Primeiras impressões:
Semelhante a "São Bernardo", Graciliano Ramos incorpora extrema importância ao personagem principal e narrador homodiegético da história. O leitor sabe e experiencia a realidade através, restritamente, da perspectiva do protagonista/ narrador João Valério. Porém, Valério não é tão dominante na trama como Honório, considerando que as personagens "secundárias" em "Caetés" possuem mais profundidade e aparecem de forma mais autônoma e com mais frequência no decorrer do livro por via de diálogos que Valério escuta e/ou participa.
A história de fundo do romance é diminuta ao compararmos com a de "São Bernardo", que descreve com extrema rapidez os primeiros 23 anos de Honório, e depois pula diversos anos e percorre rapidamente até os 46 anos de Paulo Honório, o inicio da trama principal. Em "Caetés", temos apenas menções passageiras do passado de João Valério. Descobrimos, já no primeiro capitulo, que ele trabalha para os Teixeira já faz 5 anos antes do começo da história. Fora isto, o pouco que sabemos de seu passado aparece no capitulo 3; sabemos que vem de família de propriedades e que precisou vender o gado e as terras da família quando ficou órfão antes de ser empregado por Adrião, onde trabalha até hoje. Além disto, sabemos que escreve (ou tenta escrever) Caetés já faz cinco anos.
Na parte principal da trama, dos capítulos 19 ao 29 (33 páginas), temos os dois apogeus do livro: (1) João Valério finalmente tem a sua paixão retribuída por Luísa, mulher de Adrião; e (2), o suicídio de Adrião, que estava já moribundo. Nestes capítulos, o autor descreve aproximadamente 4 meses da sua vida.¹ E, semelhante a "São Bernardo", após ocorrer o principal climax da trama, a velocidade da narrativa aumenta com o narrador utilizando menos e mais curtas cenas, mais ellipses (avanços no tempo) e mais resumos (partes que descrevem mais tempo em menos quantidade de linhas). Finalmente então, o narrador chega no final da trama e temos o último capítulo com as suas considerações finais enquanto vaga pela cidade após sair da casa dos Teixira, onde, agora, após a morte de Adrião, é sócio e possui apenas amizade pela Luisa (...por enquanto?).
A conclusão do livro, apesar de não constituir exatamente uma epifania tão grandiosa, ainda é interessante, considerando que o caráter ordinário da vida de João Valério faz parte da trama e do estudo da personagem e do ambiente. Podemos observar esta banalidade de cidade pequena no decorrer do livro: o trabalho de Valério é tedioso e fácil²; suas inspirações literárias são triviais³ e ultimamente falhas⁴; e até mesmo suas inspirações românticas não são arquetípicas nem de cavaleiros românticos porém também não são de Don Juans libertinos, caindo em um meio termo indeciso e oscilante entre libertinagem e paixão celeste e idealística⁵.
Além disto, Valério deseja a morte de Adrião, considerando-a como a solução dos seus problemas, porém quando Adrião morre, nada muda e tanto Valério quanto os leitores não sabem o quanto isto é devido ao choque causado pela morte e o quanto é devido ao fato de Valério simplesmente não amar mais Luisa.
Além disto, outros pontos interessantes do livro são:
- As personagens "secundárias" possuem personalidade e diálogos realistas e divertidos, porém não tão banais como costumamente acontece em outras obras consideradas "naturalistas"
"Parece que se está ouvindo a linguagem pedante, cheia de válvulas e aurículas e ventrículos, do doutor Liberato, as frases truncadas do padre Atanásio, as perfídias do Nazaré, as imbecilidades do Barroca e do doutor Castro, as ingenuidades do Isidoro Pinheiro" (HOLANDA, 1934);
- A história secundária de Valério escrevendo sobre Caetés (algo que ele não tem conhecimento sobre) é burlesca ao explorar a criação literária de forma cômica;
- A falta de cenas "inúteis". Até mesmo as cenas mais ordinárias do livro são relevantes pois, além de divertidas e interessantes por si só, ao observá-las pela perspectiva de Valério e pelo contexto de onde se encontram na trama, elas servem como ferramenta para a exploração do psicológico de Valério;
- A economia de páginas. Ao ler o livro, o leitor percebe que grande parte do escrever deste livro deve ter se baseado em cortes, porque, além de carecer de partes inúteis, o livro não possui muita repetição, além daquelas propositais para efeito "poético".
¹
Sabemos disto porque o narrador informa que é março no começo do capitulo 19 "Em princípio de março, Adrião foi à capital(...)", "No dia em que Adrião viajou dirigi-me a casa dele(...)"(p.87); e no capitulo em que Adrião se suicida Vitorino confunde o tiro com uma bomba para São João, o que só aconteceria no mês que ocorre o dia de São João, junho, "Um tiro, ninguém sabia. Eu ouvi, mas pensei que fosse bomba, agora pelo S. João." (p.116)
²"É um ofício que se presta às divagações do espírito, este meu. Enquanto se vão acumulando cifras à direita, cifras à esquerda, e se enche a página de linhas horizontais e oblíquas, a imaginação foge dali. Organizar partidas e escrever a correspondência comercial são coisas que a gente faz brincando." (p.31)
³" Talvez eu pudesse também, com exígua ciência e aturado esforço, chegar um dia a alinhavar os meus caetés. Não que esperasse embasbacar os povos do futuro. Oh! não! As minhas ambições são modestas. Contentava-me um triunfo caseiro e transitório, que impressionasse Luísa, Marta Varejão, os Mendonça, Evaristo Barroca. Desejava que nas barbearias, no cinema, na farmácia Neves, no café Bacurau, dissessem: 'Então já leram o romance do Valério?' Ou que, na redação da Semana, em discussões entre Isidoro e padre Atanásio, a minha autoridade fosse invocada: 'Isto de selvagens e histórias velhas é com o Valério.'" (p.38)
⁴"Abandonei definitivamente os caetés: um negociante não se deve meter em coisas de arte. Às vezes desenterro-os da gaveta, revejo pedaços da ocara, a matança dos portugueses, o morubixaba de enduape (ou canitar) na cabeça, os destroços do galeão de d. Pero. Vem-me de longe em longe o desejo de retomar aquilo, mas contenho-me. E perco o hábito." (p.129)
⁵ Valério se tortura em busca do amor de Luisa, sofrendo por cada palavra dela e agindo de forma delirante no decorrer do livro, porém, assim que ele adquiri este amor ele já não o acha tão inspirador assim: "Achei-a pequenina e fraca, ali caída, numa confusão. Ergui-a, compus-lhe a roupa, encostei-a ao peito, onde ela se aninhou, trêmula. Não se assemelhava à mulher que me deixara aniquilado ao pé da manjedoura onde repousava um Jesus de biscuit, junto a um rio de vidro. Embalei-a como a uma criancinha, passando-lhe pelos cabelos os dedos pesados, numa carícia lenta. E disse-lhe coisas infantis que se sumiram depressa nas névoas daquela embriaguez. Assim estivemos até que as luzes deram sinal para apagar-se." (pág. 89); "Não lhe caí aos pés, com uma devoção mais ou menos fingida. A felicidade perfeita a que aspirei, sem poder concebê-la, rapidamente se desfez no meu espírito. Livre dos atributos que lhe emprestei, Luísa me apareceu tal qual era, uma criatura sensível que, tendo necessidade de amar alguém, me preferira ao dr. Liberato e ao Pinheiro, os indivíduos moços que frequentavam a casa dela." (pag. 90)
Apesar disto, por mais que tente, Valério não pode simplesmente desprezar alguém que ele cativou, como um arquétipo de Don Juan faria.