da sua lista tornam-se progressivamente mais ambíguos. Foscar pode ser fraco e cobarde, mas também é alguém que se retira quando percebe o que vai acontecer a Monza e Benna. Fiel Carpi talvez pudesse ter sido um comandante mais consciente ou moralmente mais honesto do que muitos daqueles que sobrevivem. Não eram homens inocentes, mas também não parecem monstros absolutos.

O que têm em comum é morrerem às mãos da “heroína”.

A pergunta torna-se então inevitável: Monza está a livrar o mundo de tiranos ou apenas a eliminar pessoas imperfeitas que podem acabar substituídas por figuras ainda piores? A sua dor encontrou uma lista de nomes, mas isso não transforma automaticamente essa lista em justiça.

A grande batalha da segunda metade representa bem a distância emocional que senti. Monza encontra-se do lado de Rogont contra Foscar, Cosca e as Mil Espadas, mas não existe ali qualquer energia semelhante à de uma grande resistência heroica. Não há inocentes a proteger, algo precioso que possa desaparecer ou uma causa que me faça pensar que aquelas pessoas têm realmente de aguentar.

Se um lado vencer, o mundo continuará podre. Se o outro vencer, também.

A resolução através de Cosca é divertida precisamente porque ele é tão descaradamente Cosca. Recebe dos dois lados, abandona a batalha, espera para descobrir quem vence e depois junta-se ao vencedor. É cobarde, brilhante, nojento e absolutamente coerente com a personagem.
O “Gandalf ao amanhecer” desta história é um mercenário bêbedo e teatral que mantém todas as opções comerciais em aberto.

Funciona. É engraçado. Mas não eleva emocionalmente a narrativa. A batalha não se resolve por heroísmo, sacrifício ou superioridade moral, mas por oportunismo.

Shivers começa o livro como a personagem com maior potencial para oferecer algum contraste. É alguém que ainda acredita que talvez possa tornar-se melhor. A sua trajetória, porém, transforma-se numa descida progressiva para a amargura, a brutalidade e quase o sadismo.

Essa transformação é bem executada, mas deixa o livro sem a personagem que parecia ter maior capacidade para contrariar moralmente Monza. Quando Shivers cai, não se perde apenas um homem: perde-se a principal possibilidade de contraste.

É precisamente aí que a minha reserva deixa de ser apenas sobre Shivers e passa a ser sobre a própria lógica do livro.

A fantasia heroica tradicional pode ser acusada de irrealismo por acreditar que o bem prevalece, que os heróis triunfam ou que a pureza de coração será recompensada. Mas a inversão dessa lógica não é automaticamente mais realista.

Um mundo onde quase toda a bondade acaba esmagada, contaminada ou tornada irrelevante não é mais realista do que um mundo onde o bem vence sempre. É apenas outra fantasia.

A realidade vive da contradição. O justo perde e o canalha vence. Pessoas boas são esmagadas. Mas também existem lealdade, sacrifício, afeto verdadeiro e pequenos gestos que talvez não salvem o mundo, mas conseguem salvar alguém. Existem pessoas destruídas que ainda encontram força para proteger outra pessoa. Existem momentos bons que nascem de lugares horríveis.

O que me falta não é pureza, redenção ou um final feliz. É variação moral.

Em A Vingança Serve-se Fria, a anti-catarse torna-se por vezes tão previsível como a catarse da fantasia heroica mais tradicional. Na fantasia clássica, esperamos que o herói triunfe. Aqui, esperamos que a tentativa de melhoria seja esmagada, que as relações sejam contaminadas, que os planos colapsem e que o oportunismo sobreviva.

Quando a subversão se repete vezes suficientes, também ela se transforma numa fórmula.

Abercrombie tem indiscutivelmente uma gramática própria: cinismo, degradação moral, violência feia, planos que correm mal, personagens que se revelam piores ou mais partidas do que pareciam e humor negro a unir tudo. Não considero isso um truque. É uma identidade autoral clara. Mas, quando começamos a antecipar constantemente essa mecânica, parte do impacto desaparece.

Por tudo isto, mantenho a avaliação nas 3.5 estrelas. Shivers, Cosca e Morveer garantiram vários dos melhores momentos da leitura, e há cenas de verdadeira inteligência narrativa.

