Após um longo hiato editorial, é publicada a Poesia de Luís Miguel Nava, numa cuidada edição preparada por Ricardo Vasconcelos, autor do livro Campo de Relâmpagos — Leitura do excesso na poesia de Luís Miguel Nava, também publicado pela Assírio & Alvim há alguns anos. A presente edição incluirá alguns inéditos e dispersos.
«Era há muito desejada a reedição da obra de Luís Miguel Nava, desaparecida das livrarias há vários anos, apesar do interesse que nela continua a existir não só em Portugal, onde os seus livros se esgotaram sucessivamente, mas também no Brasil. A relevância da edição da Poesia que agora se apresenta é de assinalar por não só incluir todos os poemas que o autor publicou em vida, mas também por trazer a público um conjunto muito substancial de textos inéditos ou parcialmente inéditos […], que são apresentados devido à sua qualidade e ao facto de contribuírem para uma compreensão mais global da escrita de Nava.»
Luís Miguel Nava nasceu em 29 de Setembro de 1957 em Viseu, cidade onde frequentou a Escola Primária. Após uma breve passagem pelo Colégio dos Carvalhos (1965/67), regressa a Viseu, aí concluindo o Ensino Secundário em 1974. No ano seguinte, vem para Lisboa e inscreve-se no curso de Filologia Românica da Faculdade de Letras. Após terminar a licenciatura (1980), frequenta o mestrado de Literatura Francesa (1980/82), começa a colaborar regularmente como crítico literário em jornais e revistas (Colóquio-Letras, J.L., etc.) e exerce as funções de assistente do Departamento de Literaturas Românicas entre 1981 e 1983, data em que parte para Oxford, em cuja universidade permanece durante três anos como Leitor de Português. Desde 1986, reside em Bruxelas, onde desempenha o cargo de tradutor do Conselho das Comunidades Europeias. A partir dessa data, passa a viajar cada vez mais, sobretudo pela Europa, Norte de África, México e um pouco por todo o mundo. Brutalmente assassinado em Maio de 1995 no seu apartamento de Bruxelas, o poeta deixou inéditos alguns textos narrativos (a publicar brevemente) e instituiu por testamento a Fundação Luís Miguel Nava, que desde 1997 publica a revista Relâmpago e atribui um prémio anual de poesia.
"Não muita vez nos vemos, mas, se poucos amigos há para falar dos quais me sirvo de relâmpagos, de todos é ele o que melhor vai com a minha fome.
Os dedos com que me tocou persistem sob a pele, onde a memória os move. Tacteiam, impolutos. Tantas vezes o suor os traz consigo da memória, que não tenho na pele poro através do qual eles não procurem sair quando transpiro. A pele é o espelho da memória."
Não Muita Vez Luís Miguel Nava
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Ao fechar esta obra pela primeira vez percebo que a marca que deixa é uma marca altamente sensorial — é uma imagem mental abstracta, difícil de colocar por palavras e que quase não se deixa aprisionar. Mas sinto-a, sinto-a na pele. Não sei qualificá-la, não sei se é positiva ou negativa, tranquilizadora ou incómoda: apenas "é", apenas existe. Na poesia de Luís Miguel Nava há uma certa dessacralização do corpo, é algo de tão excessivo, expositivo, intenso (pornográfico, diria) que as vísceras acabam por ser sacralizadas: é como se a pele (também ela um órgão) fosse uma membrana permeável através da qual interior e exterior comunicam directamente; humano, animal, mineral, divino — uma amálgama impossível de destrinçar. Nesta profusão de dimensões e de planos é a experiência sensorial do mundo que impera... e dito isto, enquanto percorria as palavras do poeta era-me impossível afastar os diálogos que automaticamente se criavam dentro de mim: pensava nos quadros de Francis Bacon e no conceito "Corpo sem Órgãos" (Deleuze-Guattari).
“Os dedos com que me tocou persistem sob a pele, onde a memória os move. Tacteiam, impolutos. Tantas vezes o suor os traz consigo da memória, que não tenho na pele poro através do qual eles não procurem sair quando transpiro. A pele é o espelho da memória.”