Em vinte narrativas, uma reflexão sobre o Brasil, as relações familiares e a memória.Luiz Ruffato adentra o labirinto das formas breves neste A cidade dorme. O volume reúne vinte narrativas escritas nos últimos quinze anos pelo autor. Juntas, compõem um painel poderoso sobre a passagem do tempo e as dinâmicas da família e da memória.A partir de um ponto de vista pouco presente na literatura brasileira, o do trabalhador urbano, Ruffato tece uma reflexão contundente sobre o Brasil dos grandes centros e periferias. O percurso é da infância à idade adulta, da margem ao miolo nervoso das metrópoles e da linguagem. A meninice nos anos 1960; histórias sobre futebol e a ditadura; questões ligadas à violência urbana; o universo das drogas, tudo vai se mesclando neste livro, que confirma o lugar único de Luiz Ruffato na literatura contemporânea brasileira.
Luiz Ruffato (Cataguases, fevereiro de 1961) é um escritor brasileiro. Formado em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora, exerceu jornalismo em São Paulo. Publicou Histórias de Remorsos e Rancores (1998) e Os sobreviventes em 2000, ambos coletâneas de contos. Ganhou os prêmios APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) e Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional com o romance Eles Eram Muitos Cavalos, de 2001.
Há três segmentos ocultos na estrutura de organização das narrativas breves de "A Cidade Dorme", coletânea de contos de Luiz Ruffato. Tais segmentos podem funcionar, também, como grandes núcleos temáticos que norteiam sua obra como romancista (bem mais regular e consistente): 1) O passado, familiar e provinciano, evocado pelo presente metropolitano solitário; 2) As circunstâncias político-culturais da geração dos anos 1960, às voltas com a ditadura e o gradual processo de crescimento econômico e redemocratização; 3) Aquele presente metropolitano, sob a ótica operária e marginal, atravessada por uma linguagem calcada no ruído da contemporaneidade.
Talvez por só alcançarem uma unidade neste corolário pacientemente burilado, título a título, desde sua festejada estreia no romance com "Eles Eram Muitos Cavalos" (20o1), este compilado de histórias publicadas aqui e ali, ao longo da carreira de Ruffato, soe tão vacilante quando analisada isoladamente, à luz de enredos precocemente interrompidos por um escritor claramente de maior fôlego.
Não à toa, uma das melhores peças do conjunto é uma das mais longas: "Água parada", texto dedicado a Cristovão Tezza que inaugura o segundo e mais potente segmento do livro, com o seu acento geracional comum aos dois escritores (pelo menos quando falamos de um primeiro Tezza, ainda marcado por seu passado hippie e a influência do mentor Rio Apa). É o ponto alto do livro, introduzindo quiçá o mais bem sucedido dos contos (o belíssimo "O Dia em que encontrei o meu pai") e um dos poucos entre eles que funciona sem o suporte formal - largamente explorado no segmento posterior: o conto "Sem Pensar".
O volume finaliza com os procedimentos de linguagem que consagraram Ruffato numa estética que muitos já chamaram de "romance-instalação", e que compõe parte da sua saga proletária "Infernos Provisórios". O último conto, "A alegria", é provavelmente o mais longo e mais pitoresco da coletânea. Em linhas ainda imaturas, dele parece se sobressair o narrador que, mais tarde, renderá o Oséias de "Verão Tardio", este sim um grande testemunho da maturidade de Ruffato, ainda invisível nestas páginas.
Ruffato é um arquiteto literário, um engenheiro das palavras. Trafegando por um caminho ainda inédito a si (os contos), mostra ao leitor a mesma maestria de seus romances, o olhar ímpar que cruza a urbe e suas idiossincrasias. Um livro para ser devorado.
Contos de Luiz Ruffato mapeiam angústias e epifanias da classe operária
Luiz Ruffato vem se dedicando há duas décadas a fazer um mapeamento ficcional da classe operária brasileira. É esse o foco do polifônico Eles Eram Muitos Cavalos, um panorama do caos de São Paulo ao rés do chão, e do ciclo Inferno Provisório, cinco romances sobre a industrialização brasileira pelo ponto de vista de gerações de operários originalmente da cidade mineira de Cataguases.
O lançamento de seu mais recente livro, A Cidade Dorme, é uma oportunidade para uma mirada de conjunto sobre como esse projeto se transplanta para as dimensões restritas do conto.
A Cidade Dorme reúne 20 contos – ou 19 contos e uma novela que ocupa quase um terço do volume, se você for ligado em discutir essas coisas de modo mais específico. Quase todos já haviam sido publicados antes em coletâneas temáticas ou veículos de imprensa, o que explica sua variedade estilística. A unidade se dá pela fidelidade temática ao projeto de Ruffato, a reinvenção da vida operária.
Os contos reunidos em A Cidade Dorme se espalham por angústias e esperanças de quem vive no andar de baixo: o trabalho árduo (em Minha Vida, por exemplo) o rádio como entretenimento (A Voz), o futebol como escapismo e identidade (Bandeira de Luz e Cantos), a desagregação familiar provocada pelo alcoolismo (Promessa), a luta contra a ditadura (O Dia em que Encontrei meu Pai e Sem Pensar) e até mesmo a forma atabalhoada e desumana como os imensamente pobres são obrigados a viver seu luto (A Menina).
São contos que transitam da primeira pessoa escrita em uma prosa com fina sensibilidade para a fala popular a uma linguagem ao mesmo tempo seca e experimental, que busca o poético pela concretude de substantivos. Chama a atenção que a maioria dos contos parece interromper-se em um momento crucial, fazendo da ambiguidade e da incerteza seu maior subtexto.
E há ainda, no meio disso, o curioso Relato de Juan de Cartagena, uma carta de um tripulante amotinado dos navios conduzidos por Fernão de Magalhães na primeira circunavegação do globo, entre 1519 e 1522. No breve relato, Magalhães é mostrado como um comandante imperito, autoritário e traiçoeiro, uma caracterização que pode ser estendida como metáfora à própria formação da América colonial e sua mitologia histórica. E que dialoga com uma epígrafe de Jorge de Lima que o próprio Ruffato já havia usado no primeiro volume da série Inferno Provisório: "Também há as naus que não chegam/ Mesmo sem ter naufragado:/ (...) simplesmente porque/ já estavam podres no tronco/ da árvore de que as tiraram". Uma conexão entre a aflita vida dos desvalidos mostrada no livro e a própria origem do empreendimento Brasil, também ele fadado a interrupções e ambiguidades em cenas cruciais.
This book have a bunch of nice tales. Some of them are very raw and with an clear idea, like Calm Water. Nonetheless others are very difficult to understand within a narrative full of changes and no explanation, what makes those these very intriguing. For me "Destiny", one of the smallest tales was also one of the best. This tale put us in front of the different views in our daily life, showing us that what we think is only related to ours feelings and way of viewing.
É uma série de histórias, a última é a mais longa e a que menos gostei. Eles são facilmente vinculados pelo título do livro. O nível é desigual e algumas histórias deixam o final à imaginação do leitor. Dou duas estrelas porque não foi muito envolvente.