As grandes descrições e narrativas de Ramalho Ortigão inventaram a moderna literatura portuguesa de viagens, emprestando-lhe cosmopolitismo, alegria e luxúria - e um picante de humor e ironia que só Ramalho pôde conhecer.
Condensando num só volume os dois tomos da edição original que reúne textos escritos entre 1867 e 1910, esta edição de Pela Terra Alheia percorre a Espanha, a Argentina, a França, a Alemanha e a Itália. São evidentes o apreço pelo detalhe, a notável ironia de Ramalho Ortigão, bem como o seu deslumbramento pelas cidades e paragens que visita. Simultaneamente romântico e cosmopolita — o autor de Praias de Portugal é um viajante culto e informado, desejoso da companhia do leitor; por isso, os seus textos são visuais, enaltecem a paisagem (descrevendo-a em pinceladas fortes), elogiam os costumes e os hábitos estranhos, constroem um ideal de civilização onde o homem é substituído pelo gentleman e a curiosidade é tão eterna como as paragens por onde nos leva, concebendo-se a si mesmo como «um risonho fantasma de pé leve».
O final é digno de uma grande ópera, à vista da Sicília, a súmula do espírito da civilização.
José Duarte Ramalho Ortigão nasceu no Porto, na Casa de Germalde, freguesia de Santo Ildefonso. Era o mais velho de nove irmãos, filhos do primeiro-tenente de artilharia Joaquim da Costa Ramalho Ortigão e de D. Antónia Alves Duarte Silva Ramalho Ortigão.
Viveu a sua infância numa quinta do Porto com a avó materna, com a educação a cargo de um tio-avô e padrinho Frei José do Sacramento. Em Coimbra, frequentou brevemente o curso de Direito, começando a trabalhar como professor de francês no colégio da Lapa, no Porto, de que seu pai era director, e onde ensinou, entre outros, Eça de Queirós e Ricardo Jorge. Por essa altura, iniciou-se no jornalismo colaborando no Jornal do Porto . Foi colaborador em diversas publicações periódicas, nomeadamente: Acção realista (1924-1926); O António Maria (1879-1899); Branco e Negro: semanario illustrado (1896-1898); Brasil-Portugal: revista quinzenal illustrada(1899-1914); Contemporânea (1915-1926); Galeria republicana (1882-1883); A imprensa: revista científica, literária e artística (1885-1891); O occidente: revista illustrada de Portugal e do estrangeiro (1877-1915); A semana de Lisboa: supplemento do Jornal do Commercio (1893-1895); Serões: revista semanal ilustrada (1901-1911); O Thalassa: semanario humoristico e de caricaturas (1913-1915).
Em 24 de outubro de 1859 casou com D. Emília Isaura Vilaça de Araújo Vieira, de quem veio a ter três filhos: Vasco, Berta e Maria Feliciana.
Ainda no Porto, envolveu-se na Questão Coimbrã com o folheto "Literatura de hoje", acabando por enfrentar Antero de Quental num duelo de espadas, a quem apodou de cobarde por ter insultado o cego e velhinho António Feliciano de Castilho. Ramalho ficou fisicamente ferido no duelo travado, em 6 de fevereiro de 1866, no Jardim de Arca d'Água.
No ano seguinte, em 1867, visita a Exposição Universal em Paris, de que resulta o livro Em Paris, primeiro de uma série de livros de viagens. Insatisfeito com a sua situação no Porto, muda-se para Lisboa com a família, obtendo uma vaga para oficial da Academia das Ciências de Lisboa.
Reencontra em Lisboa o seu ex-aluno Eça de Queirós e com ele escreve um "romance execrável" (classificação dos autores no prefácio de 1884): O Mistério da Estrada de Sintra (1870), que marca o aparecimento do romance policial em Portugal. No mesmo ano, Ramalho Ortigão publica ainda Histórias cor-de-rosa e inicia a publicação de Correio de Hoje (1870-71). Em parceria com Eça de Queirós, surgem em 1871 os primeiros folhetos de As Farpas, de que vem a resultar a compilação em dois volumes sob o título Uma Campanha Alegre. Em finais de 1872, o seu amigo Eça de Queirós parte para Havana exercer o seu primeiro cargo consular no estrangeiro, continuando Ramalho Ortigão a redigir sozinho As Farpas.
Entretanto, Ramalho Ortigão tornara-se uma das principais figuras da chamada Geração de 70. Vai acontecer com ele o que aconteceu com quase todos os membros dessa geração. Numa primeira fase, pretendiam aproximar Portugal das sociedades modernas europeias, cosmopolitas e anticlericais. Desiludidos com as luzes europeias do progresso material, porém, numa segunda fase voltaram-se para as raízes de Portugal e para o programa de um "reaportuguesamento de Portugal". É dessa segunda fase a constituição do grupo "Os Vencidos da Vida", do qual fizeram parte, além de Ramalho Ortigão, o Conde de Sabugosa, o Conde de Ficalho, o Marquês de Soveral, o Conde de Arnoso, Antero de Quental, Oliveira Martins, Guerra Junqueiro, Carlos Lobo de Ávila, Carlos de Lima Mayer e António Cândido. À intelectualidade proeminente da época juntava-se agora a nobreza, num último esforço para restaurar o prestígio da Monarquia, tendo o Rei D. Carlos I sido, significativamente, eleito por unanimidade "confrade suplente do grupo".
Na sequência do assassínio do Rei, em 1908, escreve D. Carlos o Martirizado. Com a implantação da República, em 1910, pede imediatamente a Teófilo Braga a demissão do cargo de bibliotecário da Real Bi
"Quer-se a viagem, a liberdade, a largueza da terra, a vastidão do mar e a amplidão do céu - o mundo! Não há outro remédio nestes casos de não fazer o que eu fiz: arranjar a mala e partir."
Crónicas de viagens pela Europa e pela América de Ramalho Ortigão. Para além de descrições físicas de espaços e ambientes, tem também vários apontamentos culturais no seu estilo próprio. O livro está dividido em cinco capítulos/países: Espanha, Argentina, França, Alemanha e Itália.
"Fui, de uma vez, as cinco da manhã, sentar-se no lugar mais alto do hemiciclo, para ver dali nascer o Sol do outro lado do estreito, por cima da Calábria."
Nesta viagem pelo estrangeiro, na companhia de Ramalho Ortigão, é certo que metade das páginas são dedicadas a Madrid. No entanto, ainda que haja descrições de espanto e encantamento em muitas paragens, é na parte final do livro, quando passamos pela Sicília, que as palavras são mais arrebatadoras. Ainda assim, sobre Roma: «Parti em seguida para Nápoles; e da minha breve estada em Roma trouxe uma rara impressão cantante, perfumada e luminosa - a mais doce carícia de uma lição de Beleza, que bem lamento hoje não saber mais lucidamente transmitir pela escrita, em dádiva de Natal, àqueles que amo.»
É interessante na medida que apresenta um olhar sobre cidades muito conhecidas, mas numa época qb distante e revela já muita crítica e consciência social sobre vários problemas portugueses e do mundo!