A história de 'O Fotógrafo' se desenvolve ao longo de um único dia na vida de cinco personagens, na Curitiba de 2002, às vésperas da eleição presidencial. A narrativa principal acompanha o fotógrafo sem nome do título. Ele se dispõe a seguir Íris, uma bela jovem, e fotografá-la em segredo pelas ruas. O homem misterioso que o contratou para o serviço paga 200 dólares por cada filme não revelado com fotos da moça. Embora o trabalho seja relativamente fácil e o dinheiro seja bom, o fotógrafo falha logo de cara - sentindo-se atraído pela jovem, ele vai ao seu apartamento e se apresenta a ela com uma desculpa qualquer, a fim de vê-la mais de perto e fotografá-la como um artista, não como um paparazzo. Na dinâmica do novo romance de Cristovão Tezza os personagens são revelados gradativamente, ganhando uma impressionante profundidade com o avançar da narrativa. Para que eles sejam compreendidos, não basta acompanhar o que se passa em suas mentes, é preciso também vê-los passar por diversas situações, descobrir o que os outros pensam deles, conhecer seus familiares.
Cristovão Tezza nasceu em Lages, Santa Catarina, em 1952, mas mudou-se para Curitiba ainda quando criança. É considerado um dos mais importantes autores da literatura brasileira contemporânea. Além de escritor, com mais de uma dezena de livros publicados, leciona na UFPR. É autor, entre outros, de Trapo, O fantasma da infância, Aventuras provisórias, Breve espaço entre cor e sombra (Prêmio Machado de Assis/Biblioteca Nacional de melhor romance de 1998) e O fotógrafo (prêmios da Academia Brasileira de Letras e Bravo! de melhor romance do ano). A publicação do inédito O filho eterno marca seu retorno à Record. O livro venceu os mais importantes prêmios literários do país: primeiro lugar no Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa, como melhor livro do ano, venceu o Prêmio Bravo! Prime de Cultura, na mesma categoria. Foi escolhido também melhor romance pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (Apca) e ganhou o Jabuti de melhor romance. Além do Prêmio São Paulo de Literatura.
Um almoço, a necessidade de dinheiro, uma visita ao pai, um reencontro, são algumas das várias situações pelas quais passam os personagens dessa história. Não importa tanto o que se passa com eles do lado de fora mas de suas divagações mentais, revelando ao leitor motivações, medos, pretensões e tudo o mais que poderíamos descobrir se pudéssemos ler mentes.
Agora imagine se tivéssemos realmente o poder de ler mentes mas ao mesmo tempo não fôssemos capazes de escolher qual mente lemos. O Fotógrafo é um livro que nos mostra o lado entediante, a maçada, o desagrado completo de conseguir ouvir os pensamentos de pessoas chatíssimas, babosas, de nenhum proveito.
"Ela pensa; eu vejo. Ela é nítida; eu sou fora de foco", "Ela é bonita; eu sou homem" "é preciso, antes de mais nada, separar uma coisa da outra", "Tenho um desejo: é com isso que preciso lidar, na minha exclusiva medida." E é com essa dose interminável de baboseiras que vamos até o fim do livro. É como estar preso numa cabine de trem com um pequeno grupo de idiotas em uma longa viagem, e termos o azar de sermos capazes de ouvir as asneiras mentais dessa gente toda. Só restaria a esse coitado pular pela janelinha do vagão.