Em 'A Revolta da Vacina' o historiador Nicolau Sevcenko realizou um estudo que buscou reconstituir os episódios que passaram para a história como a maior convulsão social da cidade do Rio de Janeiro, durante a campanha de vacinação contra a varíola (1904). O ponto de vista adotado pela análise é ver a modernidade pelo avesso. Assim, por trás da reforma urbana promovida então pelo prefeito Pereira Passos, é possível ver o processo de especulação imobiliária e a profunda situação de exclusão social. A edição traz, ainda, posfácio de Sevcenko, mapas, fotos de Augusto Malta e Marc Ferrez e charges de época.
"...uma classe política retrógrada que não admite sonhos, muito menos esperanças (...) o que vemos é ovo da serpente, a gênese de um modo de administração no qual o objetivo não é a superação, mas a gestão básica da pobreza como o pilar básico da política social".
Que um livro escrito em 1983 sobre um contexto político de 1904 seja tão atual em 2017 dá uma sensação meio desesperadora de um país em loop há mais de século.
Devorei o livro de ontem pra hoje. É primoroso e me arrependo por não ter lido antes. Eu fiquei pensando no paralelismo que o Sevcenko enfatizou entre a chacina na Revolta da Vacina e o incêndio na favela da Vila do Socó, em Cubatão (1984), que foi motivado pela indignação com as tragédias evitáveis. A tragédia do sofrimento evitável é a pior das tragédias, lembra Jânio de Freitas na epígrafe do posfácio escrito por Sevcenko em 2010. A leitura deste livro nesse momento proporciona cores ainda mais vibrantes, justamente por estarmos vivenciando mais uma das piores das tragédias, que, descomunal, supera todas as anteriores em escala. É impossível não pensar no genocídio provocado por mais uma negligência do Estado brasileiro, essa em face da covid19. Se, por um lado, as proporções são gritantes e motivadas pelo obscurantismo do governo Bolsonaro, por outro, não se pode fechar os olhos à continuidade histórica na qual esse genocídio se insere. Não é uma completa excrescência e, macabramente, a tragédia em curso se junta ao rol de inúmeras outras tragédias que acumulamos em nossa história.
Nicolau Sevcenko, já morto, foi um dos mais conhecidos historiadores da sua geração, tendo publicado títulos que ainda se encontram em catálogo. Esse Revolta da Vacina é um pequeno ensaio escrito originalmente na coleção Tudo é História, da Brasiliense, na década de 1980. O tom um tanto indignado do ensaio, ele explica, em um posfácio, se deu em razão de tê-lo escrito aos 30 anos, influenciado pela atmosfera política dos anos 80, no qual ele percebia semelhanças com o que havia se passado no início do século XX, em que em muito pouco tempo, palavras dele, ‘a desesperança sufocou o sonho’. O livro é realmente bastante opinativo – o que não é necessariamente um problema –, mas isso o torna, digamos, panfletário em termos de narrativa histórica. Eis um trecho, ao tratar da construção da Avenida Central: “Ficava muito claro para que e para quem era inaugurada aquela avenida e às custas de quais sacrifícios e sacrificados”. E sobre o período que abarcou a Revolta da Vacina, a reforma do porto do Rio e a reforma urbana do Prefeito Pereira Passos, a chamada Regeneração, é descrita assim por ele: “A Regeneração significou um processo tétrico de segregação, inculcado num prazo curtíssimo, de elevado custo social, humano e econômico, e intransigente em todos os aspectos”. De qualquer modo, parece-me que ele captou bem o que foi a Revolta da Vacina, ao observar que “Mas o fato é que quando a revolta irrompe, não tem partido, não tem plataforma, nem objetivos explícitos (...) A revolta não visava o poder, não pretendia vencer, não podia ganhar nada. Era somente um grito, uma convulsão de dor, uma vertigem de horror e indignação. Até que ponto um homem suporta se espezinhado, desprezado e assustado? Quanto sofrimento é preciso para que um homem se atreva a encarar a morte sem medo?” Afirmei no início que era um texto opinativo, mas provavelmente a própria situação levou o autor a ser incendiário. A revolta foi mais um – de vários movimentos – espontâneos de motim social no Brasil. Parece – e aqui a avaliação é minha – que existe um certo passivo de desigualdade social que parece ser insuperável no Brasil. 350 anos de escravidão parecem ter criado um espírito autoritário em que as decisões são tomadas de cima para baixo, mesmo que sejam bem-intencionadas, o que era o caso de Oswaldo Cruz e a sua ânsia pela eliminação da varíola no Rio. Só que todos esses processos – venham da esquerda ou da direita – mesmo que bem-intencionados, parecem que nos lançam em um outro processo brutal de desigualdade. São os efeitos colaterais indesejados. No caso do Rio, a Regeneração, tirou os pobres do centro e os lançou nas periferias ou nos morros. Isso parece se repetir, nessa incapacidade de falar e ouvir, que parece que se tornou a tônica – ou talvez sempre tenha sido, mas a gente fingia que não era ¬– da vida política brasileira. De qualquer modo, um livro interessante que agrega muito aos que se interessam em conhecer um pouco mais sobre a nossa tão complexa história.
