Em 1973, a Editora Arcádia encarregou o escritor Manuel da Fonseca de escrever uma biografia de Amália Rodrigues. A ideia parecia genial – pôr um escritor famoso e conhecido pela sua militância comunista a traçar o perfil daquela que era então considerada o ícone do Fado e um dos «pilares» da propaganda do Regime. Essa biografia nunca foi escrita, mas ficaram gravadas longas horas de conversa entre os dois, quer na casa da Rua de São Bento, quer na herdade que Amália tinha no Brejão.
Entretanto, a Arcádia acabou e as gravações ficaram esquecidas. Até hoje... Neste que será certamente o mais importante livro publicado no Centenário de Amália, essa conversa – até hoje inédita – é finalmente revelada, permitindo-nos acompanhar a vida de Amália, nas suas próprias palavras, desde a pobreza em que nasceu e cresceu até ao auge da sua carreira artística.
Amália Rodrigues (1920-1999) foi uma fadista, cantora e actriz portuguesa. Figura incontornável da História do Fado, é comummente aclamada como a voz de Portugal e uma das mais brilhantes cantoras do século XX.
O livro respeita, acima de tudo, o fluir da conversa entre Amália e Manuel da Fonseca - vem daqui a minha avaliação.
O facto de nem as notas de rodapé estarem presentes no miolo (e sim como anexo) faz com este livro seja dos mais importantes documentos para se compreender à distância (do tempo) a retórica de Amália.
As perguntas de Manuel da Fonseca parecem-me, algumas vezes, querer espremer dela um ponto de vista social e político, e é com grande gozo que podemos ver, aqui nesta convera, Amália a fugir sem fugir, a responder sem denunciar a sua intimidade (nos assuntos que ela entende serem merecedores de alguma cerimónia e respeito).
A falta de memória de Amália (confessada por ela logo no início) não é, nesta conversa, uma desfeita, pois assistimos, por contrário, a uma flexibilidade grande para os nomes dos sítios onde tocou, para nos contar como foi gerida a sua carreira internacional, como foi recebida, quem lá estava, como se sentiu na noite X em Paris em comparação com a Y no Líbano ou a Z Moscovo. Senti-me em diálogo com a semi-deusa. Senti que, indomável, seremos sempre incapazes de a conhecer como aquilo que sentimos a ouvi-la nos faz querer.
No geral um ótimo livro para todos os que fãs de Amália a desejam conhecer um pouco melhor. Em termos de entrevista Manuel da Fonseca fica um pouco aquém porque às próprias perguntas acaba por induzir uma resposta que ele pensa ser a de Amália acabando esta por apenas responder com 'Sim' ou 'Não'. Na minha opinião e após leitura deste livro, Amália é uma Mulher extremamente inteligente, perspicaz que por vezes por algum motivo ou por conveniência tenta passar-se por 'simples ignorante'. Aborda alguns temas controversos da época como o facto de ter cantado Camões, as cartas ao Presidente de Conselho António de Oliveira Salazar e do quão querendo ou não Amália se tornou muitas vezes um símbolo de propaganda para o regime que todos conhecemos. Um dos maiores senão o maior ícone nacional, símbolo da alma e desencanto de um povo que ainda hoje a recorda com ternura.
livro importante para quem quer conhecer um pouco mais da incrível artista e pessoa que foi Amália. uma mulher simples, que procurou ser amada por todos, e que por isso teve alguns dissabores.
como entrevista, muitas vezes Manuel da Fonseca faz a pergunta e dá a resposta, tomando o espaço da conversa (não obstante ter pensamentos interessantes).
Sente-se ao longo da entrevista bastante desconforto por parte de Amália. Esse desconforto traduz-se em pouca partilha percebendo-se o porquê de estas gravações nunca se terem transformado numa biografia.
Amália Rodrigues é sem dúvida a voz mais importante quando falamos de Fado. A sua carreira musical de sucesso, juntamente com o seu extenso material discográfico, fazem parte de um maravilhoso legado deixado pela Rainha do Fado. Este é um livro absolutamente maravilhoso porque junta a estrela do Fado, por um lado, e o genial escritor Manuel da Fonseca, por outro, numa obra que recolhe as horas de entrevistas realizadas com um faro jornalístico muito apurado por parte de Manuel da Fonseca.
Amália nas suas palavras é a vida da rainha do fado contada por ela mesma onde página após página aborda diferentes pontos e diferentes momentos que ocorreram na vida desta mulher maravilhosa.
Amália Rodrigues é sem dúvida uma das personalidades mais importantes da cultura portuguesa, é a voz do fado mais reconhecida e influente, e uma mulher que faz parte da história musical portuguesa. Para mim, ter lido este livro acabou sendo uma experiência maravilhosa, pois me fez conhecer mais sobre uma artista que admiro e respeito muito e sou profundamente grato por toda a música que ela nos deixou.
"Você quase não deu nada, fugiu sempre" Manuel da Fonseca.
Manuel da Fonseca termina a entrevista com o resumo mais objetivo que lhe podia ter dado.
Não pode ser feita uma apreciação a este livro como a outro. Trata-se de uma entrevista, pelo que o interesse que despertará ao leitor dependerá e muito do interesse pelas conversas frequentemente confusas entre os dois (três por vezes).
Nada sabia de Manuel da Fonseca e foi quem mais me surpreendeu. Sendo ele o entrevistador frustrado, acabou por não conseguir evitar "forçar" respostas a Amália. Por cada pergunta que fazia e resposta que não obtia, Manuel da Fonseca partilhou visões e opiniões que acabaram por me surpreender.
Amália , ainda que retraída e tímida, pelo menos nesta entrevista, é uma pessoa fascinante. Sobretudo pela simplicidade, inteligência e humanismo que demonstra.
Gostei. 3*
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Para quem quer saber mais sobre quem era Amália Rodrigues este livro é, muito provavelmente, o retrato mais pessoal que vai encontrar. É interessante ver como Amália pensa e responde às perguntas. Torna-se humana aos nossos olhos. Para mim, que descobri quem ela era na escola, mais de 10 anos após a sua morte, ela era uma figura histórica, uma lenda.
Apesar de ter gostado de acompanhar este livro, dei por mim inúmeras vezes irritado pela forma como o Manuel da Fonseca conduziu a entrevista: fazendo perguntas demasiado longas e em alguns momentos com explicações pretensiosas sobre o tema; interrompendo a Amália; indiciando a resposta que pretendia obter logo pela maneira como abordava vários assuntos; uma tendência para politizar demasiado a postura da Amália, que, de forma muito hábil, se desviava dos temas que achava mais sensíveis. Há páginas em que a mancha de texto relativa ao Manuel é ridiculamente maior ao que foi dito pela Amália, levando-me em alguns momentos a querer perguntar “quem é que está a ser entrevistado aqui”. À parte disso, este volume mostra-nos uma Amália inteligentemente montada na imagem que criou para si mesma, munindo-se duma inocência e às vezes de uma “falta de reflexão” sobre si que sabemos que não corresponde completamente à verdade.
Gostei imenso do prefácio escrito pelo Rui Vieira Nery, que visitei algumas vezes a meio da leitura da entrevista. As notas de rodapé são um elemento importantíssimo e extremamente bem cuidado.