O desespero de quem não pode amar: sentimento espelhado no seu estado de espírito ao caminhar pelas ruas perdidas da capital, no seu habitual passo discreto. Kyro Goldween era o nome do jovem ladrão, um dos tantos que empestavam Etari: uma nação perto da ruína. Atormentado pelos seus atos, o rapaz decide testar-se no ERM, um exame de renome, tido como capaz de transformar a vida de quem o realizasse. Contudo, vê-se arrastado para o irromper de uma conspiração medonha ao deparar-se com uma organização secreta, de alguma forma ligada a um passado que ele próprio desconhece.
Levado aos seus limites, Kyro terá de esforçar-se para ultrapassar o mundo que lhe faz frente, com a esperança de desvendar um mistério protegido pela humanidade transcendente ao tempo, entidade que a defende.
O desenvolvimento do personagem principal é incrível. O autor mostra as várias camadas que formam a sua personalidade de uma forma muito discreta, mas presente. O restante conjunto de personagens é também interessante à sua maneira, executados com uma grande sensibilidade emocional. Espero conhecer mais um pouco do antagonista, no volume seguinte.
Conceito (9/10)
Único e promissor. Encontrei um mundo que superou em muito as minhas expetativas. Desde os detalhes introduzidos nos diversos momentos de ação em que a história se dá, às curtas passagens descritivas que em muito esclarecem, a capacidade de criação e imaginação por detrás desta obra pode passar à primeira vista como um pouco modesta. Eu, pelo contrário, diria sublime.
Mistério (8/10)
A componente de mistério desaparece a meio da história, de certa forma. No entanto, há momentos de grande tenção e reviravoltas inesperadas, no mínimo, e que certamente servem de alicerce à continuidade da narrativa. Desde traições a uma mudança total de contexto, penso que o autor consegue da melhor forma manter-nos agarrados a este seu romance.
Escrita (7/10)
Achei acessível, repetitiva em certas passagens. No entanto, o estilo da sua escrita favorece em muito a ação que se desenrola pelas páginas fora deste livro. Arrisco-me a dizer que a fluídez com que a narrativa se consegue é excecional. Poderia, no entanto, melhorar em certas questões este aspeto mais técnico enquanto autor. Para um primeiro livro, é fascinante o que já conseguiu.
"Goldween" revelou-se original dentro do género em que se encontra. Deparei-me certo dia com este livro ainda na sua produção enquanto web-novel, e desde então acompanhei o seu progresso capítulo após capítulo. Pela primeira vez em muito tempo, encontrei na literatura portuguesa uma escrita voltada para o desenvolvimento do personagem em contexto de ficção, muitas vezes esquecida em prol da narrativa. Aqui, vê-se um mundo distópico, um personagem principal complexo e por vezes dificil de se gostar, mas com o qual se simpatiza: ora por pena, ora pelas parecenças que se espelham no nosso ser. Não esqueço o mistério que se expande ao longo da obra, aspeto digno de menção e que contribui em grande parte para o porquê deste derradeiro sucesso, a meu ver. É com felicidade que vejo autores portugueses escrever para um público dito "morto", para um público jovem adulto; talvez com traços de um infanto-juvenil, mas com a profundidade que se espera de um grande ensaio sobre o tema que tece este livro: a apatia do ser humano, e como ultrapassá-la.
Um livro bastante bom em que, na minha ótica, se destacou tanto pelo exímio trabalho do autor no desenvolvimento de personagens como pela sua capacidade de introdução aos momentos de ação que embora sempre inesperada, não deixa de ser extremamente aliciante deixando o leitor sempre com vontade de ler mais .