Rico em insights que põem na roda conceitos de etologia, linguística, ontologia, política etc: o que é um instinto? como linguagem e brincadeira se compõem a partir de um mesmo jogo meta-linguístico? Como um excesso de vitalidade é parte constituinte do que é o vivo, embora o próprio autor não canse de repetir que as fronteiras (entre vivo e não-vivo, animal e vegetal, animal-humano) são sempre arbitrárias. Como o zoológico é um arranjo trágico de uma inclusão (do animal no humano) excludente (estão desde sempre recortados em uma moldura que compõem seu fundo próprio nas jaulas). Como o devir-animal de um escritor ou de uma criança reabrem as vias para a lógica do terceiro incluído (um animal, o humano e a mínima diferença entre eles), correlata de processos supernormais, onde o que está dado pode ser superado.
Infelizmente, a prosa é bastante claudicante. Seu repertório de conceitos utiliza muito de suas próprias referências (Deleuze, Guattari, Whitehead, Bergson, Simondon, Ruyer etc.) e acrescenta variações a todo momento. Nem todas muito inspiradas. Exige um esforço de seguir de muito perto, para não perder o rastro dos argumentos.
Seria o caso de perguntar: o que Massumi nos ensina sobre o que pensa?
É um livro que se desenrola sob a constante ameaça de ruptura de qualquer apelo prático.
Mas vale nem que seja pelas cutucadas nos neodarwinistas, nos praticantes de éticas normativas e naqueles que insistem em colocar o humano à parte.