Excelente trabalho de Sevcenko em conjugar uma análise historiográfica profunda com uma abordagem apaixonada da última rebelião civil do Rio de Janeiro. A obra trata da revolta da vacina como evento culminante de uma série de processos que a antecedem e que não esgotam seus efeitos nela, permanecendo operantes até hoje. As relações entre as elites nacionais, as instituições do Estado e a massa popular que compõem nossas cidades é desnudada de maneira singular por Sevcenko, que traça o itinerário da revolta como uma das mais memoráveis tentativas de resistência popular contra o projeto modernizador das elites republicanas, implementado pelo Estado de maneira autoritária contra a população que teria que, em ultima instância, pagar por seu preço. Apesar de curto, o trabalho de Sevcenko consegue fazer jus à complexidade que envolve qualquer evento das proporções que teve a Revolta da Vacina. No entanto, é curioso observar como a questão da raça parece ser um ponto cego na obra, que não chega a tratar do tema de maneira expressa e demonstra inclusive uma aparente surpresa diante do tratamento desigual oferecido pelas instituições públicas à população residente nos cortiços cariocas e aos imigrantes europeus recém-chegados.
Excelente livro que joga luz à um episódio estudado superficialmente nas escolas. Impossível não traçar paralelos com a sociedade atual e ver como nossos piores traços possuem raízes tão profundas. Esta edição é enriquecida com charges e fotos de Marc Ferrez e Augusto Malta. Livro mais que recomendado para quem tem interesse na nossa história.
"A Regeneração significou um processo tétrico de segregação, inculcado num prazo curtíssimo, de elevado custo social, humano e econômico, e intransigente em todos os aspectos. Seus responsáveis foram aumentando numa escala crescente a dose de opressão e humilhação infligida à população desamparada, como que a testar os limites de sua resistência."
"A revolta não visava o poder, não pretendia vencer, não podia ganhar nada. Era somente um grito, uma convulsão de dor, uma vertigem de horror e indignação. Até que ponto um homem suporta ser espezinhado, desprezado e assustado? Quanto sofrimento é preciso para que um homem se atreva a encarar a morte sem medo? E quando a ousadia chega a esse ponto, ele é capaz de pressentir a presença do poder que o aflige nos seus menores sinais: na luz elétrica, nos jardins elegantes, nas estátuas, nas vitrines de cristal, nos bancos decorados dos parques, nos relógios públicos, nos bondes, nos carros, nas fachadas de mármore, nas delegacias, agências de correio e postos de vacinação, nos uniformes, nos ministérios e nas placas de sinalização. Tudo que o constrange, o humilha, o subordina e lhe reduz a humanidade. Eis os seus alvos, eis o que desperta sua revolta, e o seu objetivo é assumir e afirmar, ainda que por um gesto radical, ainda que por uma só e última vez, a sua própria dignidade. O resto é a agonia e o silêncio."
