Como o próprio Ricardo diz no prefácio, o protagonista do livro não é Jair Bolsonaro, mas sim “a igreja evangélica brasileira e seu papel nesse fenômeno chamado bolsonarismo”. E o Ricardo é muito competente em tratar tanto das razões pelas quais Bolsonaro teve (e ainda tem) bastante apoio entre os evangélicos como das consequências disso para a igreja no país.
O livro mostra como o presidente usou do que há de pior na igreja evangélica brasileira para construir um personagem que “fala a língua dos evangélicos". Culto à personalidade, a ideia de que “Deus não escolhe os capacitados, mas capacita os escolhidos”, teologia da prosperidade, medo de perseguição religiosa. Ricardo deixa bem claro que tudo isso tem um papel nessa construção. Habilmente, essa exposição vem depois da explicação sobre “Verdade e pós-verdade”, logo no primeiro capítulo. O fio condutor do argumento é de que o bolsonarismo deixa de lado a verdade em prol de um projeto de poder e se torna imune à críticas.
A questão mais profunda (e é aí o maior mérito do autor) é mostrar quais são as distorções que é preciso fazer ao evangelho para que ele se iguale à ideologia bolsonarista. Por exemplo, ao seguir o nós-contra-eles do bolsonarismo, abdica-se do esforço de pacificação descrito no Sermão da Montanha. Não que a polarização seja de via única, o autor deixa claro que grupos à esquerda também mentiram, corromperam em nome de seu projeto político. O autor também mostra como a esquerda erra gravemente em conseguir encontrar várias interseccionalidades em parcela pequena da população, mas estereotipa o modo de vida de 22% dos brasileiros.
O ponto principal do livro, no entanto, é mostrar como a igreja evangélica brasileira acabou cooptada pelo presidente em troca de promessas eleitorais como um ministro no STF, respeito aos padrões tradicionais de família e etc. O problema é que nessa troca a igreja perde a “voz profética”. Enquanto apoiam o presidente, perdem a moral para criticar seu governo e em vez de se arrependerem, dobram a aposta e se comprometem cada vez mais com os erros da administração.
Acredito que tanto evangélicos como não evangélicos se beneficiariam bastante da leitura. Único ponto que o não crente perde em entendimento são pequenas entrelinhas, por exemplo, a ótima ideia de colocar trechos de Franklin Ferreira e Ed René Kivitz um atrás do outro, cada qual criticando problemas na esquerda e direita respectivamente para mostrar o erro de achar que o cristão “não pode ser de esquerda (ou direita)”.
Richard Niebuhr tem um livro muito bom sobre o engajamento de cristãos com a cultura (Cristo e Cultura), que Tim Keller usa como referência na sua obra Igreja Centrada. As ideias do Ricardo parecem dialogar mais com os modelos Contracultural e da Relevância, que, a grosso modo destacam a igreja como contracultura e o bem comum. Por exemplo, sobre profecia e propaganda ele diz: “É muito provável que essa mensagem nos mantenha longe das esferas terrenas de poder. Paciência. Se os senhores da terra não aceitam Deus como ele é, mas querem usar seu nome para o que querem que ele seja, tudo passa a ser uma questão de decidirmos a que senhor iremos agradar.” (p. 198).
Já sobre a ação na esfera pública, ele diz: “A má notícia para os cristãos é que nem todos vêem o que nós vemos ou sentem o que nós sentimos - por mais que eu desejasse ardentemente que sim. A boa notícia é que é exatamente no campo daquilo “que todos nós enxergamos”, como diz Obama, que se cumpre a vontade de Jesus para nossa vida. “Suas boas obras devem brilhar, para que todos as vejam e louvem seu Pai, que está no céu (Mt 5:16).”
Em resumo, o livro todo é uma abordagem desses modelos de engajamento cultural (para entender melhor essa visão, veja Uma Fé Pública, de Miroslav Volf, também publicado pela Mundo Cristão). Como outras resenhas aqui já destacaram, acho que o capítulo 12 poderia ter um pouco mais de informação sobre a teologia do domínio. Ele relaciona essa teologia com o pós-milenarismo. Uma explicação sucinta das vertentes escatológicas poderia deixar mais claro o problema, que não está muito concentrado no pós-mileranismo em si.
Por outro lado, ele acerta em relacionar a igreja brasileira com a igreja norte-americana. De fato, muitos de nossos problemas e miopias vêm de lá e dificilmente vemos isso. Como o Ricardo deixa claro no capítulo “Frágeis”, a igreja evangélica brasileira está muito mais próxima dos brancos sulistas do que da mensagem do Martin Luther King (ainda que isso não represente a igreja evangélica como um todo, crentes conservadores ou progressistas que não tem o mesmo espaço que alguns pastores midiáticos).
Ricardo Alexandre participou da minha banca de TCC de jornalismo sobre meu podcast a respeito de igrejas neopentecostais na região do Brás, em São Paulo. A maior razão do convite foi porque sabia que ele tinha escrito esse livro. A contribuição dele foi excelente e depois de ler o livro tenho ainda mais certeza que acertei na escolha.