Se você acha que o Brasil vive na década de 2020 um caos político, precisa conhecer os anos de 1925 a 1935, mais ou menos. Este livro é uma ótima porta de entrada para um tempo de verdadeiro vale-tudo político; uma época de gente derrubando gente a tiros (ou bombas) em prol do que acreditava ser o melhor caminho sociopolítico para o Brasil. A mesma inquietação aguda que percorria o mundo após a Primeira Grande Guerra chegou a nós, e o Integralismo foi um dos maiores surtos psicóticos dessa fase desgraçada.
Mas não foi pequeno, nem insignificante: chegou a ter 1 milhão de filiados, construiu escolas, creches e promoveu socialização em inúmeros eventos. Teve um papel destacado na vida de muita gente, especialmente em cidades do interior. Era possível viver todas as facetas de uma vida sem sair do Integralismo. O movimento precisava, ao menos, ter sua história bem contada. Não apenas como uma piada derivada da crônica de Aparício Torelly, o Barão de Itararé, que ironizou o assustador episódio da Batalha da Praça da Sé e que colocou os Integralistas no mapa, talvez da pior forma possível: fuzilados.
Este é o livro que veio contar bem a história. E entrelaçá-la a muitas outras: as ideologias que chegaram com os imigrantes na década de 1920. O bolchevismo. O golpe de 1930 que instaurou Getúlio Vargas como ditador. A Revolução Constitucionalista. Figuras ímpares, hoje sabidas mais como nomes na entrada de edifícios públicos. Armando de Sales Oliveira: fundador e primeiro reitor da USP. Miguel Reale: jurista que lançou uma dinastia advocatícia, e organizador intelectual do que seria um Estado fascista brasileiro. E Gustavo Barroso: membro da comitiva brasileira no Tratado de Versalhes, presidente da ABL, fundador do Museu Histórico Nacional, e difusor das ideias do nazismo. Além, é claro, de Plínio Salgado, epicentro corporal dessa história.
A história vai ficando vertiginosa à medida em a Ação Integralista Brasileira perde espaço para costurar alianças e decide radicalizar suas ações. No limite, por pouco não assassinou Getúlio Vargas. Pedro Dória consegue imprimir ao quadro histórico vívido uma camada de clareza nas complexas relações institucionais e políticas que mudam constantemente e levaram à extinção do movimento. Um dos livros novos mais significativos para refletir sobre como a política brasileira chegou aonde chegou. Só não dou nota máxima porque a correlação com o bolsonarismo, vendida pela capa, é uma nota de conclusão; desnecessária pelas similaridades que o quadro da época já traz à mente do leitor, e superficial porque não se estende muito em nenhuma análise. Não compre o livro por isso; compre para entender a ascensão do fascismo na Itália, vislumbrar que o carioca podia entrar num cassino sem sair da cidade, e aprender quem foi Filinto Müller. Notas de um colorido contrapondo-se ao verde massificador dos uniformes da AIB.