"Posta dessa forma, temos uma divisão maniqueísta que opõe as forças do bem às forças do mal; os representantes da ordem e os insufladores do caos. Uma lógica mítica, arbitrária e desumanizada: somente a interpretação de um dos lados prevalece e se impõe: aquele que for mais forte. Esse tipo de raciocínio, que esvazia a humanidade do outro, transformando a sua diferença numa ameaça, esteve por trás de todos os grandes massacres da história, dos processos inquisitoriais à conquista da América e a eventos bem mais recentes na nossa história contemporânea."
"Essa separação ética dos corpos, corpos rebeldes, corpos doentes, corpos sãos, preconizava e era simétrica a uma nova divisão geográfica da cidade. Nela, igualmente, desde o início do século, como vimos, a homogeneidade original dava progressivamente lugar a uma discriminação dos espaços. A enorme massa popular dos trabalhadores, subempregados, desempregados e vadios compulsórios foi sendo empurrada para o alto dos morros, para as áreas pantanosas e para os subúrbios ao longo das estradas de ferro e ao redor das estações de trem. Nesse espaço, aproveitando as facilidades de transporte e a oferta maciça de força de trabalho, instalou-se também o parque fabril que circunda a cidade. O Centro, por sua vez, tornou-se o foco de toda agitação e exibicionismo da burguesia arrivista: seu pregão, sua vitrine e seu palco. A zona sul, beneficiada pelos investimentos prioritários das autoridades municipais e federais, se constituiu no objeto de uma política de urbanização sofisticada e ambiciosa, voltada para os poderosos do momento, que encheu de vaidade os novos ricos e de lucros os especuladores."
"A inspiração dessa estratégia procede do modelo de tratamento reservado aos escravos e que vigorou até a Abolição. A revelação notável é que o que antes fora uma justiça particular, aplicada no interior das fazendas e casas senhoriais, tornou-se prática institucional da própria autoridade pública no regime republicano. Aos pobres em geral, nessa sociedade, não se atribuiu a identidade jurídica de cidadãos, inerente à República. Na prática, era reservado a eles um tratamento similar ao aplicado aos antigos escravos, controlados pelo terror, ameaças, humilhações e espancamentos, com o Estado assumindo as funções de gerente e de feitor. Nesse momento de transição brusca e traumática da sociedade senhorial para a burguesa, muitos dos elementos da primeira foram preservados e assimilados pela segunda, sobretudo no que diz respeito à disciplina social. A vasta experiência no controle das massas subalternas da sociedade imperial não podia ser desperdiçada pela nova elite."
"Os conceitos de capitalização, aburguesamento e cosmopolitização talvez sejam os mais abrangentes e aqueles que identificam as raízes mais profundas do processo que acompanhamos e cujo efeito mais cruel foi a Revolta da Vacina. Foi nesse contexto que observamos o conjunto de transformações que culminaram com a reformulação da sociedade brasileira, constituindo a sua feição material mais aparente e ostensiva, o processo de Regeneração, ou seja, a metamorfose urbana da capital federal, acompanhada das medidas de saneamento e da redistribuição espacial dos vários grupos sociais. Esse processo de reurbanização trouxe consigo fórmulas particularmente drásticas de discriminação, exclusão e controle social, voltadas contra os grupos destituídos da sociedade. E foi na intersecção sufocante dessa malha densa e perversa que a população humilde da cidade viu se reduzirem a sua condição humana e sua capacidade de sobrevivência ao mais baixo nível. A soma dessas injunções, vistas pelo seu ângulo, traduzia-se em opressão, privação, aviltamento e indignidade ilimitados. Sua reação, portanto, não foi contra a vacina, mas contra a história. Uma história em que o papel que lhes reservaram pareceu-lhes intolerável e eles lutaram por cuja mudança."
