Pier Piazza é um psiquiatra italiano cuja notoriedade se afirmou com as suas investigações sobre as bases biológicas da toxicodependência.
Aborda primeiramente o dualismo conhecido do corpo e da mente - intuitivo a todos os humanos, transversal a todas as culturas, desde o animismo ao hinduísmo e às religiões monoteístas orientais e ocidentais. Pretende demonstrar o quão ilusória é a ideia de alma e, acima de tudo, quão perniciosa nas suas consequências - a soberba humana, a destruição do planeta, a tortura de animais, devido a esta separação ontológica. Com esta asserção, de sermos meramente matéria e a nossa complexidade, beleza e feiura daqui derivar, desdobram-se questões de sentido e liberdade. Também elas, para Piazza, nada mais que frutos da incompreensão de algo fundamental - de que podemos retirar enorme sentido deste novo sentido de união com a matéria e de que esta não é sinônimo de determinismo.
Notas também sobre o prazer e a felicidade. A divisão entre dois tipos de humanos baseados em dois processos - endostase e exostase. Se o primeiro nos move para o equilíbrio, o segundo move-nos para os excessos. Neste tipo encontra-se a apetência pelo risco, patologias como a obesidade e a toxicodependência, mas também para a inovação, a procura por novas ideias e a ruptura com velhas estruturas. Indivíduos endostáticos tenderão pois a uma frugalidade e a uma conformação com tradições. Exostáticos, a uma procura constante por prazer.
O ideal para o futuro será, segundo Pier, o Homo Interstaticus. O homem intermédio entre a sobriedade e os excessos. Que compreende mais que a preto e branco, numa gama de várias dimensões.
Como a questão da toxicodependência - Trata-se de uma doença a ser tratada e não de um vício a ser combatido. Demonstra que há vulnerabilidades genéticas e epigenéticas que nos levam à adição e de que nestes casos a "força de vontade", conceito desmaterializado, é praticamente inútil, sendo a taxa de reincidência de cerca de 90 %. Tal não desculpabiliza, claro, a criminalidade, nem nos desresponsabiliza ou delimita o livre arbítrio pois o primeiro passo é dado sem coação, por recreação, experimentação, evasão. Seja qual for o motivo, os argumentos são múltiplos para uma abordagem preventiva, para um despiste de tendências aditivas e um tratamento verdadeiramente eficaz que consiga compreender o fenómeno quer ao nível biológico ( um sistema dopaminérgico hiperativo por esgotamento devido a glucocorticoides/stress, altamente sensível à recompensa do prazer e uma capacidade de plasticidade neuronal bloqueada) quer ao nível social.
Homo Biologicus desilude. Acima de tudo, porque o capítulo sobre os excessos, de longe o mais interessante de todo o livro para mim, ocupa uma fração mínima. E, uma vez que é a especialidade do autor, termos tão poucas apresentações dos seus estudos.
De resto, peca também por alguma arrogância na sua defesa da pura materialidade. Afinal, não chegamos também agora à conclusão que estas divisões e concepçoes são eminentemente reducionistas? E talvez não tenhamos a linguagem para descrever a dialética, o dinamismo entre aquilo que vagamente chamamos de espirito e aquilo de sólido que chamamos de matéria. A física quântica vem baralhar a nossa razão, as nossas definições.
Por vezes, tudo o que e sólido se dissolve no ar, de facto. Não querendo percorrer o caminho inverso e defender uma alma, defendo um agnosticismo na linguagem cientifica para descrever os processos que animam a vida. A inter-relação da química com a ação, o determinismo fundamental que nos define em tantos campos, como os afetos, os instintos, e a incógnita daquilo que nos faz pensar em tudo isto, ou chorar aos acordes de uma canção que não leva sequer a uma memória.
A grande mais-valia que Pier nos traz, é, para mim, uma descida à terra. O despir da nossa auto-denominada superioridade geral e a destruição de vários preconceitos relacionados com muitas perturbações sérias de adição - de um campo mágico de "vontades" para um terreno de fragilidades e desregulações biológicas, epigenéticas*.
*do qual a depressão é também outra patologia incompreendida.