A história que mais gostei de ler nos meus anos de maioridade, este livro foi uma prenda de aniversário incrível. Li Camilo Castelo Branco e li Saramago e quis continuar a progredir na cronologia da literatura portuguesa até à contemporaneidade, da qual conheço tão pouco. A escolha por esta obra foi algo aleatória. Chamou-me a atenção o facto de intercalar dois locais na sua narrativa: Portugal e Japão. Pensei no livro que tinha lido de Valter Hugo Mãe também passado no Japão e senti curiosidade. Em geral, na verdade, estou sempre curiosa em relação ao Japão.
Eu sei que este parágrafo de motivação é pouco relevante para a Review que se segue, mas é importante para mim contextualizar. É útil para perceber que não tinha expectativas, nem ideias pré-estabelecidas e é interessante para mim, a nível pessoal, para me poder recordar mais tarde sobre o que aconteceu em redor desta leitura.
É uma história muito bonita que me sensibilizou bastante e por essa razão senti prazer em demorar a sua conclusão.
Aborda a doença mental. Mas, sobretudo, a forma como a própria condição humana nos condena a um estado de melancolia inultrapassável. Tal deve-se, tal como retratado na orquestração impecável de João Tordo, a dois factores.
Em primeiro lugar, os humanos têm dificuldade em alinhar a realidade com as expectativas que têm para ela. Por isso, muitas vezes, procuram fugas: um sonho, o jogo, a bebida, a religião, qualquer coisa que ofusque o que é real com o que é ilusório. Algumas pessoas, deixam-se levar, abandonam-se à loucura, porque não podem aceitar esta discordância fatal. No fundo, o que afeta o bem-estar da breve vida humana é a patologia conhecida pela mania de grandeza. A incapacidade de ultrapassar a ilusão coletiva de que o contributo individual conseguirá elevar-se para além das limitações de cada um. Todos as têm, apenas alguns se adaptam e encontram a felicidade, encarando de frente a sua realidade.
Em segundo lugar, a dor é hereditária, passa de geração para geração. Esse mal-estar adiciona-se à baseline da tristeza geral da humanidade e modula-a, personaliza-a. Assim, muitas pessoas encaram uma vida de solidão, não conseguindo rever na dor nos outros o bocadinho que lá está que pertence também à sua. Para além disso, ainda a dificultar esse reconhecimento, existe ainda essa tristeza que advém da própria doença, contra a qual ainda não há grande remédio no contexto clínico atual.
No entanto, a chave para aliviar este estado depressivo é mesmo o contacto humano, em particular, a realização de que alguém se preocupa, ou, pelo menos, nos ouve.
Nisto surge mais um desafio, o de guardar espaço para a preocupação com o próprio, para além da salvação do vizinho. Aliás, com o tempo, estamos condenados a esquecer quem fomos no passado, bem como o futuro que antevimos nesses tempos longínquos. Para além disso, na tentativa de evasão, de alívio, surge um fascínio pela dor dos outros, a busca pelo absurdo maior que aquele com que se lida. Ou então, o profundo desejo de encontrar alguém que compreenda. Sentir refletida num estranho, num conhecido, num amigo, uma compreensão mútua.
O que nos une é esta melancolia, a doença coletiva do tempo atual em que vivemos. A melancolia de que padece uma sociedade fragmentada no seu processo de globalização.
João Tordo escreve esta tese numa narrativa incrivelmente eficaz e precisa, mas não menos bela e emotiva. Senti-me obcecada em relação ao mistério da vida de Tsukuda, tal como a personagem principal, o homem inominável que podia ser o autor ou apenas a voz que lê livros na minha cabeça, palavra atras de palavra, a qual nunca poderia contar-me uma história destas de sua própria invenção, mas parece ter sido criada para ler especificamente esta obra. O seu tom, estou misticamente convencida, é o exacto tom da voz do narrador.
Chamei-lhe mistério, é isso mesmo. As linhas temporais cruzam-se magicamente, para frente e para trás, vamos recolhendo pedaço a pedaço. A personagem principal é como um detetive, sabe pouco mais que nós sobre onde a história o leva. Mas é profundamente sensível a ela, tal como o leitor.
De uma perspectiva mais objetiva, ou melhor, menos pessoal, a narração está muito bem escrita. Atinge os pontos certos, em termos de ação, de estilo, de personagens, de circunstâncias, de transmissão da sua mensagem. Aos meus olhos, perfeito.
Outro fator para o deleite do leitor é a junção do folclore japonês com a realidade lisboeta tão concreta. Não leio muitos livros com referências a espaços que me são tão conhecidos, neste caso, as ruas de Lisboa. A experiência é muito gira. Especialmente porque é contraposta com a realidade tão contrastante do Oriente, em particular da cultura japonesa, não deixando, contudo, de tocar na sua herança portuguesa.
Encontras um estranho com um impacto imprevisto e inegável na tua vida. Foi isto que o livro me descreveu e foi isto o que o livro foi para mim.
Portanto, claro que o recomendo. O tema principal é sem duvida a saúde mental. Ajuda ao gosto algum interesse por misticismo ou folclore E, especialmente, sobre temas filosóficos e introspectivos.
Em conclusão, é óbvio que adorei. Também é óbvio, para mim, que quero muito continuar a explorar a obra deste autor. Contudo, de agora em diante, com o risco das expectativas elevadas