Respeitei mais este livro do que gostei dele. Reconheci a técnica, mas raramente encontrei a chama.

Para mim, a fantasia nunca deixa completamente de estar ligada ao sense of wonder: à possibilidade de entrar num mundo estranho, perigoso e maior do que nós, onde ainda existem aventura, mistério, coragem, amizade, sacrifício e espanto.

Não preciso que a fantasia seja ingénua. A escuridão não me incomoda. Personagens quebradas também não.

Mas não quero um mundo sem heróis.

Quero acreditar que alguém, algures, perante algo terrível, ainda consegue alcançar uma versão melhor de si mesmo para o enfrentar. Não porque seja perfeito, porque nunca tenha caído ou porque não tenha medo, mas porque, quando chega o momento, escolhe erguer-se.

Foi isso que senti faltar em A Vingança Serve-se Fria. Não foi a escuridão que me afastou, mas a ausência de contraste. A sensação de que tudo tende inevitavelmente para o cinismo, a degradação, a vingança, o oportunismo e a anti-catarse.

Por muito bem escrito que isso possa ser, não é aquilo que mais procuro na fantasia.

Eu procuro mundos onde a lama existe, mas onde ainda pode haver uma chama.
Profile Image for Emilia.
93 reviews1 follower
September 15, 2019
I hate that you write too well cause these books are not good for my health. 4 stars for being an amazing book but I also dislike abercrombies books cause they shatter me and make me depressed and anxious. But they are brilliant for what it's worth.
Profile Image for Florinda.
79 reviews1 follower
August 1, 2021
Continuação/conclusão da saga de vingança de Monza Murcatto.

Os participantes desta missão têm todos a promessa de grandes riquezas quando o objectivo fôr cumprido mas todos também têm outras motivações.
Shivers perdeu um olho quando foram aprisionados e torturados e culpa Monza.
Tem razão em fazê-lo e sentimos a tristeza e o desespero quando ele lhe diz "devias ter sido tu".
Alguma da ligação que tinham, e que fazia a mercenária parecer mais humana, foi-se.
Agora só interessa terminar a tarefa e é a mercenária no seu melhor: dissimulação, mortes, alianças com inimigos, amizades quebradas.
Engana pensar que matar o Duque Orso é o fim da história, ainda se vê o depois, o que é refrescante.
O destino concretiza o maior receio do duque, o que é um final óbvio mas irónico.
Às vezes o que nos dá medo é o que melhor para nós e o que nos dá certezas tem piores resultados.

Personagem favorito: empate entre o envenenador Morveer e o faz-tudo Amistoso porque as suas atitudes nunca desiludiram.
223 reviews
June 27, 2026
Um livro fantástico, mas a tradução da segunda parte manteve-se decepcionante. Alguns exemplos são a fala dos personagens traduzida para a 3a pessoa do plural, que irrita. A tradução de “butcher of Capryl” para “algoz de Capryl” é infeliz. “Carniceira de Capryl” seria muito mais simples e próxima do sentido do livro. Recomendo vivamente ler o original em inglês. No caso de não ser possível, a tradução portuguesa pelo menos existe, mas não lhe chega aos pés.
Profile Image for João Santos.
63 reviews
August 7, 2023
Mantém a qualidade da primeira parte, quiçá subindo de nível. Final satisfatório deixando espaço para uma continuação. Gostaria no futuro de uma ligação mais direta com a trilogia da primeira lei quer nos personagens quer geograficamente. Creio haver espaço para isso.
Profile Image for José Cascalheira.
41 reviews1 follower
August 24, 2024
Li o livro A Vingança Serve-se Fria parte 2, do autor Joe Abercrombie. É uma história muito bem contada, que mistura personagens novas e antigas da trilogia A Primeira Lei. O final deixa um impacto significativo, estabelecendo o futuro dos personagens de forma marcante. Gostei bastante.
Profile Image for João.
75 reviews1 follower
September 11, 2020
Tenho sempre alguma dificuldade em escrever sobre os meus autores favoritos mas o Joe Abercrombie é provavelmente o melhor escritor de fantasia moderna e este o seu melhor livro até a data.
Displaying 1 - 11 of 11 reviews