"Para o meu coração num domingo
Te agradeço, coração meu, por não se queixar, por se afanar sem elogios, sem recompensa, num desvelo inato. Você tem setenta méritos por minuto. Cada contração tua é como o lançar de uma canoa no mar aberto numa viagem ao redor do mundo. Te agradeço, coração meu, porque sem cessar você me retira do todo, separada até no sonho. Você cuida para que eu não sonhe demais com o voo para o qual não é preciso ter asas. Te agradeço, coração meu, por eu ter acordado de novo e embora seja domingo, dia de descanso, sob as costelas você seguir o ritmo normal da semana."
Eu não tenho nem palavras pra descrever como me senti lendo isso, o quanto isso foi como um abraço forte e aconchegante. Obrigado, Wisława.
"Despedida a uma paisagem
Não reprovo a primavera por começar de novo. Não a culpo pelo fato de cumprir a cada ano a sua obrigação. Entendo que a minha tristeza não deterá o verde. Uma folha de relva, se oscila, é só ao vento. Não me causa dor saber que os amieiros sobre as águas têm de novo com que sussurrar. Reconheço que— como se você ainda vivesse —a margem de certo lago segue bela como era. Não tenho rancor da vista pela vista da baía resplandecente de sol. Consigo até imaginar outros, não nós, sentados neste instante no tronco de bétula caído. Respeito o direito deles ao sussurro, ao riso e a um silêncio feliz. Presumo até que estejam apaixonados e que ele a enlace com um braço vivo. Algo novo esvoejante farfalha na folhagem. Meu desejo sincero é que eles o ouçam. Nenhuma mudança exijo das ondas costeiras, ora ligeiras ora lânguidas, e que não obedecem a mim. Nada reclamo das águas profundas junto ao bosque, ora esmeralda, ora safira, ora negras. Só uma coisa não aceito. A minha volta para lá. O privilégio da presença —renuncio a ele. Sobrevivi a você só o bastante para pensar de longe."