Este livro não é um dogma. Não é uma teoria psicológica. Não é lei. É uma partilha. Não é amor o que nos magoa, não é amor o que nos faz magoar: é uma distorção do amor. E se a nossa forma distorcida de amar e/ou de sermos amados nos tiver sido ensinada na infância? E se tudo estiver lá, naqueles episódios que recordamos como memórias, mas que, na verdade, são tão presentes que ainda hoje nos fazem criar memórias?
Agressores e vítimas, como parte da mesma dimensão humana de um ciclo violento que começou um dia e que algum dia terá de parar.
Cada caso é um caso, mas no meu, e no de tantos, é quase matemático de tão humano: as nossas primeiras referências de amor marcam a forma como o vivemos até hoje.
Foram as ralações da minha infância que me fizeram viver um certo padrão nas relações da minha vida de jovem adulto. Até que me libertei. Se te magoa, se te faz magoar, chama-lhe tudo. "Só não lhe chames Amor".
Nunca escondi a minha admiração pelo André enquanto autor e enquanto ser humano. Este foi o terceiro livro que li da sua autoria e, tal como o "Tia Guida" e o "25+", também adorei este! São livros distintos, histórias diferentes, mas no fundo todas interligadas por serem partilhas reais. Partilhas do André enquanto ser humano. Ao ler "Só Não Lhe Chames Amor", não só me revi nas suas palavras, como ainda aumentou a minha admiração por ele próprio. A história de vida dele poderia ser a história de qualquer um de nós. Em algum ponto da nossa vida vivemos relações tóxicas, sejam com namorados/as, pais ou amigos. Felizmente, nunca passei pelo que ele passou com a mãe ao ponto de cortarem laços durante anos, mas também eu fui filha da violência física e psicológica dos meus pais, também eu vivi relações tóxicas dos dois lados da moeda. Tudo isso se baseia nas nossas raízes, mas também na confiança que temos nas pessoas. Ao nos tornarem desconfiados, ao nos darem motivos para isso, penso que todos nós desenvolvemos um lado tóxico, e que também todos nós já fomos vítimas nessas relações tóxicas. O André inspira-nos a quebrar o ciclo, a fazermos as pazes com o passado e também com o presente. A sermos alguém melhor no futuro, para nós e para os outros. Porque, quando quebramos o ciclo, deixamos de permitir que nos magoem, afastem, voltem, magoem de novo e assim sucessivamente até ao dia que gritamos "Basta!" Quando colocamos um ponto final, tudo muda. Tudo melhora. E nós começamos a viver em vez de apenas sobreviver a um dia de cada vez.
Obrigada André, por mais um livro tão bom e por continuares a partilhar a tua escrita. Sem dúvida alguma, que os teus pais de agora e a tua Tia Guida de sempre, são muito orgulhosos da pessoa em que te tornaste e do que alcançaste.