A posteridade prega, por vezes, partidas aos vaticínios contemporâneos. Gérard de Nerval é disso exemplo. Valorizado, em tenra idade, pela qualidade da tradução do Fausto, de Goethe, para francês, que muito ajudou a popularizar a obra em França, a sua própria produção literária recebeu, na melhor das hipóteses, um sucesso moderado. Por consequência, manteve-se relativamente anónimo para o grande público, e chegou, até, a acabar os seus dias na mais obscura pobreza e marginalidade, sucumbindo ao suicídio. Todavia, Proust considerá-lo-ia um dos melhores escritores do século XIX, e uma das suas inspirações literárias de relevo
Para tal, muito contribuiu a obra As Filhas do Fogo. Publicada em 1854, esta consiste numa colectânea de criações literárias, publicadas anteriormente em folhetim em diversos periódicos franceses. A abrir o livro está um texto introdutório onde o autor dedica As Filhas do Fogo a Alexandre Dumas, fazendo a sua defesa pessoal contra acusações de que teria sucumbido à loucura. Pelo contrário, admite um esgotamento nervoso, que na verdade teve, e explica-o à luz de uma imaginação exacerbada, pois, para Nerval, “inventar, no fundo, é […] voltar a recordar” (NERVAL, p. 10-11), sendo-lhe impossível criar sem encarnar ele próprio as personagens e situações imaginadas. De facto, o primeiro conto, “Angélica”, é dedicado às atribulações de um personagem ficcionado do século XVIII, o abade de Bucquoy, responsável pelo enigmático esgotamento. Composto em estilo epistolar, “Angélica” é simultaneamente uma crítica sarcástica aos romances históricos de capa e espada, tão em voga na altura (veja-se Walter Scott e Dumas pai); e um exercício de metaficção em que o autor e a escrita do próprio conto constituem parte essencial da narrativa: a busca de fontes históricas para a ficcionalização da vida do abade de Bucquoy.
Seguem-se duas produções dedicadas ao Valois, que evocam esporadicamente as próprias memórias de infância de Nerval. Primeiramente, “Sílvia”, conto memorialista em que a linha do tempo alterna erraticamente entre o presente e o passado, ao sabor das recordações do personagem anónimo. Atormentado pela memória de uma antiga paixão de infância, Adriana, o anónimo, onde se entrevê Gérard, vê as suas relações com Sílvia, seu efémero amor de juventude, e depois com Aurélia, sua musa inspiradora, contaminadas e destruídas por semelhante evocação ininterrupta. Apenso a “Sílvia” estão as “Canções e Lendas do Valois”, ensaio etnográfico sobre o folclore autóctone da região.
A rematar a primeira parte da obra, encontra-se uma verdadeira miscelânea literária, composta por três contos, “Jemmy”, “Octávia” e “Emília”; um ensaio, “Ísis”; e uma peça de teatro, “Corilla”. Enquanto “Jemmy” é uma aventura pelo vasto Oeste Selvagem, incluindo até a intervenção essencial dos índios norte-americanos no enredo; “Octávia” é a narrativa da malfadada viagem de um anónimo por Itália, fugindo de um amor não correspondido, apenas para acabar de novo preso numa nova paixão inacessível. “Ísis” surge como complemento a “Octávia” na medida em que se concentra num episódio do referido conto, a visita a Pompeia, para dissertar sobre os mistérios insondáveis do culto da deusa do Egipto antigo, Ísis, e a sua influência na religião romana. Por sua vez, “Corilla” é uma comédia ao estilo italiano sobre o carácter, tantas vezes ilusório, do amor. E “Emília” é a história trágica do tenente Desroches, casado com a filha do soldado alemão que foi forçado a matar na última batalha das guerras napoleónicas, cuja revelação do facto inusitado leva à sua destruição.
