O espaço vazio deixado em sua vida após o rompimento de um casamento longo deixa Rafael, um homem de trinta e poucos anos, à mercê da sensação de um "fracasso masculino" - que o atira a um redemoinho de memórias violentas, provocando o início de uma jornada conturbada para reconstruir a própria trajetória enquanto homem: quem é, de onde veio e o quanto ainda pesam, mesmo hoje, certas coisas que aconteceram quando era criança.
Narrado em primeira pessoa, este romance escancara os descaminhos vividos por um homem que se redescobre vítima de abusos sexuais na infância.
Com uma prosa ruidosa e violenta, Três porcos é também uma narrativa sobre a construção do indivíduo, suas confusões em relação a quem se é e as aspirações de "ser homem" num mundo construído sob o peso da masculinidade em suas mais perversas formas.
Neste livro do Labes, os três porcos não são os coitadinhos que têm suas casas derrubadas pelo lobo mau. Muito pelo contrário. Os porcos são animais insensíveis, cruéis até, que devoram o que quer que encontrem pela frente, inclusive carne humana. E é dessa metáfora que o Labes faz uso para descrever momentos horríveis que viveu, com homens-porcos, com abusadores, em sua infância, e que moldaram não somente a criança que foi, mas também o homem que não conseguiu se tornar (que lhe foi roubado, juntamente da inocência). Eu, que já conhecia um pouco do autor pela sua obra de poesia, Amor de Bicho, me surpreendi muito positivamente com esta outra obra, vencedora do Prêmio Machado de Assis em 2021, embora o conteúdo do livro seja de temática bastante perturbadora, porque sabemos que não se trata de ficção, aconteceu com o próprio autor, assim como aconteceu e acontece com tantos outros. O Marcelo Labes é blumenauense, como eu e meu esposo, e ao lermos as escritas dele que descrevem essa cidade e esse estado de SC, cheia de preconceitos, de julgamentos e abusos como os que Rafael sofre no livro, nos sentimos realmente enojados. É assim mesmo que é, se não pior. Um livro que com certeza merecia mais reconhecimento. Parabéns, Labes. Adorei ler sua vingança.
Perturbador, instigante e bem escrito. Eu, que cresci também numa cidade do Vale do Itajaí, ia identificando similaridades entre paisagens e personagens.