A crítica do autor não é em relação as necessárias mudanças realizadas no Rio de Janeiro, mas sim em relação a como essas mudanças foram feitas, a tudo o que trazia de perverso e escondido sob um discurso de melhorias urbanas, e sobre o que tudo isso diz a respeito de quem está no poder. O desassossego vem do fato de que quase oitenta anos depois, quando o livro foi escrito, tudo continuava igual. Hoje, mais quarenta anos passados, ainda estamos na mesma.
O autor consegue, apesar do livro ser pequeno, não só contextualizar o momento histórico, como a sequencia de fatos relacionados à revolta da vacina e os decorrentes dela de uma forma interessante.
Assim, concordando ou não inteiramente com o autor, o livro lança um olhar mais 'humano' e descreve fatos inconvenientes para a história oficial da cidade do Rio de Janeiro.
"...ambos os casos assinalam uma síndrome fatal para o país: o das oportunidades perdidas e das boas intenções comprometidas. A Revolta da Vacina era justamente o mais evidente sintoma dessa guinada sistemática para o conservadorismo de uma classe política retrógrada que não admite mudanças, muito menos sonhos"
Excelente! Como estrangeiro que sou interessado na história do Brasil, me trouxe um olhar mais profundo a um tema que conhecia superficialmente. A leitura é muito fácil, o que da trabalho é parar de ler.
"A Revolta da Vacina era justamente o mais evidente sintoma dessa guinada sistemática para o conservadorismo de uma classe política retrógrada que não admite mudanças, muito menos sonhos."
Sevcenko cria uma narrativa esplendorosa e sensível para contar de um acontencimento político importante no Brasil, mas que, como a maioria destes, é esquecido e apagado da memória popular.
Livro muito bom e bem documentado, embora de caráter indubitavelmente esquerdista e socialista. Nas críticas aos desmandos feitos pelos revolucionários que depuseram o benevolente e magnânimo monarca, nenhum mea culpa, nenhuma confissão de que o regime anterior houvera sido o tempo áureo de nossa história. Pelo contrário, o atribui à deturpação das ideias republicanas o regime de exceção que se seguiu ao golpe de Estado que proclamou a República. O autor retorna sempre à utopia revolucionária de considerar importante o sonho e imaginário em vez do real, do concreto, do possível.
De Hegel a Slavoj Zizek, o ideal da construção mental impondo-se ao racional e lógico tem gerado sucessivamente regimes monstruosos e opressivos, sempre piores do que os anteriores derrubados. Nunca foi tão verdadeira a frase 'de boas intenções o inferno está cheio' quando aplicada à mentalidade revolucionária.
Apesar dessa falha em explicitar o desastre que foi a implementação do regime republicano e não tecer nenhum tipo de reconhecimento às conquistas trazidas pela monarquia, o livro vale a leitura pela sua pesquisa histórica e narrativa excelente do contexto histórico.
É o segundo livro do autor, e talvez o mais famoso. Tomo muito cuidado ao criticar um trabalho, mas confesso que em ambos os livros do autor, achei a parte literária melhor que a histórica, descontextualizada e sem um número de fontes mais densa, acaba por dimensionar o evento em quadro político pouco nítido, no qual aparecem os cafeicultores aliados aos jacobinos no questionamento de uma república que já representava os interesses dos cafeicultores, sendo a modernização do porto do Rio, elemento desta política. Esperava mais de ambos os trabalhos, sendo o segundo um apanhado da revolução tecnológica do século XX.
Um texto imperdível. Usando a Revolta da Vacina como ponto de partida, faz uma análise amargurada do começo da república, num texto bem escrito e cheio de citações incrivelmente poéticas e igualmente amarguradas de Lima Barreto, João do Rio, Cruz e Souza, entre outros cronistas da época.
Essa edição da Cosac Naify está enriquecida de fotos, mapas e charges que tornam a leitura ainda mais interessante.
Uma tema interessantíssimo, q o autor transformou em discurso de esquerda. Ao invés de olhar os dois lados do evento, o autor faz questão de não ver rigorosamente nenhum benefício imediato ou de longo prazo resultante dos fatos que causaram a revolta. Uma pena