Excelente ensaio da Hannah Arendt sobre a verdade — entendida enquanto verdade de facto, aquela com que estamos mais habituados a lidar, e não a verdade filosófica ou racional — e a mentira — que toma vários rostos e é por isso mesmo tão perigosa; desmorona o solo sob os nosso pés, sem fornecer outro sobre o qual seja possível apoiarmo-nos. Expõe o mentiroso, nas suas múltiplas formas, e aquele que diz verdade, com os seus dispersos motivos. E, como o título indica, devido à inegável, secular e íntima relação da mentira ou da adequação da verdade com a política, é natural que seja esse o elo explorado por várias vezes ao longo deste ensaio.
A procura desinteressada da verdade tem uma longa história: talvez se possa demarcar o momento em que Homero decidiu cantar as acções dos Troianos não menos que a dos Aqueus, o que não se havia verificado antes; ou seja, considerar como igual o amigo e o inimigo, o êxito e a derrota. Assim, podemos depreender que a procura desinteressada da verdade tem de ser realizada do exterior do domínio político, pois requer a libertação do interesse pessoal no pensamento e no juízo.
«Conceptualmente, podemos chamar verdade àquilo que não podemos mudar; metaforicamente, ela é o solo sobre o qual nos mantemos e o céu que se estende por cima de nós.».