A segunda e última parte de As Filhas do Fogo é uma antologia poética denominada “As Quimeras”, contendo doze sonetos. A poesia de Nerval é composta de um misto de elementos mitológicos e esotéricos greco-romanos com uma simbologia bíblica intrincada. O panteísmo da Antiguidade impregna os poemas “Myrtho”, “no dia em que rezava,/como as Musas, fiel a um Deus que a Grécia adora”; “Hórus”, “tremulando, o Deus Kneph estava abanando os mundos”; “Anteros”, “é que, da geração de Anteu originado”; e “Délfica”, “recordas-te, Dafne, daquele romance antigo” (NERVAL, pp. 220-21). Já as referências bíblicas podem ser entrevistas no número total de composições líricas, a relembrar as doze tribos de Israel ou os doze apóstolos, bem como nos poemas: “Artemis”, “flor de Santa Gúdula, roxo coração”; e “Cristo no Jardim das Oliveiras” (conjunto de cinco sonetos), “quando o Senhor ergueu os descarnados braços/entre os ramos sagrados”, “e até Judas fugiu”, “e foi Pilatos quem respondeu” (NERVAL, pp. 221-23). “Versos Dourados” é fruto de um sincretismo entre princípios esotéricos animistas e fundamentos alquímicos, alertando o “Homem, livre em pensar e que crês só tu ser/o Cérebro de um mundo em que tudo germina” (NERVAL, p. 224) para a sua injustificada arrogância como suposto mestre da Natureza, que, ela sim, reserva segredos, para nós insondáveis, que são a essência do universo. Contudo, o mais enigmático é o poema “El Desdichado”, com a sua imagética do mal-aventurado, de vago cariz autobiográfico, de onde apenas se depreende claramente a alusão aos esgotamentos nervosos que sofreu, “duas vezes venci, passando o Aqueronte” (NERVAL, p. 219), estando o resto envolto num significado críptico, ainda hoje desconhecido.
O tema central de As Filhas do Fogo é indubitavelmente a figura feminina, que dá nome à obra, bem como à totalidade dos contos, ensaios e à peça de teatro. A mulher assume-se como o agente à volta do qual gravita a acção. E o enfoque do narrador, que, através de todas as produções literárias, parece constituir uma só entidade, o próprio Nerval e as suas múltiplas facetas e existências interiores, a elas dedica as suas reminiscências e recordações, interesses e iniciativas. Influenciado pelo conceito de eterno feminino de Goethe, a mulher afigura-se-lhe como a fonte de felicidade, por excelência, devido ao seu carácter contemplativo, puro e transcendental, porque gerador da própria vida, logo inerentemente sibilino e profético, porque guardiã dos mistérios do mundo. No entanto, se a mulher é a fonte de felicidade, Nerval opta por a contemplar, ao invés de a fruir.
Em profunda correlação com a figura feminina, está o carácter do amor, o outro grande vector da narrativa. Tal como a sua posição em relação à felicidade, Nerval opta por um amor mais idealizado do que vivido. Mesmo quando está prestes a experiencia-lo, acaba por inadvertidamente relegar-se para segundo plano, concentrando-se, antes, num voyeurismo contemplativo, assombrado de reminiscências. Quando de facto passa à acção, contenta-se em ser apenas o amante, o outro, numa perpétua preservação de si próprio, reduzindo a sua exposição às profundas revoluções do amor, e cristalizando-se como o eterno “desdichado”. Desta forma, pode afirmar Corilla, em relação a Fábio, um outro Nerval, “talvez apenas adore em mim a actriz: o seu amor necessita da distância e dos focos da ribalta” (NERVAL, p. 194).
É difícil inserir Gérard de Nerval no âmbito dos movimentos literários oitocentistas. Apesar de se ter filiado no movimento romântico, associando-se à defesa do Hernâni de Victor Hugo, que marcou o início de uma nova estética teatral, e colaborando com Alexandre Dumas em vários projectos dramatúrgicos, as suas influências são heterógenas e o seu percurso sui generis. Em primeiro lugar, Nerval foi dos poucos autores franceses a receber uma influência directa da literatura germânica, através da tradução do Fausto e das antologias de poetas românticos alemães, que editou. Em segundo lugar, é possível associa-lo à literatura gótica de cariz onírico-fantástica, veja-se os seus personagens principais, mal-aventurados e sempre a um passo do desespero, fruto das leituras dos contos de Hoffmann e de Charles Nodier. Em terceiro lugar, perpassam pela ficção nervaliana elementos da cultura clássica, com constantes referências mitológicas, a defesa do culto esotérico de Ísis, e as ruínas de Pompeia e Herculano como frequente plano de fundo da narrativa, que o aproximam do pré-romântico Rousseau.
Toda esta amálgama heterodoxa de elementos e influências contrastantes produziu um corpus único na literatura francesa do século XIX, que não deixaria de ecoar muito para além da morte do próprio autor. A imagética críptica e sincrética de Nerval, misto de desespero e esoterismo onírico, terá continuação tanto na ficção de Lautréamont, como na estética de vanguarda surrealista. Verlaine inclui-lo-á na lista de poètes maudits, como um dos prenunciadores do simbolismo. E Proust inspirar-se-á na concepção fluída e memorialista do tempo, explorado em ”Sílvia”, para a criação de Em Busca do Tempo Perdido.
Referências
NERVAL, Gérard de (1997) – As Filhas do Fogo. 2.ª Ed. Lisboa: Editorial Estampa. (Livro B, n.º 15).